Quebra de Contrato: operação ABU JIHAD

10 de novembro de 2018
Kito Mello
por

Presidente da ASBI - ASSOCIAÇÃO SIONISTA BRASIL- ISRAEL. Professor, autor-roteirista, escritor, pesquisador e ghost writer.

Yasser Arafat à esquerda e Abu Jihad à direita - Responsáveis pela onda de terror dos anos 70

Na primeira quinzena de abril, a equipe encontra-se com ele em Palermo, na Itália, onde ficam sabendo detalhes da missão por um bilhete.

“Às 17 horas vocês vão receber uma encomenda com as passagens para a cidade de Túnis e $50 mil. Voem direto para lá. O alvo da investigação é o terrorista Abu Jihad, que está usando documentos falsos com o nome de Jihad al-Wazir. Assim que vocês o localizarem, mandaremos a Marinha de Israel, que levará a força de assalto; cerca de 20 comandos do *“Sayeret Matkal”, que ficarão ancorados no Mediterrâneo. Quando traçarem o plano de execução, façam contato com o comandante. Ele irá liberar uma pequena frota de 2 barcos lança-mísseis Sa’ar 4 até a costa tunisiana. De lá os comandos partirão em cinco botes Zodiac até chegarem a praia. Todo o planejamento deverá ser feito com o aval do comandante. Eles serão os responsáveis pela execução de Abu Jihad. Descubram apenas o seu paradeiro e deem cobertura, para que eles o eliminem. EM HIPÓTESE ALGUMA TOQUEM NA FAMÍLIA DO TERRORISTA!”

Durante dois meses, Abu Jihad é monitorado por Jacob e sua equipe até que, finalmente, encontram uma oportunidade de aproximação, quando, ao segui-lo pelas ruas de Túnis, veem-no descer do carro, na Rua Pierre de Coubertin, e entrar cercado por seguranças, no restaurante Chez Slah.

— Perdão, o senhor não é o empresário Jihad al-Wazir? — pergunta Jacob.

O terrorista o encara com desconfiança.

— Quem é o senhor? — pergunta o Abu Jihad, sem confirmar ser quem Jacob procura.

— Muito prazer, eu me chamo Hunter Thompson. Sou correspondente do The New York Times e…

Um dos seguranças aponta uma arma para Jacob, interrompendo sua fala.

— Sente-se senhor Thompson. — ordena o terrorista.

Abu Jihad orienta os seguranças que não saiam do lado dele. Jacob se mantém tranquilo, enquanto o terrorista faz uma ligação em um aparelho de telefonia móvel. Para Jacob é engraçado o fato da maioria dos palestinos viverem em dificuldade, quando lhe falta toda infraestrutura básica, enquanto seus líderes desfrutam de alta tecnologia, carrões, seguranças e mansões.

— Hunter Thompson! Ele diz que é jornalista. — indaga o terrorista ao telefone, sem tirar os olhos de Jacob.

Em poucos minutos, Abu Jihad desliga o aparelho e sorri para Jacob, liberando os seguranças e aliviando a tensão. Jacob não demonstra preocupação e sorri.

— Pode falar senhor Thompson.

— Bom, agora que o senhor confirmou minha identidade, eu gostaria de fazer uma matéria, dando transparência à Causa Palestina.

O terrorista arqueia as sobrancelhas e dá um leve sorriso.

— Mas quem o senhor está procurando?

— Uma personalidade como o senhor.

— Não sei como poderia contribuir. Sou apenas o gerente do World Trade Center, em Gaza. — diz Abu Jihad, sorrindo.

— Bem, como uma figura importante em Gaza, o senhor pode me ajudar a dar visibilidade às reivindicações dos palestinos e à luta de Yasser Arafat.

O terrorista morde a isca.

— Não é só Arafat quem lidera o povo palestino. Existem outros. — diz Abu Jihad, demonstrando vaidade.

— Mas Yasser Arafat é o maior deles, não é? — provoca Jacob.

— O senhor está enganado. Existem outros com a mesma representatividade para o povo palestino, como Abu Jihad, Salah Khalaf e Khaled Yashruti.

— O senhor conhece o comandante Abu Jihad? — pergunta Jacob com desfaçatez.

— Sim. Aliás, qual é o palestino que não o conhece? Abu Jihad é considerado pelos palestinos um herói militar.

O garçom se aproxima da mesa e o serve.

— O senhor…

— Hunter Thompson.

