Quebra de Contrato – Uma história engraçada…e a noite dos cristais (KRISTALLNACHT)

14 de abril de 2018
Kito Mello
por

Presidente da ASBI - ASSOCIAÇÃO SIONISTA BRASIL- ISRAEL. Professor, autor-roteirista, escritor, pesquisador e ghost writer.

Os alemães enfurecidos depredaram as lojas dos comerciantes judeus na famigerada noite dos cristais (Kristallnacht), em 9 de novembro de 1938. Este episódio foi considerado o prenúncio do Holocausto.

Apesar das enormes diferenças, judeus e poloneses convivem pacificamente tanto em termos morais quanto espirituais. As duas sociedades se mantêm separadas, por opção de ambos os lados e o pluralismo é vivido, não como uma ideologia, mas como vida normal.

Em todo o distrito de Majdan Tatarski, podem-se ver judeus negociando cavalos no mercado, assim como, comerciantes poloneses falando um pouco do ídiche. Apesar dos estereótipos negativos, há um afeto genuíno por toda a vizinhança. Um ato de injustiça ou uma traição, portanto, será extremamente doloroso por vir de um rosto familiar.

Em casa, Jacob revela-se um pai carinhoso e divertido, entretendo os filhos com histórias bem animadas da Torá e as suas próprias. Uma em particular, que fala da sua infância, ali mesmo em Majdan Tatarski, um pouco antes de fazer o seu bar-mitzvá, é a que eles mais adoram ouvir e pedem sempre para repeti-la.

Haim, ainda é o herói de todos, que esperam ansiosos pela narrativa em tom de humor. A cena é sempre a mesma, e enquanto todos os outros adultos se ocupam com alguma coisa dentro de casa, eles contam a divertida história sobre uma patinete vermelha, sob os olhares ávidos das crianças.

— Eu tinha treze anos e estava vestido como agora.

— Assim como eu, papai?

— Exatamente! Assim como você, Tzvi.

Jacob veste camisa social branca, *“tzitzit” com franjas à mostra, calça e sapatos pretos e sobre a cabeça uma *“kipá”.

Jacob caminha enquanto narra.

— Todas as tardes, eu estudava a Torá, sentado à escrivaninha diante da janela, até que, um dia, ouvi alguém batendo no vidro e, quando olhei, vi surgir uma patinete de madeira, pintada de vermelho e branco, suspensa no ar.

As crianças se entusiasmam, apesar de já terem ouvido o relato diversas vezes.

— Para minha surpresa, Haim apareceu com seus cabelos ruivos e olhos castanho-claros, arregalados, todo sujo e sorridente, segurando uma patinete e me chamando com gestos para que mamãe não o ouvisse.

— Você largou a Torá, papai? — pergunta Simah.
— Eu hesitei, mas como Haim insistiu, acabei indo ao seu encontro. — Se a vovó te pegasse o que iria acontecer?

— Para de perguntar, Simah! Deixa ele terminar de contar. — retruca Tzvi.

— Meu medo era passar pela sala, sem que a mamãe me notasse. Ela sempre estava sentada no sofá costurando ou bordando alguma coisa. Nesse dia, ela bordava quatro caracteres em hebraico sobre uma bolsa de veludo que eu usaria no meu bar-mitzvá.

— E como você conseguiu enganar a vovó? — indaga Tzvi.

— Ninguém a engana, ela sempre sabe de tudo. — responde Simah.

Então eu cruzei a sala em passos rápidos, indo em direção à porta, mas ela sempre atenta a tudo, perguntou-me:

— Aonde o senhor vai com tanta pressa?

— Xiiiiiiiiiiiii! — manifesta-se Tzvi.

— Haim quer me mostrar algo que ele fez. — respondi. — Terminou suas obrigações? — ela perguntou.

— Eu sabia o que ela estava querendo dizer e, antes que eu passasse pela porta, levei a mão à mezuzá, beijei-a e saí em disparada até o quintal.

