Entrevista Sérgio Dias: “Estamos vivos e a veia criativa continua a pulsar”

8 de maio de 2017
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“Estamos vivos e a veia criativa continua a pulsar”

 
Por: Hudson Rabelo
 
No próximo sábado (13/05), o Bananada 2017 recebe Os Mutantes. Já com mais de 50 anos de carreira, a banda, atualmente formada por Sérgio Dias, Esméria Bulgari (vocais), Vinícius Junqueira (baixo), Henrique Peters (teclados) e Cláudio Tchernev (bateria) é sem dúvida o nome há mais tempo em atividade a se apresentar esse ano. Na bagagem, não só a carreira já absolutamente consolidada como um dos maiores nomes da música brasileira (e aqui os louros são divididos com Arnaldo Baptista e Rita Lee), mas também o repertório recente e uma inquietude e competência que são incomuns mesmo em bandas bem mais jovens. Sérgio Dias, mutante desde os 14 anos, respondeu  algumas perguntas ao Hora Extra sobre a fase atual da banda.

Hora Extra: Os Mutantes completaram 50 anos de idade no ano passado, e já são 11 anos desde a volta, em 2006. Vocês lançaram uma coletânea e um disco ao vivo (ambos pela Luaka Bop) e dois outros de estúdio (pelos selos Anti- e Krian) desde então, e continuam ativos, em turnê. Como tá a produção do próximo disco? E como tem sido o processo de composição das músicas com a formação atual?

Sérgio Dias: Com a Luaka Bop, selo do David Byrne, foi uma coletânea cuja ação partiu dele. Mutantes foi descoberto depois que Kurt Cobain declarou para o mundo que nós éramos de uma criatividade que ele há muito não conseguia encontrar, que a banda estava revolucionando um lado musical dele. Isso se espalhou pelo mundo e alguns formadores de opinião passaram a ouvir Mutantes. E mais e mais pessoas, artistas e público, foram à luta para conhecer. De repente houve um boom nas rádios e viramos uma banda cool. David Byrne entrou em contato comigo e eu o ajudei a selecionar as músicas que achava mais interessantes musicalmente.
 
O Haih… ou Amortecedor foi lançado pelo selo Anti-, de Los Angeles, o mesmo selo do Tom Waits. Foi a resposta a uma solicitação da gravadora. Não fazia sentido Mutantes ficar apenas no saudosismo. Estamos vivos e a veia criativa continua a pulsar. Convidei Tom Zé, outro tropicalista, para trabalharmos juntos [em 6 músicas do disco]. Foi uma experiência maravilhosa! Haih… ficou nos primeiros lugares nas rádios universitárias [nos EUA] após o lançamento por algumas semanas. A crítica internacional ouviu muito atenta e, como resultado, tivemos 5 estrelas em importantes revistas e sites de música. Sugiro que vocês façam essa pesquisa.
 
No Fool Metal Jack, lançado pela Krian, selo de Nova York, reproduzimos o que estava acontecendo com os Estados Unidos na época da crise deles. Já estava morando lá e via as pessoas perdendo suas casas, seus trabalhos. Os garotos indo para as guerras estúpidas. O álbum retrata aquele momento caótico americano. Assim como Haih…, Fool Metal Jack foi muito bem recebido pela crítica. Tanto nas turnês americanas como nas da Europa e Austrália, o set list é formado por músicas dos primeiros álbuns e também dos dois últimos, e a reação do público é a mesma! Ficam encantados, cantam juntos, até mesmo em português. Tocamos nos EUA – norte, sul, leste e oeste – algumas vezes e foi muito bom pra mim como co-fundador de Mutantes ver que a recepção das músicas, as antigas e as novas, era a mesma. Eles não estavam preocupados em se situar se era da primeira ou da última formação. Isso significa que, aos ouvidos atentos, a alma de Mutantes estava ali presente. Muito emocionante mesmo! Quanto o processo de composição das músicas com a nova formação: uma zona, mas divertido!

HE: Como você conheceu os músicos da formação atual e como sacou que eles se encaixariam bem nos Mutantes?
 
SD:
Sou macaco velho. Sei reconhecer talentos de longe.
 
A Esméria eu conheço há uns 20 anos. Trabalhamos juntos durante todo esses anos. Ela sempre fez backing vocal comigo, desde antes de estar nos Mutantes. Quando foi convidada para a volta dos Mutantes também foi como backing vocal, mas daí fui assistir um show dela e vi nela a capacidade de dar um passinho à frente, por favor. Gosto muito de sua presença de palco. Nesse novo álbum, pedi músicas pra ela. Ela me aparece com algumas. Ela é muito ligada. Acho que é meio ET.

O Vinicius era amigo de minha filha Virginia. Ele apareceu lá em casa para ensaio da banda dele. Na verdade, ele tocava bateria. No intervalo ele começou a brincar com o baixo e pude perceber que o talento estava ali. Aí eu estava precisando de um técnico no estúdio e o convidei. Ele andava com um baixo pra cima e pra baixo. Tinha acabado de gravar o Estação da Luz [lançado em 2000] e precisava de um baixista. Daí dei um prazo pra ele tirar as músicas e bingo: entrou pra banda. Nos mudamos pra São Paulo e ele foi junto. Aquela praga passou a morar com a gente para nossa felicidade. Ele tem uma personalidade artística que gosto muito.

O Henrique era tecladista de uma banda curitibana, o Black Maria, que eu estava produzindo. Gostei dos timbres que ele tirava. Quando Mutantes voltou, eu precisava de alguém que cuidasse de todas as partes de orquestras e teclados e que também funcionaria como curinga, caso acontecesse alguma coisa e o Arnaldo não pudesse tocar. Daí ele tirou toda a parte que o Arnaldo tocava. É outro famigerado que nos faz muito bem.
 
