Quebra de Contrato: quem brinca com fogo acaba queimado

25 de janeiro de 2019
Kito Mello
por

Presidente da ASBI - ASSOCIAÇÃO SIONISTA BRASIL- ISRAEL. Professor, autor-roteirista, escritor, pesquisador e ghost writer.

Em suas andanças com Sulamita e Ahmed, Adria passa a frequentar a mesquita da Rua Alberti, a fim de conhecer melhor a religião e a cultura dos novos amigos.

— O que é de fato ser um muçulmano, Ahmed? — pergunta Adria.

— É todo aquele que se submete a Deus, de livre e espontânea vontade, e vive em paz e harmonia com toda a criação.

— Mas é assim que vivem os judeus também. — retruca Adria.

— Em qualquer parte do mundo nós obedecemos; dedicamos e adoramos somente o Deus único. — complementa Sulamita.

— Mas nós também fazemos isso, Sulamita.

— Nós acreditamos que a Torá foi revelada aos judeus, assim como Jesus veio ensinar os não judeus a seguirem as leis de Deus, porém, a última revelação de Deus foi feita ao profeta Mohammed, pelo Anjo Gabriel, que nos deu o Alcorão Sagrado. — rebate Ahmed.

— Mas por que motivos então, vocês espalham o terror pelo mundo e o alvo principal somos nós, os judeus?

— Não é verdade, Adria, nós seguimos uma religião de paz, amor, misericórdia e perdão e a nossa base está na estrutura familiar. — responde Sulamita.

— Não é à toa que, sem levantarmos uma só espada, hoje somos mais de dois bilhões de seguidores.

Adria observa as explicações dos amigos, mas percebe-se o seu desconforto por temer fazer perguntas que os aborreçam.

— Tudo bem, vocês estão me mostrando outra visão do Islã que eu desconhecia, mas no Alcorão existem passagens que só se fala em ódio e morte aos infiéis. Isso não contradiz o que vocês estão afirmando?

Sulamita encara Ahmed com constrangimento.

— Desconheço essas passagens, Adria, se você puder mostrá-las aqui no meu Alcorão, prometo buscar uma resposta com os mais velhos, pois não saberia explicar isso a você.

Adria tira um pedaço de papel dobrado de dentro do seu bolso.

— A segunda surata do texto “Al Bacara”, versículo 191, revelada em Medina diz: “Matai-os onde quer que os encontreis e expulsai-os de onde vos expulsaram, porque a perseguição é mais grave do que o homicídio. Não os combatais nas cercanias da Mesquita Sagrada, a menos que vos ataquem. Mas, se ali vos combaterem, matai-os. Tal será o castigo dos incrédulos?”

— Isso certamente você também vai encontrar na Torá. — responde Ahmed.

— Sim, é verdade, mas isso não contraria tudo o que a Sulamita acabou de explicar sobre o perdão, a paz e a misericórdia?

— O profeta só pode estar se referindo aos inimigos do Islã.

— Sim, eu não duvido disso, mas da mesma maneira que o Anjo Gabriel revelou isso ao profeta, a Torá foi revelada pelo Deus único. Isso não sugere que o Anjo ou Deus estão errados, ou que nós não sabemos o que eles querem dizer?

— Isso, na certa, é só uma passagem solta no Alcorão, Adria, e talvez você tenha razão, nós podemos estar interpretando errado o que o Anjo quis dizer com essas palavras.

Para qualquer garoto o caso teria terminado ali, mas não para Adria.

— Receio que não seja só está surata que trata deste ódio gratuito aos incrédulos.

Ahmed se mostra inquieto.

— O que mais você tem para nos mostrar, Adria? — pergunta Ahmed.

Adria olha o papel.

— Leia pra mim o que está na quarta surata, versículo 91 do “An Nissá”.

Ahmed lê até o ponto que interessa Adria: “… capturai-os e matai-os onde quer que os acheis porque sobre isto vos concedemos autoridade absoluta.”

Sulamita fica corada.

— Você está pegando textos soltos, Adria, não é assim que se compreende o Alcorão.

— Tudo bem, pode ser que estejamos fazendo do modo errado, mas para quem prega o amor e a paz, essas palavras não lembram outra coisa?

— A verdade é que todos os livros usam esses termos em defesa de um povo escolhido por Deus. Vocês têm a Torá que também manda matar inocentes, quer que eu te mostre? — desafia Sulamita.

— Não precisa. Eu conheço todas as passagens e não concordo com nenhuma delas.

— Por que você não frequenta a mesquita com a gente e tenta deixar o clima invadir seu coração, quem sabe você vai perceber que somos um povo pacífico?

— Tudo bem, só preciso dar um jeito lá em casa, para que não percebam e não criem problemas para mim e para o meu avô.

