“Vai Malandra” – e a pobreza cultural brasileira

20 de dezembro de 2017
Foto: Divulgação

Semanas atrás fiquei deveras surpresa, quando a Anitta foi eleita pela imprensa nacional “A Mulher do Ano”. Confesso que fiquei até mais do que surpresa, fiquei indignada.

Até hoje, eu nunca tinha ouvido uma música inteira dela. Conhecia trechos explorados em comerciais pela mídia. Digamos que a sonoridade e conteúdo da sua música não me inspiram muito. Mas foi assistindo ao novo videoclipe dela com seu hit “Vai malandra” que pude perceber meu erro. Anita é sim a brasileira do ano. É possível notar imediatamente sua genuína brasilidade nos versos da referida música: “Vai, vai malandra (an an). Eta louca, tu brincando com o bumbum (an an). Vai malandra (an an). Eta louca, tu brincando com o bumbum (an an). Tutudum (an an) …. Desce rebola gostoso. Empina me olhando, eu te pego de jeito…Taca taca taca…”.

Eu fui imperdoavelmente ingênua e injusta com a imprensa brasileira. O título é merecidamente dela.

Ela poderia ser, por exemplo, a perfeita musa do STF. Certa feita, a presidente da instituição, Carmen Lúcia, convidou Caetano Veloso para cantar nosso hino em uma solenidade oficial. A partir de agora, a convidada deveria ser ela. Porém, não para cantar nosso salmo patriótico. E sim apresentar-se exatamente como no seu último vídeo, fazendo as mesmas coreografias que fez em cima de uma laje na favela, rodeada de corpos desnudos exibindo nosso orgulho nacional.

Ela é uma espécie de sacerdotisa do glamour ao culto gramsciano da favela (comunidade é um termo usado por artistas e intelectuais para tentar conferir dignidade estética ao horror habitacional não enfrentado por duas décadas e meia de governos de esquerda). Anitta é nossa musa do teste ‘Pisa’ e de todos os outros índices da educação nacional. É também a musa de um país que aceita um condenado da justiça ser candidato à Presidência da República, mesmo depois de ter destruído a nação. Ela  é uma insígnia de boa parte da nossa riqueza vocabular musical – que hoje se resume a grunhidos e repetições monossilábicas.

Ninguém melhor do que ela para representar nossa cultura. O Brasil é hoje Anitta. Anitta é o expoente cultural máximo daquilo que o nosso país produziu nas últimas décadas.

Ela retrata com exatidão o resumo das reflexões particulares sobre a realidade, apresentada pelos nossos festejados filósofos desta geração. Filósofos que igualam soldados espartanos – em batalha para defesa de seus territórios – com os covardes terroristas islâmicos; que apresentam frases baratas de botequim como o ápice do pensamento filosófico; que cortejam uma ideologia pestífera para, de forma falaciosa, justificá-la em cursos de autoajuda e de canalhice travestida de doutrina social.

A música dela poderia ser usada como roteiro para o trabalho de todos aqueles que repudiam o empenho do juiz Sérgio Moro e sua equipe.

Não,  eu não culpo  a Anitta,  ela estava no local certo e na hora exata. Assim, aproveitou o bom momento. Não, eu não sou cínica a ponto de reconhecer seus méritos artísticos como louváveis ou enriquecedores para nosso paupérrimo e sofrido Brasil.  Eu apenas luto para que o nosso país seja bem mais do que aquilo que ela  representa tão bem: a nossa indigência cultural e a falência total como nação, e sem a menor perspectiva de desenvolvimento.

Ela é, inquestionavelmente, a musa do Brasil que deu muito errado. Musa da nossa sofrível educação e mentalidade. Mas antes que me chamem de injusta, ou me entendam errado, o trabalho dela é honesto e não há nada de ilegal em rebolar cantando algo popularesco! Seu ofício reflete somente aquilo que se tornou nosso país culturalmente: aquela parte que ela exibe com muita altivez, e que é sua marca registrada.



Ela é, sim, – por indiscutível benemerência no atual contexto sociocultural – a mulher do ano. E desconfio que poderá levar este título por mais algum tempo.  Somos reféns da nossa ignorância. Estamos conhecendo a barbárie em todos os segmentos sociais e nela ficaremos sem termos conhecido o que deveríamos chamar de cultura: uma atividade material ou imaterial apta a produzir um estado psicológico de, no mínimo, criatividade e bem-estar social.

Anitta é a doutora Carmen Lúcia da Música Popular Brasileira; é a Fernanda Montenegro dos nossos palcos farsescos. O seu sucesso artístico e seu reconhecimento no cenário musical brasileiro coroam a nossa derrocada civilizatória.

Talvez, quem sabe, em um futuro próximo ela terá que dividir seu título com o Pabllo Vittar. O que seria também honesto. Os dois representam o Brasil da atualidade com a mais absoluta fidedignidade e transparência! Dois brasileiros que revelam o corpo, a alma, e a essência do nosso país.