— Como era o quintal, papai? — pergunta Simah.

— Para de fazer pergunta chata, Simah. — implica Tzvi.

— A área toda era cercada por muros baixos. Alguns canteiros de hortaliças, uma carroça do tipo “burro-sem-rabo” que ficava estacionada junto ao muro e, nos fundos, a pequena oficina de carpintaria com tábuas e instrumentos de corte, onde Haim passava os dias trabalhando.

— Vocês eram pobres? — pergunta Tzvi.

— Não éramos ricos, Tzvi, mas papai podia nos oferecer todo conforto.

— Deixa o Tzvi pra lá, papai, termina de contar a história. — diz Simah.

Tzvi cruza os braços, franze o cenho e enche as bochechas de ar em sinal de reprovação ao que sua irmã acabou de falar.

— Haim experimentava a patinete, fazendo manobras arrojadas, enquanto eu ficava vidrado e perguntava onde ele conseguira as madeiras. — continua Jacob.

Haim aparece na sala.

— Eu explicava…

— Oba! É o tio Haim. — grita Tzvi, interrompendo-o.

As crianças riem com Haim. Nessa hora, o show que ele e Jacob davam, ficava perfeito.

— Eu explicava que foi uma doação da nossa comunidade. — diz Haim.

— Você pediu as madeiras de porta em porta? — pergunta Jacob.

— Não. Eles me pediram. Na verdade, os Klajnberg queriam que eu desse um jeito na mesa de jantar. Eu dei, mas com o material que eles me deram, eu fiz a base da patinete.

— E aí, tio? — pergunta Tzvi com um sorriso na boca.

— Aí que, quando entreguei o trabalho, eles me convidaram para o jantar. Só que a família Klajnberg era composta por oito pessoas, comigo, nove, mas só cabiam cinco pessoas à mesa.

— E como eles ficaram tio? — pergunta novamente Tzvi, já se preparando para rolar de rir.

— Ficaram todos juntinhos, igual a uma família de gambás.

Todos riram uma gargalhada gostosa com a mimetização da situação interpretada por Haim. Tzvi se joga no chão de tanto rir.

— Continua tio Haim! — pede Simah.

— Bem, então mostrei para Jacob como fiz o guidon.

— E como foi? — pergunta Simah.

— Os Ziolkowski haviam deixado oito quilos de pinho para que eu os transformasse em cinco cadeiras para a sala.

— E você conseguiu… Conseguiu? — pergunta Simah ansiosa, mas já sabendo a resposta.

— Bem, não foi difícil convencê-los de que só precisariam de quatro cadeiras.

— Mas eles eram cinco, tio. — diz Tzvi preparando outra gargalhada.

— Eu sei, acho que foi por isso que, quando eu entreguei as quatro cadeiras, os cinco membros da família Ziolkowski ficaram de pé, diante da mesa, olhando um para a cara do outro.

As crianças se divertem com a pantomima de Haim. Tzivi ri tão gostoso que contamina até mesmo Jacob e Haim.

— E as rodas, tio? — pergunta Simah.

— Os freios também, tio Haim. — completa Tzvi.

— Vocês dois não esquecem nada? — diz Haim sorrindo.

— Conta logo, tio. — apressa Tzvi.

— Bem, para as rodas e o freio, eu precisaria de madeira de lei e as “vítimas” dessa vez foram os Herzs.

— Os pais do Abrão?

— Isso mesmo. Eles me procuraram e pediram que eu restaurasse as mesinhas de cabeceira, que era uma relíquia da família. Gostaram tanto do trabalho que não tiveram tempo de reparar as novas medidas.

— E você restaurou? — pergunta Tzvi com a certeza de que a resposta o faria rir muito.