Nos dias que se seguem, Adria frequenta a sinagoga e a mesquita, assiste as aulas para o bar-mitzvá e evita ao máximo criar confusão em casa, mas Jacob não é bobo, sabe que o neto está indo longe demais ao pisar em território inimigo. Mesmo que Ahmed e Sulamita sejam bons, e na maioria das vezes o são, o problema está nos adultos, nos fundamentalistas, e se Adria for descoberto, seria um grande troféu para os radicais islâmicos.

Jacob então, decide ter uma conversa para situar Adria com quem ele está lidando. É verdade, que não podemos acusar todos os árabes de terroristas, isso seria leviano demais, mas infelizmente, a maioria deles tem um único pensamento: Aniquilar Israel a qualquer custo. Sem saber a real situação em que Adria está envolvido, não se pode descartar que ele corre riscos.

Adria chega do colégio, já preparado para o esquema que vem fazendo há algumas semanas com o avô, mas Jacob pede que ele falte ao encontro para conversarem um assunto da mais alta gravidade. Adria obedece. O período é bastante favorável. Eles já almoçaram, enquanto Judith e Elias ainda estão trabalhando na AMIA.

Jacob começa contando uma breve história, um pouco enfadonha no início, haja vista a ansiedade de Adria em se encontrar com os amigos, mas logo o conteúdo da conversa torna-se interessante.

— Você sabe de onde provém a palavra assassino, Adria?

— Não. — responde assustado.

— Vem do nome de Hassan Sabah, um antigo guerrilheiro árabe que levou terror ao Oriente Médio no século XI.

— Mas esse nome nem de longe lembra a palavra assassino, vô.

— Eu sei, mas a etimologia da palavra “assassino” vem de “hashish”, uma palavra árabe, que significa erva, e que era e é usada para designar o “cannabis… a maconha”.

Adria começa a se interessar mais pela narrative de Jacob.

— No tempo dos Cruzados, os fanáticos muçulmanos formavam-se em bandos, para assassinar os cristãos e outros inimigos da sua fé, mas antes de partirem para uma ação de guerra, eles costumavam fumar o “hashish”, e sob a influência da droga é que cometiam os seus assassinatos.

— E onde você está querendo chegar com essa história, vovô?

— Um consumidor de “hashish” era um “hashishi”, no plural, “hashishin”. Era por esse nome que os membros dessas quadrilhas eram chamados.

Então os que fumavam “hashish” eram “assassinos”, é isso? Foi daí que essa palavra derivou para várias outras línguas?

— Isso mesmo.

— Mas, onde entra o tal Hassan Sabah?

— Hassan i-Sabbah (1034-1124), a quem Marco Pólo chamou o “Velho das Montanhas”, foi um missionário nizari, uma seita ismaelita iraniana, que converteu uma aldeia inteira, chamada Alamut, nas montanhas Alborz, no norte do Irã. Foi ele o fundador de um desses grupos, cujos membros chamavam, de forma derrogatória, os “Hashshin”. Por isso, o nome de Hassan Sabah está ligado na história aos assassinos.

— Interessante vovô, mas ainda não sei aonde você quer chegar com essa história.

— Se você me der um pouco mais de tempo, eu explico.

— Tudo bem, meu encontro já era mesmo!

— Bom, continuando, no Século XI da era cristã, na longínqua Samarkanda muçulmana Nizam-El-Molk, Grão-Vizir e Cão dos Turcos Seljúcidas, cujo Império se estendia do Afeganistão ao Mediterrâneo; influenciado pelos apelos do poeta e sábio persa Omar Khayyam, poupou a vida ao traidor Hassan Sabbah, comutando-lhe a pena de morte por decapitação, na pena de banimento do Império.

— E isso não foi um ato bondoso?

— Foi, mas foi um erro também, O Cão Nizam-El-Molk acabava de assinar a sua sentença de morte, bem como do próprio Império Seljúcida. Humilhado, Hassan Sabbah não agradeceu a clemência e jurou vingança. Banido, errou pelo Império cavalgando o descontentamento e arrebanhando para as suas hostes um exército disseminado, discreto e clandestino. Assim nasceram os “Batinis – a gente do segredo”.

— Hassan Sabbah escolheu os mais fanáticos de entre eles, foi isso?

— Exatamente. Hassan Sabbah fundou a “Seita dos Assassinos” e refugiou-se com um núcleo duro na fortaleza de Alamut, que tomou com astúcia no ano de 1090. Nesse reduto montanhoso, quase inacessível e inatacável, da região de Teerã, hoje capital do Irã, Hassan Sabbah fez espalhar pelos seus e pelos outros, a sua mensagem de morte: “Não basta matar os nossos inimigos, não somos homicidas, mas executores. Devemos agir em público, para servir de exemplo. Matamos um homem, aterrorizamos outros cem mil. Todavia não basta executar e aterrorizar, é igualmente indispensável saber morrer, pois se ao matar desencorajamos os nossos inimigos de empreender o que quer que seja contra nós, ao morrer do modo mais corajoso ganhamos a admiração da turba. E desta turba sairão homens para se juntarem a nós. Morrer é mais importante que matar.”

