Quebra de Contrato: Problemas sério às vistas

31 de dezembro de 2018
Kito Mello
por

Presidente da ASBI - ASSOCIAÇÃO SIONISTA BRASIL- ISRAEL. Professor, autor-roteirista, escritor, pesquisador e ghost writer.

Um mês de convivência entre Jacob e Elias, é o suficiente para as relações azedarem. Como Jacob previra, a ortodoxia de Elias contra o seu ateísmo, provoca muitas fagulhas. Elias gerencia a própria casa com os rigores exigidos pela Torá, enquanto Jacob, abole completamente o cumprimento da lei judaica de sua vida. Para Elias, o povo judeu só conseguiu sobreviver às perseguições e catástrofes por causa da Torá, mas para Jacob, a Torá não salvou o povo, ao contrário, foi por causa dela, que eles foram perseguidos e mortos pelos inimigos.

Mesmo no caso dos não judeus, muitos inocentes foram mortos como se a vida humana não valesse nada para Deus. Contudo, apesar das rusgas surgidas das divergências religiosas, uma coisa é certa: Jacob não pode mais ficar sozinho. Está, pelo menos aparentemente, incapaz de cuidar de si mesmo, boicota-se o tempo todo nos cuidados mais elementares, como alimentar-se ou beber um simples copo dʼágua. Ambos compreendem que a convivência que nunca tiveram, terá que ser estabelecida agora, mesmo que seja forçada, mas será para o bem de Jacob.

Por outro lado, a relação com Adria, é o que deixa Jacob um pouco mais animado. Somente pelo neto, ele sente-se encorajado a retomar uma rotina simples, como tomar banho, alimentar-se direito, ler o jornal, etc. Porém, para evitar o encontro matinal com Elias, que todas as manhãs faz suas orações na sala de jantar, antes de ir para a sinagoga, ele passa a acordar mais cedo, toma os medicamentos e sai, faça chuva ou faça sol, para passear e encontrar-se com Pepe e com os amigos no bar do Manduca, onde come algumas empanadas e toma café, enquanto conversa com os novos amigos.

— Bom-dia, Jacob!

— Bom-dia, Manduca! — responde ele, mal-humorado.

— Hoje você perdeu, Jacob. Quem chegou primeiro foi o Rivero, e depois fui eu. A cerveja é por sua conta. — brinca Kuky, ao lado de Manduca, tentando distraí-lo.

— Tudo bem, não se pode ganhar sempre. — diz afastando-se.

— Fique aqui com a gente. — pede Manduca.

— Vou ali, falar com o Rivero sobre o atentado no World Trade Center.

Manduca e Kuky o observam.

— Ele só pensa nisso, parece uma ideia fixa. Está sempre pesquisando sobre o atentado à embaixada. Agora, é sobre esse atentado em Nova Iorque. — diz Kuky.

— Será que ele, um dia, vai conseguir esquecer isso?

— Creio que nunca, Manduca. Perder a esposa daquela forma acabou com ele.

— É, acho que você tem razão. Ainda mais, porque, segundo dizem, ele tinha todas as informações e não evitou o atentado.

— Não acredito nisso, Manduca.

— Mas é verdade. Foi o Buby que me contou.

— Quem é Buby?

— Um amigo do Elias, o filho dele.

— E o que mais ele disse sobre isso?

— Que ele desprezou umas pistas fortes sobre o atentado e…

— Lembro-me que, à época, eles veicularam uma circular na AMIA, orientando-nos sobre algumas normas de segurança. — diz Kuky, cortando-o.

— Lembro-me bem de como vocês estavam tensos naqueles dias. — concorda Manduca.

— Quem é que poderia imaginar um ataque tão agressivo como aquele.

Manduca fica pensativo.

— Não comente com ele nada dessa nossa conversa, Kuky.

— Fique tranquilo, Manduca.

Jacob senta-se à mesa de Juan Rivero, que lê o Lá Nación. Aos poucos, as mesas vão sendo ocupadas por outros fregueses e amigos, que chegam para tomar um café com empanadas, ou beberem uma cerveja com croissant de queijo, enquanto conversam e fazem hora, esperando a AMIA abrir.

Manduca grita do balcão.

— Ei, Rivero! Quem ganha o jogo hoje? O Boca ou o Racing?

— E você tem alguma dúvida? É claro que a Academia vence. — responde convicto Rivero.

— La Gloriosa Academia! Afirma Manduca, juntando os cinco dedos da mão direita e beijando-os. Estamos todos contando com isso, para vermos o River cair na tabela.

— Bom-dia, Juan!

— Bom-dia, Jacob! Tudo bem com você? — responde Juan com sua voz grossa e a simpatia de sempre.

— Tudo indo, como sempre. Alguma novidade sobre o World Trade Center?

