Revalidação de diplomas: a arrogância e o custo da mentalidade cartorial

11 de janeiro de 2018
Anamaria Camargo
por

É professora, Mestre em educação com foco em E-learning, pela Universidade de Hull, Inglaterra, onde atuou como professora de 2006 a 2014.

burocracia

Mês passado, a convite do UEFS Livre, fui dar uma palestra sobre Educação sem Estado na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Todos, inclusive os professores presentes, me ouviram cordialmente. Ao final, talvez por lhes faltarem argumentos contra os dados que eu havia apresentado, mostrando a estreita correlação entre liberdade econômica e excelência educacional, passaram a questionar minhas credenciais acadêmicas. Demorei a entender o porquê até que, entre um “Hull? Que mestrado é esse?” e um inacreditável “Tem certeza desse mestrado?”, caí em mim. Jamais tentei revalidar meu mestrado no Brasil e, como nunca tive a intenção de dar aulas em uma universidade pública ou me candidatar a bolsas — e não vai aqui qualquer julgamento, apenas a exposição de um fato — jamais cogitei um currículo Lattes. Ou seja, provavelmente, os professores da minha gentil plateia tiveram o cuidado de me procurar na plataforma e, para horror e gozo deles, não me acharam. Devem ter concluído que a palestrante tratava-se obviamente de uma embusteira.

Durante 9 anos, dei aulas a distância no mesmo programa de mestrado que eu havia feito como aluna, o Master of Education in eLearning da University of Hull. Por incrível que pareça, não houve qualquer exigência de documentação que provasse que eu existia ou que eu era eu — ainda que as aulas fossem todas online. Não tenho nada contra a ideia da plataforma Lattes; acho até uma boa medida reunir todas as informações e o conjunto da produção profissional em um só lugar. Se precisar, obviamente farei. O que me impacienta é a arrogância e a mentalidade cartorial acima do razoável.

Quanto a me submeter às exigências burocráticas para revalidar meu mestrado junto ao MEC, só mesmo em caso de grande necessidade. Quem já passou por isto sabe que gastam-se anos e muito dinheiro até que finalmente o processo kafkiano chegue ao fim. O pesadelo em algumas pinceladas:

– Cada universidade brasileira tem discricionariedade para exigir os seus próprios documentos.

– Há universidades em que existe uma moratória de um ano em que só aceita validar diplomas de alunos ou professores da casa.

– Em alguns lugares, exige-se a tradução inclusive da dissertação.

– Há universidades que exigem a presença do candidato para receber o certificado validado. (Considere que até mesmo o rigoroso serviço consular norte-americano manda um visto para você pelo correio.)

– E sempre, claro, há a exigência de cópias e mais cópias autenticadas do diploma/certificado a ser reconhecido e mais o selo consular. Para que você consiga isso, dependendo do país onde o curso foi feito, precisará de um tabelião e mais reconhecimento do consulado.

– Mais tradução juramentada.

– Mais taxas.

– Mais a possibilidade de ter que repetir o processo para se obter a renovação definitiva.

Para aqueles que buscam atuar no setor privado, seja na indústria, no comércio, na área de tecnologia ou mesmo em algumas áreas da educação, ter ou não ter a chancela do MEC é absolutamente irrelevante. O mercado de trabalho jamais exigirá de um doutor ou mestre pela Universidade de Columbia, por exemplo, o carimbo do MEC para ser contratado.

No entanto, para ensinar em uma universidade brasileira — essa que jamais conseguiu produzir um só prêmio Nobel em nenhuma área — a chancela do MEC é indispensável. Para os burocratas de Educação, pouco importa a expertise que profissionais competentes e preparados em universidades estrangeiras possam agregar. Ou que o desenvolvimento científico das universidades brasileiras seja desprezível diante do seu potencial. Mantém-se a exigência porque o Estado ganha tanto com a burocracia da revalidação de documentos, quanto com a reserva de mercado acadêmico. Perdem os que são extorquidos na obtenção de carimbos. Perdem o ensino e a pesquisa nacionais. Perdemos nós, que sustentamos com nossos impostos toda esta estrutura cara e inútil.

A propósito: não sei se os que questionaram minhas credenciais acadêmicas lerão este artigo, mas, caso haja algum leitor curioso, vou informar. Na classificação geral do ranking do Times Higher Education, a University of Hull, assim como a Unicamp, está entre a 401ª e a 500ª posição. Na área de Arts & Humanities — Educação incluída — está entre a 301ª e a 400ª. Ou, seja, na minha área específica, Hull está à frente da segunda melhor ranqueada brasileira. Hull está longe das 100 primeiras do mundo, mas mais longe ainda das que estão pra lá da 800ª posição. Dentre estas últimas, está a UFBA, a melhor da Bahia e onde provavelmente a maioria dos professores da UEFS (nem mesmo ranqueada) presentes à minha palestra obteve seu indispensável carimbo do MEC.