— Isso mesmo. Thompsom. O senhor me acompanha?

Jacob aceita o convite.

— Garçom, sirva o meu convidado. Continue, por favor, senhor Thompson.

— Da última vez que estive em Beirute, tentei entrevistar Abu Jihad, mas não consegui. Entretanto, os soldados que atuavam no sul do Líbano foram unânimes em dizer que sentiam muito orgulho dele.

Abu Jihad enche o peito de orgulho e vaidade, enquanto degusta um Brik — um tipo de pastel feito com massa fina folheada com legumes, batata e ovo —, acompanhado de uma garrafa de cerveja Celtia, uma tradição da região.

— Continue sua explanação, senhor Thompson, a conversa está muito interessante.

— Em outra oportunidade estive em Damasco, mas a segurança particular não deixou que eu me aproximasse dele…

Abu Jihad o interrompe.

— Ele é uma pessoa muito difícil de ser encontrada. Os porcos judeus querem matá-lo. — diz, destilando ódio.

— É verdade que ele ajudou Arafat a fundar o El-Fatah?

— Sim. Abu Jihad o fundou em 1964.

— O que quer dizer El-Fatah? — pergunta Jacob, fazendo-se de inocente.

— Fatah é uma palavra que usamos no discurso religioso para significar a expansão islâmica nos primeiros séculos, como em Fath al-Sham ou “começo do Levante”.

— É uma palavra que possui uma conotação positiva para os muçulmanos? — pergunta Jacob.

— Exatamente.

— Mas então, por que o ocidente diz que é um grupo terrorista? Será que isso tem a ver com o que aconteceu em Munique, quando o grupo terrorista “Setembro Negro” matou os atletas israelenses? — pergunta Jacob, com ousadia.

— Não sei dizer. Nossa causa é defendida por toda a Nação Árabe. Se o mundo prefere chamar um grupo legitimado pelo seu povo, de terroristas, é porque se nega a enxergar que fomos expropriados de nossas próprias terras.

— Compreendo e apoio essa causa. — diz Jacob, olhando o terrorista nos olhos.

A conversa dura em torno de duas horas. A esta altura, Abu Jihad foi fotografado de todos os ângulos sem saber. Ao final, Jacob despede-se cordialmente na porta do restaurante e toma um rumo diferente de Jihad, que entra no carro, acompanhado de dois seguranças.

Jacob segue a pé, sabendo que está sendo seguido por um dos seguranças do terrorista, mas ele não vira para trás, isso iria denunciá-lo. Abu Jihad, por sua vez, segue com o carro em direção oposta, mas sem perceber que é seguido por um dos agentes do MOSSAD.

Pelas ruas de Túnis, Jacob consegue despistar o segurança, logo se reunindo com o restante do grupo, onde revelam as fotos, escrevem um relatório e enviam as informações para o comandante da Sayetet Matkal.

Horas depois, eles recebem um fax com a foto de Abu Jihad e a confirmação de que ele é Jihad al-Wazir.

“Abu Jihad é atualmente, o mais perigoso terrorista palestino em ação. Acumula as funções de comandante geral das operações militares palestinas no Líbano e é um dos líderes da OLP. Seu nome verdadeiro é Khalil al-Wazir. E é ele quem organiza, da sua luxuosa casa em Túnis, os atentados terroristas em Israel e no mundo, recrutando jovens analfabetos dispostos a morrer por uma causa que desconhecem. Comecem imediatamente a Operação!”

No fim da tarde, o agente que seguiu Abu Jihad, retorna com o endereço dele.

— A rua fica em um subúrbio, ao norte de Túnis.

Jacob volta a fazer contato com o comandante, repassando a informação de que eles estão distantes 20 milhas do alvo, localizado no subúrbio de Sidi Bou Said.

Horas depois, chega outro fax:

“Mandarei amanhã às 3 horas, quatro commandos da Sayetet Matkal em dois barcos lança-mísseis Sa’ar 4 para a costa tunisiana com o comandante da Operação que irá discutir os detalhes do plano de execução do terrorista com o agente “Bacon”. De lá, eles partirão em dois botes Zodiac até chegarem à praia. Os commandos navais vigiarão os botes Zodiac até que os commandos da Sayetet Matkal voltem.”

Um dos agentes reclama do horário.

— Por que esses encontros sempre acontecem na madrugada?