Adria fica pensativo. Lembra da última conversa com Ahmed e Sulamita e sobre o que estava escrito nas suratas que ele pediu que lessem no Alcorão.

— Ei, “Calvin”! Você está aqui? — pergunta Jacob.

— Hã! Tô sim, “Harold”.

— Pois bem, continuando… Pugnando pela pureza da fé muçulmana e pregando a Guerra Santa contra o Inimigo, Hassan Sabbah enviou mensageiros de morte, fanáticos e suicidas, para os quatro cantos do Império. Chamou-lhes “Fedai”, ou seja: “Comando Suicida”. A partir de Alamut e em estreita obediência a Hassan, os assassinos enviados, matavam sempre em praça pública e sempre em ato público. Quanto maior a multidão a assistir, melhor. Uma vez morto o dignitário ou o governante em questão, sempre à punhalada, o assassino nem sequer tentava fugir. Mais do que matar seu destino era morrer.

Mais uma vez, Adria lembra-se da conversa que teve com Ahmed mais cedo.

— Obviamente que o assassin capturado morria logo a seguir, mas morria com um sorriso nos lábios e com a certeza de ir se deleitar com as 72 virgens que lhe estavam prometidas. Assim, Hassan Sabbah tinha construído a mais temível máquina de matar da História.

— Mas tudo isso foi no passado vovô, hoje em dia não é mais assim.

— Engano seu, Adria. Em 1092, Nizam-El-Molk foi assassinado por um Fedai. A partir da morte do Cão, Hassan Sabbah foi minando todo o Império Seljúcida, assistindo e contribuindo para o seu desmembramento.

A Seita dos Assassinos, sempre foi muito bem organizada, e quando necessary, agia na clandestinidade, espalhando o terror pela Síria, Egito e Iraque.

— Com os seus assassínios cirúrgicos, eles conseguiram criar um clima geral de terror, que impedia qualquer crítica ou afrontamento. — Continua Jacob.

— Acho que estou entendendo agora, aonde você quer chegar, vovô.

— Durante o Século XII, a seita chegou a deter 10 fortalezas na Síria Central, promovendo assassínios, conforme as suas conveniências e alianças, quer de poderosos árabes, quer de poderosos ocidentais dentro dos reinos dos Cruzados. A morte para eles sempre foi democrática. Alamut e a Seita dos Assassinos sobreviveram aos Seljúcidas, aos Fatimidas, aos Cruzados e ao próprio Saladino. Saladino, aliás, moveu-lhes certa vez uma sanha sem quartel, determinado a exterminá-los. Contudo, desistiu da coisa após ter sido alvo da segunda tentativa de assassinato por Fedai, que por pouco não lhe limpavam o sebo. A partir daí deixou os Batinis em paz. Só com as invasões mongóis do final do Século XIII, foi que Alamut finalmente caiu e com ela as restantes fortalezas da Seita. Mas a seita ainda tem descendência atual, uma vez que o Aga Khan, líder espiritual dos Ismaelitas, “é o descendente em linha direta de Hassan Sabbah”.

— Você está preocupado porque eu estou me encontrando com uma garota árabe?

Jacob espanta-se.

— Então Sulamita não é só uma coincidência, ela é mesmo filha de árabes?

— Sim, e eu também me encontro com o primo dela, o Ahmed.

Jacob coça a cabeça.

— Você tem que parar com isso já, Adria.

— Me dê um bom motivo, vovô, só essa história de Hasan Sabbah, chata pra caramba, não vai resolver muita coisa. Eles sabem que eu sou judeu e eu sei que eles são árabes e já conversamos sobre coisas bem complicadas e não brigamos.

— Preste atenção, Adria, as fortalezas se perderam, mas as palavras de Hassan Sabbah, não. Perduram na memória dos muçulmanos e muitos deles seguem-nas hoje, como há 10 séculos, sem qualquer depuração do pensamento e sem qualquer verniz de civilidade. Hoje como há 10 séculos, a Al-Qaeda proclama em alto e bom som: “Nós gostamos da morte como eles gostam da vida e por isso vamos vencê-los!”

— Olha vô, eu sei que você trabalhou na Mossad; que sabe muito mais coisa do que eu e que quer o meu bem, mas eu te garanto que não há risco nos nossos encontros.