Eu e Cláudio Tchernev trabalhamos juntos nos shows do disco Mind over Matter, gravado em 1990 e lançado pelo selo Inglês Expression Records. Tocamos algumas vezes pelo Brasil. Ele também foi o baterista que gravou no meu álbum Estação da Luz. O que você pode esperar de um romeno que faz cover do Zappa? Um animal na batera. Nos divertimos muito.

Aliás, essa banda me deixa muito feliz. Somos como uma família. Onze anos de estrada e convivência.

HE: Em 2015 a banda lançou pela Polysom o "Mande um abraço pra velha", que é uma coletânea de faixas de compactos e versões ao vivo – o compacto com o Caetano, por exemplo, tá lá. Mas um dos itens mais raros da discografia, que é o compacto do O'Seis, ficou de fora. Como foi a escolha das faixas que entrariam?
 
SD
: O’Seis e os Six Sided Rockers é ainda um filão a ser descobertos pelos cegos.

HE: Como tem sido pra uma banda que nasceu naturalmente pop passar por essas mudanças de mídia e de gosto do público?
 
SD
: Não se pode ignorar a presença do mp3, apesar de ele mutilar, piorar a qualidade dos masters.
 
HE: Na época do início dos Mutantes e do lançamentos dos primeiros discos, vivia-se no Brasil e em várias partes do mundo uma experiência coletiva de expansão de fronteiras da mente, do corpo e do comportamento. A banda encarnou essa exploração em níveis radicais – não apenas em relação a drogas e sexo, mas também, por exemplo, ao fabricarem os próprios instrumentos e tentarem fazer uma turnê tocando em cima de um ônibus. Como é para a banda existir e criar hoje, num mundo com outras drogas e outra relação com as drogas, uma dinâmica de individualismo e consumismo bem mais acentuada, outra ideia de profissionalismo, etc.?

SD: Vamos por partes: Primeiro, nos cinco primeiros discos de Mutantes não havia drogas na concepção dos álbuns. Não usávamos drogas nessa época. O psicodelismo era a nossa natureza antes do próprio nome ser dado. Só começamos a usar a partir do álbum O A e o Z, concebido, gravado e mixado com LSD. [Nota: o disco foi gravado em 1973 e lançado apenas em 1992]. As drogas eram usadas não pra ficar doidão, mas como autoconhecimento e ato de comunhão. Éramos o UM com o todo. Com o ácido sabíamos como era ser você. Veja as letras do O A e o Z. Está tudo lá. A droga hoje é um subproduto do egoísmo. Não existia nos Mutantes esse lance de “Ah, quero me dar bem”. Não estávamos preocupados com o sucesso. Queríamos tocar, tirar o som e nos dar pra música. Queríamos nos superar. Estudávamos horas e horas. Hoje o carinha faz algumas aulas e acha que está pronto pra gravar um álbum. Imagina um cirurgião fazer uma cirurgia mais ou menos! Ou um piloto de caça achar que já pode pilotar um bicho daquele porque tirou um brevê! Por que é que um profissional da música estuda mais ou menos e acha que tá bom?

Nós fabricávamos os instrumentos porque eles não existiam aqui. No meu caso, eu falava pro meu irmão Cláudio o que estava precisando e nós íamos elaborando o projeto do instrumento juntos, como foi o caso da Regulus, a “Guitarra de Ouro”. Ele ia queimar as pestanas para descobrir aquilo que nem sequer existia. Músico não pode e nem deve ser vagabundo. Só talento não dá pano pra manga. Tem que ter horas de vôo.

Você falou em uma dinâmica de individualismo e consumismo. Ou seja, criação de seres vazios e neuróticos. Droga errada, ego inflado, individualismo e consumismo. Então isso gera um ser insignificante, careta, escravo do sistema. Dá uma escutada na música “Escravo da Revolução” do meu álbum Estação da Luz e lá você vai ver o que penso disso.

HE: Que discos e artistas você tem ouvido ultimamente, Sérgio?
 
SD:
Gosto de escutar música no carro. Gosto de escutar o velho e bom Jimmy Smith, uma escola para quem gosta de órgão. Escutei o trabalho de um artista brasileiro ainda não conhecido e que está gravando um álbum agora. O nome dele é João Leopoldo. Um trabalho genuíno. Ouço a obra de um organista (de órgão de tubo) francês Jean Guilou. Piro com o futurismo dele… Ele deu um concerto na igreja Saint Eustache em Paris. Saí em estado de graça. Gosto muito das composições da minha atual parceira Carly Bryant. Ela me enviou algumas composições, nos encontramos em Paris na penúltima turnê e deu a maior cola. Acabamos de gravar um álbum no meu estúdio em Las Vegas. Ouço o Black Star, o último álbum do David Bowie. Obra-prima. Maravilhoso. Gosto muito de ouvir Travelers, da Anouska Shankar. Mas o que mais me enche a alma atualmente é o álbum Colour, a ser lançado [em parceria] com a Carly Bryant. Tenho estado sempre em turnê, não sobra muito tempo para escutar músicas. Acho que isso acontece com todo mundo que está direto na estrada.
 
HE: Quando o público vai poder ler sua versão da trajetória dos Mutantes?
 
SD:
Olha, as pessoas estão me cobrando isso. Não sei te responder. Acho que não tenho vontade, depois de tanta merda escrita sobre os Mutantes. Tantas mentiras e oportunismo decrépitos. Me enojam…

Crédito da foto: Clarissa Lambert