Entrevista: Alessandro Visacro

29 de abril de 2018
Alessandro Visacro é oficial das Forças Armadas, operador de forças especiais,

Alessandro Visacro é oficial das Forças Armadas, operador de forças especiais, autor de “Guerra Irregular: terrorismo, guerrilha e movimentos de resistência ao longo da história”, “Lawrence da Arábia” e “A Guerra na Era da Informação”, todos da Editora Contexto. É,  ainda, coautor de “El Control Territorial en el Siglo XXI: fundamentos teóricos”, publicado pela Escola Superior de Guerra da  Colômbia.

Marina Remy:  O que lhe motivou a escrever um livro sobre esse tema?

Alessandro Visacro: A estrutura conceitual que tradicionalmente tem orientado o Estado na promoção de segurança e defesa já não atende mais satisfatoriamente às legítimas demandas da sociedade. A ideia deste livro é justamente fornecer subsídios para uma maior compreensão acerca da violência armada nas primeiras décadas do século XXI, ampliando o debate sobre um tema que goza de muito pouco consenso.

Marina Remy: Quais os tipos de guerra que existem hoje? Elas são diferentes das guerras do século XX?

Alessandro Visacro: Os conflitos em curso ao redor do mundo divergem significativamente do modelo de confrontação armada consagrado no século XX. Atualmente, as guerras apresentam uma enorme multiplicidade de atores e motivações que dão forma a ambientes extremamente complexos, não se limitando apenas à rivalidade entre Estados nacionais antagônicos, que recorrem a seus exércitos por razões estritamente políticas.

Observamos, ainda, o uso de outros meios que não somente as alternativas militares tradicionais, além do predomínio de uma forma de violência que se caracteriza por ser, a um só tempo: armada, organizada, não estatal, endêmica e hiper-difusa.

Marina Remy:  Atualmente, quais são as principais ameaças à paz? Por quê?

Alessandro Visacro: As sociedades na era da informação têm apresentado demandas por segurança que, apesar de não serem inéditas em sua essência, são requeridas em um novo contexto. Nem tanto pela dimensão dos danos experimentados, mas, sobretudo, pela conectividade e interdependência dos mais variados fatores. Crimes transfronteiriços, terrorismo doméstico e internacional, fluxos migratórios, pressão demográfica, urbanização incontida, fortalecimento de identidades étnicas e culturais, globalização, escassez de recursos e questões ambientais são apenas alguns dos componentes desse intricado mosaico.

Marina Remy: Como esse tipo de guerra se reflete no Brasil e na América Latina?

Alessandro Visacro: Os países latino-americanos, em particular, têm se mostrado incapazes de vencer a delinquencia criminal organizada. Facções como Los Zetas, Mara Salvatrucha (MS-13), Barrio 18, Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC), dentre tantas outras, coexistem com grupos que se originaram de causas políticas e ideológicas, mas que acabaram absorvidos pelo vigor da economia ilegal, como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), o Exército de Libertação Nacional (ELN), o peruano Sendero Luminoso e o Exército do Povo Paraguaio (EPP), por exemplo. O cientista político colombiano Vicente Torrijos interpreta essa convergência de ameaças críticas segundo a perspectiva de uma Insurgência Terrorista Criminal, descrevendo-a como uma tendência bastante desanimadora para o nosso continente.

Marina Remy: O Brasil apresenta índices alarmantes relativos à segurança pública. O crime organizado é uma ameaça no contexto nacional?

Alessandro Visacro: Hoje, grupos rebeldes, organizações terroristas, movimentos insurgentes e quadrilhas armadas possuem motivações diversas, não necessariamente centradas em uma agenda política. Até mesmo, organizações criminosas e gangues territoriais têm desenvolvido o potencial de desestabilizar gravemente a ordem interna, extrapolando as fronteiras nacionais por meio de suas práticas delituosas e conexões globais.

No Brasil, não tem sido diferente. A “criminalidade de alta intensidade” revela-se um fenômeno extremamente complexo, adquirindo as características daquilo que muitos chamam de “insurgência criminal”.

Marina Remy: A guerra civil na Síria pode levar a uma guerra entre os Estados Unidos e a Rússia?

Alessandro Visacro : Muito dificilmente.

Os Estados nacionais, como entes políticos, ainda competem acirradamente entre si. Todavia, têm diversificado as formas de enfrentamento e procurado reduzir a visibilidade das ações estratégicas, em face de uma opinião pública, cada vez mais, intolerante e impaciente, e menos disposta a arcar com os custos de uma guerra total.

Embora a guerra civil síria represente um enorme imbróglio político (sobretudo, para a Casa Branca), uma escalada do conflito, obviamente, não traria vantagens significativas para as grandes potências.