— Você não está entendendo, Adria, a Al-Qaeda não são os únicos a proclamarem isso. Os suicidas palestinos do Hamas, do Fatah, do estado Islâmico e de todoas as facções terroristas espalhadas pelo mundo, seguem religiosamente a mesma cartilha. E como Sabbah bem sabia, as suas palavras são portadoras de uma doutrina eficaz. Elas entram como nunca no coração do muçulmano médio e são para eles, a expressão da única solução que vê para o confronto com o Ocidente colonizador, dominador e maléfico. Mais do que uma seita perseguida e repudiada, os novos assassinos merecem o apoio explícito, ou implícito de legiões incontáveis de muçulmanos.

— Vovô, isso já faz mais de 10 séculos, como você mesmo disse.

— Engano seu, Adria, a Seita dos Assassinos está mais viva e atuante do que nunca, representadas pelo Hezbollah. Você sabe o que é o Hezbollah?

— Mais ou menos.

— Não, você não sabe. Hezbollah, que em árabe significa “Partido de Deus”, é uma força islâmica xiita com estrutura similar à do Exército e, ao mesmo tempo, um grupo político com sede no Líbano. Esta organização paramilitar destaca-se cada vez mais na vida política do Líbano, ocupando-se de administrar os trabalhos sociais e instituições escolares e hospitalares xiitas, além de responsabilizar-se também pelas atividades agrícolas do país. Ela é apoiada ativamente pelos iranianos, seja no campo doutrinário ou no financeiro. Externamente, ele é visto como um grupo terrorista, principalmente nos EUA, em Israel, no Canadá, nos Países Baixos e no Reino Unido. Enquanto isso, no mundo árabe e muçulmano, ele é respeitado como uma força de defesa contra a interferência exterior. Pode-se afirmar que sua meta principal é construir um Estado Islâmico Libanês, além de extinguir Israel.

— Tudo isso por causa dos meus encontros com um garoto e uma menina árabes, vovô. — reclama Adria.

— Não Adria, tudo isso, porque você vai fazer seu bar-mitzvá e provavelmente seu pai vai te mandar para Israel e lá você terá que servir às Forças Armadas e se tornará um inimigo em potencial dessa gente.

Adria levanta-se da cama, vai até a escrivaninha e pega um pedaço de papel e o entrega para Jacob.

— O que é isso?

— É o endereço da mesquita que eu estou frequentando.

— O quê?

— Calma vô, eu só quero conhecer um pouco mais da religião deles.

— Você está pisando um solo pantanoso, Adria. O Hezbollah sobreviveu ao fim da guerra de Israel contra o Líbano e continua a atuar no Oriente Médio, principalmente a partir do Vale do Bekah, no sul do país. Seu braço armado é conhecido como Jihad Islâmico, e eles são acusados de cometerem inúmeros atentados e assassinatos em Israel e naquela região. Seu poder é tão intenso, que é possível encontrar subdivisões dela na Europa, África e Américas do Norte e Sul. Ninguém me tira da cabeça que eles estão envolvidos com a explosão da Embaixada e mataram a sua avó. — diz Jacob emocionado.

— O que você quer que eu faça? Simplesmente pare de falar com meus amigos e mostre para eles que eu preciso segregá-los porque eles são meus inimigos?

— Não sei, Adria, o que sei é que o ódio principal do Hezbollah tem se voltado cada vez mais para Israel, por causa do sionismo, estruturado a partir, segundo eles, do arrebatamento violento das terras dos muçulmanos. Este sentimento cresceu desde julho de 1993, quando os israelenses desencadearam contra esta organização a “Operação Ajuste de Contas”, que resultou em 86 mortos, 480 feridos, 360 mil libaneses transferidos do Sul do Líbano para Beirute e na condenação externa de Israel.

— Você quer que eu acredite que meus amigos são parte do Hezbollah?

— Não, mas em 1991 Abbas Musawi foi escolhido para liderar o grupo, só que foi morto logo em seguida por um grupo de Israel.

— Você estava metido nisso, vovô?

— Não, mas este assassinato possivelmente deflagrou o atentado à Embaixada de Israel em Buenos Aires, pouco tempo depois. Eu tive tudo para impedir isso, mas desconsiderei e relaxei exatamente como você está fazendo agora, ao se encontrar com essa gente, a frequentar uma mesquita.

— Eu te prometo uma coisa, vovô, se eu perceber algo suspeito, eu te aviso e paro de frequentar e até me afasto deles, mas você tem que me garantir que não irá contar nada para os meus pais.

Jacob olha profundamente para Adria.

— Não sei se isso é o certo a ser feito, mas eu aceito. Só que você vai ter que me mostrar tudo e contar tudo. Eu quero bilhetes, panfletos, quero saber o que se passa lá dentro e se você percebe alguma coisa diferente.

— Combinado.

Os dois se abraçam, mas Jacob continua muito apreensivo, sem deixar isso transparecer para o neto.