Todos riem. Jacob esboça um plano com a equipe, enquanto varam a madrugada consumindo sanduíches, cervejas e cigarros. Às 3 horas, um dos agentes pega o comandante e o leva ao encontro de Jacob.

— Os comandos da Matkal serão transportados deste ponto da praia para o local do assalto num Peugeot 305 e dois Furgões Volkswagen, guiados por um dos nossos. Estes veículos serão alugados mais cedo em uma agência. — diz Jacob, apontando um mapa que ele mesmo desenhou.

— E se ele tentar telefonar, avisando sobre a Operação?

— Não se preocupe comandante, um dos nossos irá sabotar a central telefônica, impedindo qualquer comunicação. Minha preocupação é com a nossa retaguarda. Ainda não fui informado de todo o efetivo envolvido. — diz Jacob.

— Estamos bem protegidos. Usaremos ao todo 4.000 militares, um avião AWACS – Grumman E-2 Hawkeye, um avião 707 para abastecimento das aeronaves, um submarino para proteger os lança-mísseis Sa’ar 4 e um esquadrão de caças para proteger os aviões.

— Isso não é uma Operação, é uma “guerrinha”. — brinca um dos agentes.

— Durante toda operação, o Boeing 707, sob o número 4×977, num suposto voo civil, estará a aproximadamente 100 milhas acima do mediterrâneo e fora do espaço aéreo da Tunísia. O objetivo é prover a Operação no caso de uma guerra eletrônica, servindo também como uma estação retransmissora entre a equipe que está em terra, os ancorados na costa e o QG das FDI, em Tel Aviv. — esclarece o comandante.

— Quem está no comando da operação aérea, senhor? — pergunta Jacob.

—    O General Shimon Peres.

Três dias após esse encontro, os commandos chegam ao local por volta de 01h00, onde encontram os agentes do MOSSAD vigiando o local. Porém, Abu Jihad não está em casa.

— Isso vai nos atrasar. — reclama o comandante.

— Não se preocupe, ele está sendo monitorado. — tranquiliza Jacob.

À 01h30, o terrorista retorna com os seguranças, mas as luzes demoram mais uma hora até se apagarem totalmente. É um atraso imprevisto, aumentando o nível de estresse entre eles.

Finalmente, às 3 horas, Jacob sinaliza para os dois agentes do MOSSAD cuidarem do jardineiro e de um segurança que está perto da porta, fumando, enquanto ele mesmo cuidará do segurança que está dormindo no carro estacionado junto ao portão, do lado de fora da casa.

— Acertem os cronômetros para trinta segundos. — ordena Jacob.

Exatamente às 03h02, tem início a “Operação Abu Jihad”.

Armados com uma pistola Beretta 70.22 LR, Jacob e os dois agentes matam os seguranças e o jardineiro com três tiros na cabeça. Então ele sinaliza, dizendo que o terreno está limpo para os “commandos” entrarem na casa. Estão todos pintados e mascarados.

Enquanto doze “commandos” provêm a segurança, oito arrombam a porta do quarto de Khalil al-Wazir que, ao ouvir o barulho, pula da cama já armado com uma pistola, mas é imediatamente alvejado por 75 balas de 9×19 Parabellum que são cuspidas dos canos das submetralhadoras Uzis 9mm; todas com silenciadores.

Abu Jihad cai morto diante da esposa que está em estado de choque. Então, o comandante da operação aproxima-se e, para certificar-se de que a missão está de fato cumprida, dispara mais três tiros contra a cabeça do terrorista. Tudo acontece em apenas treze segundos e, como já havia sido instruído, nenhum dos familiares é atacado.

Em poucos minutos, os “commandos” e os agentes do MOSSAD voltam à praia de Ras Cathage e pegam os botes Zodiac, regressando ao navio antes das 4 horas. Alguns dias depois, todos os militares envolvidos desembarcam em segurança no porto de Haifa, em Israel, menos Jacob e os demais agentes do MOSSAD que, disfarçados de turistas, embarcam em voos comerciais, indo cada um, para um destino diferente.

Esta é a última missão de Jacob Zollinger.

*SAYERET MATKAL – É a ―Unidade Elite‖ das Forças de Defesa de Israel, considerada uma das melhores do mundo e, segundo ex-membros de outras forças especiais como: Seals, Força Delta e GIGN, é tida como a mais qualificada em antiterrorismo pela notável experiência, equiparando-se a famosa ―Special Air Service‖ da Grã-Bretanha.