— Quando eu entreguei o trabalho, eles ficaram felizes, mas no dia seguinte me pediram para visitá-los à noite. Eu fui e eles me levaram até o quarto do casal e deitaram na cama. Então o Sr. E a Sra. Herzs acenderam os lampiões, que ficavam sobre as mesinhas de cabeceira que eu havia restaurado.

— E estava tudo certo, não é tio? — pergunta Tzvi com ar de deboche.

— Mais ou menos. Os Lampiões ficavam à meia altura da cama, mal dando pra iluminar a leitura que eles faziam dos livros de orações.

Dessa vez, ninguém se aguentou, e todos riram muito.

Gyitla entra na sala.

— Vão lavar as mãos, que o almoço vai ser servido.

As crianças pulam do sofá e correm para o quintal. Jacob faz menção de sair, mas Haim o segura pelo braço.

— Espere. Preciso contar o que está acontecendo.

Jacob e Gyitla sentam-se.

— Papai! Mamãe! — grita Haim em direção à cozinha.

Efraim e Rosa entram na sala e logo se sentam.

— Vocês ouviram no rádio o que aconteceu ontem, em Viena? — pergunta Haim.

— Não. — responde Efraim.

Haim liga o rádio e sintoniza a BBC de Londres.

— Eles devem repetir.

A rádio só toca músicas.

— Conta logo, Haim! — pede Rosa.

— Um diplomata alemão, chamado Ernst von Rath foi assassinado em Paris por um judeu, chamado Herschel Grynszpan. — diz Haim.

— Eu sabia que isso mais cedo ou mais tarde aconteceria. — diz Gyitla, apreensiva.

— Bobagem! Vão prendê-lo e tudo vai continuar como está. — diz Efraim.

— Você está enganado meu pai. — responde Haim.

— Você é muito alarmista, Haim. Desde o nosso encontro em Łódź, quando a Alemanha havia anexado a Áustria, faz oito meses nada mais aconteceu.

— Eu não sei se vocês preferem se omitir por medo ou por burrice. — diz Haim, irritado.

— Eu exijo que você me respeite, Haim. — grita Efraim.

— Desculpe papai. É melhor mesmo que vocês não saibam o que está acontecendo, assim não sofrem. — responde Haim.

— O que mais você sabe meu filho? — pergunta Rosa.

Haim os encara e respira fundo.

— A pedido de Hitler, os alemães atacaram os judeus de Viena, fazendo 91 vítimas de morte e levaram presos, cerca de 30.000 pessoas para os campos de concentração. Gyitla começa a passar mal. Rosa e Jacob a socorrem pegando Mendel e a abanando.

— Não é só isso. Os nazistas destruíram 7.500 lojas judaicas e incendiaram 1.600 sinagogas. — diz Haim.

Tzvi que está escondido atrás da porta da cozinha, tudo ouve e entra na sala para surpresa de todos.

— Não se preocupe tanto, mamãe. Estamos na Polônia, eles não vão entrar aqui. — diz Tzvi assustado.

— Não sei Tzvi, este homem é louco e seus discursos já começam a fazer simpatizantes por aqui também. — responde Efraim.

— Deixa ele se meter com a Polônia, para ver só uma coisa. Nossa cavalaria vai marchar até a Alemanha e vamos ganhar a guerra em pouco tempo. Hitler será destronado e vamos tirar sua faixa de imperador. — desafia o menino.

*TZITZIT – É o nome dado às franjas do talit, que servem como meio de lembrança dos mandamentos de Deus.

*KIPÁ – Em hebraico quer dizer cobertura. São os pequenos chapéus em forma arredondada que são utilizados pelos judeus como símbolo de temor ao D’us único e indivisível.

*KRISTALLNACHT – Nome popularmente dado aos atos de violência que ocorreram na noite de 9 de novembro de 1938 em diversos locais da Alemanha e da Áustria, então sob o domínio nazista. Tratou-se de pogroms, de destruição de sinagogas, de lojas, de habitações e de agressões contra as pessoas identificadas como judeus.