Quebra de Contrato: seguro morreu de velho o desconfiado está vivo até hoje

19 de janeiro de 2019
Kito Mello
por

Presidente da ASBI - ASSOCIAÇÃO SIONISTA BRASIL- ISRAEL. Professor, autor-roteirista, escritor, pesquisador e ghost writer.

Por pelo menos cinco vezes, Adria encontra-se com Sulamita na Plaza de Miserere, até que Judith começa a desconfiar das suas saídas, sempre no mesmo horário. No entanto, agora ele conta com a ajuda de Jacob, e o combinado é que ele encontre Sulamita duas vezes por semana.

Para não ser pego em flagrante e fazer hora, Jacob passa a visitar o amigo Juan Rivero em sua residência, em Los Incas. E sempre quando retorna para o ponto de encontro, com Adria, ele pergunta sobre os encontros furtivos, mas as respostas do neto são sempre evasivas. Nem de longe, ele desconfia que Adria esteja envolvendo-se com uma muçulmana.

Nos encontros que acontecem sempre as terças e quintas, eles conversam sobre suas culturas, e sobre o incompreensível modo de pensar dos muçulmanos em relação aos judeus e vice-versa. Os encontros são sempre bem elaborados, pois Adria sai de casa vestido com trajes da indumentária ortodoxa. Mas, com a ajuda de Jacob, o garoto troca de roupas no bar do Manduca.

— Me ajuda com o moleque, Manduca. Como é que ele pode namorar alguém vestido como um rabino?

— Tudo bem, só oriente-o a enterrar um boné na cabeça, da próxima vez, para que não o reconheçam.

— Boa ideia!

— Ainda bem que ele não usa aqueles cachos laterais, como se chamam?

— Peots.

— Exatamente! Isso o limitaria a namorar somente garotas judias ortodoxas.

Jacob sorri. Tanto na entrada quanto na saída do bar, os dois amigos vigiam a entrada e as esquinas, para que ninguém veja a transformação do menino.

À medida que vão se tornando mais íntimos e descontraídos, Adria conta sobre sua cerimônia de bar-mitzvá para Sulamita.

— Ela marca o meu rito de passagem, transformando-me, para minha comunidade, em um homem responsável, segundo a Torá.

Sulamita interessa-se e decide presenteá-lo dois dias depois, com uma taquiyah — o mesmo que a kipá judaica —, usada pelos homens em suas orações nas mesquitas. Adria por sua vez, retribui o presente, ofertando-lhe logo no dia seguinte, um hijab — véu — novo que pertence à sua mãe, e ainda estava dentro da caixa que ela comprou.

Nem Elias e nem Judith, desconfiam de nada; a rotina de Adria não muda. Ele frequenta as aulas da Rua Ecuador, normalmente, participa ativamente dos ensinamentos com o moré, capacitando-se para o bar-mitzvá, e Jacob passa o tempo que dura o encontro, na casa do amigo Juan, ou em algum outro lugar fora do bairro, à espera da hora de regressar e reencontrar Adria para voltarem juntos para casa.

Sulamita apresenta Ahmed, um primo de dezesseis anos, e conta só meias verdades, dizendo que ele quer conhecer um pouco mais sobre a religião, pois pensa em se converter quando não depender mais dos pais. Ahmed o convida então a visitar a mesquita que frequenta na Rua Alberti. Disso, nem Jacob fica sabendo. Somente depois de um mês, casualmente, entre uma conversa e outra, e entre uma cerveja e algumas empanadas que Juan gosta de cozinhar, é que Jacob acaba revelando o motivo de tantas visitas ao amigo.

— E o garoto como vai? — pergunta Jacob sobre o filho de Juan.

— Graças à sua ajuda e do coronel que você nos recomendou, o garoto conseguiu entrar como cadete no colégio militar; está na cavalaria.

— Se os amigos não servirem para ajudar, para que servem então?

— Correto. Fuma? — Juan oferece cigarros.

— Só fumo Chesterfield, você sabe disso.

Juan está recostado em sua cama, seu quarto também funciona como um escritório. Jacob está sentado à mesa, rabiscando algumas anotações.

— Ninguém me convence que este canalha do Menem não está envolvido neste atentado.

— Esquece isso, Jacob. Faz um ano que você só pensa nesse atentado. A vida continua meu amigo. Sua esposa não vai voltar, e você precisa viver e curtir o seu neto.

— O que você sabe sobre ele, Juan?

— O que todos sabem; que era um montonero, mas que no fundo faz qualquer jogo, desde que isso, signifique estar no poder.

— A Argentina merece uma sorte melhor do que esses merdas que ascendem ao comando do país. Veja o caso das Malvinas, por exemplo.

— Mas aquelas terras nos pertencem, Jacob.

— A terra pertence aos que tem poder e condições para governá-la. Se não fosse por isso, o mundo ainda pertenceria aos índios e nós estaríamos usando tangas e aceitando um espelho em troca de nossas filhas.

— Discordo de você.

— Então por que você não continuou apoiando aquela loucura?

— Por que aqueles homens não podem ser considerados militares, mas assassinos. Estavam mandando nossos soldados completamente despreparados, sem equipamentos, sem condições de resistirem a uma guerra longa.

— Pois eu te digo Juan, nenhum argentino em sã consciência apoiava aquela aventura. Todos estavam muito mais preocupados com a Copa do Mundo, e torciam para que os militares se fodessem.

— Isso é verdade, o dinheiro que foi gasto com essa guerra poderia ter sido investido em melhorias para o próprio País.

— Assim é. E agora esse canalha do Menem está importando um conflito árabe-israelense para dentro de nossas fronteiras.

Juan fica um pouco tenso.

— Vamos mudar de assunto, Jacob, mamãe é peronista e se te ouve falar vai ficar chateada.

Tudo bem.

— Vamos tomar outro café? — pergunta Juan.

— Vamos.

Juan prepara duas xícaras de café instantâneo, enquanto esquenta a água no fogão.

— E o Adria? Faltam seis meses para ele fazer o bar-mitzvá, não é?

— É… Ele agora anda empolgado com uma menina.

— Não me diga, e você a conhece? Ela é judia?

— Não é judia, e ele está fazendo o maior mistério.

Juan coloca as xícaras sobre a mesa da cozinha.

— Teu filho tá sabendo disso?

— Nem imagina! O pior, é que eu estou acobertando o encontro dos garotos.

— Me desculpe o tom, Jacob, mas como é que o teu neto arrumou uma garota fora da comunidade, com aquelas roupas ortodoxas?

— Aí é que tá, ele troca de roupas no bar do Manduca para se encontrar com ela.

— E na volta, como é que ninguém desconfia dos trajes dele?

— Porque ele se veste novamente com aquelas roupas.

Ambos sorriem.

— Madre de Deus, nem quero saber a merda que vai ser, quando teu filho descobrir isso.

— Você nos dá asilo aqui na tua casa.

Eles agora riem muito, terminam de beber o café e acendem um cigarro cada um.

— O nome dela, pelo menos isso você sabe?

— Solange ou Sônia, sei lá.

— Os dois nomes são bonitos.

— Ou seria Sula alguma coisa?!?!

— Sulamita?

— É isso mesmo, Sulamita.

— Hum! Entendo… Você sabe quem se chama Sulamita?

Jacob o encara.

— A filha de Menem.

Jacob sorri.

— Isso pode ser apenas uma coincidência.

— É verdade, mas também pode significar que seu neto está se envolvendo com alguma garota de origem árabe.

Jacob engasga com a fumaça que tragou do Chesterfield.

— Se eu fosse você, meu amigo, investigava a origem dessa menina. — adverte Juan.