Juan toma um gole de café.

— Só o nome do terrorista, Ramzi Yousef.

— Esses caras só estão começando, Juan. O mundo ainda não está preparado para a loucura dessa gente.

— Esquece isso, Jacob. Agora você não está mais na ativa, não há nada que possa fazer na posição atual.

— Eu estou velho, mas ainda não estou morto Juan. Se depender de mim, este país não vai se tornar um abrigo para terroristas. Já basta terem acolhido os infames nazistas, mesmo depois de tudo o que fizeram ao mundo.

A conversa continua sobre outros assuntos, em meio ao vozerio, misturado com a TV ligada no canal de esportes, que fica em frente ao balcão, sobre uma bandeira argentina estendida em cima de um móvel.

Entre eles, muitos risos, milongas e gestos teatrais para atacarem e defenderem seus times do coração. Manduca não deixa que um só deles fique sem terem seus pedidos atendidos, até que a hora avança e todos se despedem. Uns vão para a AMIA, e outros, como Jacob, voltam para casa.

Elias e Judith ainda não se encontram em casa, estão trabalhando na AMIA. Adria só retorna do colégio na hora do almoço, quando Judith aproveita para preparar o almoço para todos. Aproveitando que a casa está vazia, Jacob vai até o quarto do neto e observa a arrumação. Perto da janela há um baú e ele o abre. Um sorriso lhe estampa o rosto ao ver um tigre de pelúcia.

— “Harold!”

No canto direito do baú, uma pilha de revistas da comunidade judaica. Ele as retira uma a uma e descobre o que está sob elas. Sorri novamente. — Espertinho!

Todas as HQs de “Calvin e Harold”, que ele sempre compra para Adria no maxikiosko do Pepe estão ali. Então, ele caminha até a escrivaninha, onde estão a Torá e o caderno com as aulas do moré (professor), que está preparando o menino para a cerimônia de bar-mitzvá, a realizar-se no ano seguinte, na sinagoga da AMIA. Ele abre o caderno e folheia algumas páginas, lendo o que está escrito:

“Ao fazer o bar-mitzvá, a pessoa passa a ser livre e responsável por seus atos. A partir desse momento, não pode mais atribuir suas escolhas aos pais. Esse é o momento que o jovem define seu caminho, de acordo com seus valores e comprometimentos. Essa lei da religião ajuda o jovem a assumir sua maturidade social e cultural, como cidadão e judeu.”

Jacob fecha o caderno, para um pouco, como se estivesse refletindo sobre o passado, quando realizou sua última cerimônia de bar-mitzvá no gueto e sai em direção à sala. Não demora muito e Judith chega. Ele está sentado na varanda ao lado do balão de oxigênio, com uma máscara de nebulização, onde sempre fica olhando os carros que cortam a Rua Tucumán, passando pelas esquinas das ruas Uriburu, Pasteur e Azcuenaga até perdê-los de vista. A campainha toca. É Adria que chega do colégio desfazendo-se da mochila que carrega, para em seguida, encontrar-se com o avô. Ele parece ansioso para contar a novidade que está lhe deixando muito nervoso.

— Preciso te contar uma coisa “Harold”.

Jacob retira a máscara de oxigênio do rosto.

— Eu acho que estou gostando de uma garota.

Jacob sinaliza com a cabeça para que ele feche a porta da varanda.

— Me conta isso moleque.

Adria fecha a porta.

— Ela é linda vô!

Jacob sorri.

— E desde quando você sente isso por ela?

— Já faz algum tempo, desde que fomos passear nos Bosques de Palermo, há duas semanas.

— Mas eu estava com você, como é que não vi isso?

— Você tinha ido comprar pipoca para nós dois.

— Ela é judia?

— Não.

Jacob torce a boca.

— Sabe o que isso significa, não é?

— Sei, mas eu preciso da sua ajuda para me encontrar com ela.

— Minha ajuda?

— Sim.

— Você quer dizer que precisa que eu minta para o seu pai, enquanto se encontra com ela?

— Sim

— Esse é o motivo das suas saídas depois do almoço?

— É, mas mamãe já está começando a ficar desconfiada.

— Ela mora aqui por perto?

— Mora.

— Onde ela mora?

— A poucas quadras daqui.

— E vocês estão se encontrando na rua dela?

— Não, a gente se encontra na Plaza de Miserere.

Jacob sorri ao mesmo tempo em que demonstra preocupação.

— E como é que você pretende que eu o ajude?

— Saindo comigo, para os meus pais acharem que vamos passear.

— Mas o que é que eu vou fazer, enquanto vocês se encontram?

— Sei lá, “Harold”, inventa alguma coisa.

— Não sei o que eu poderia dizer para a sua mãe ou para o seu pai.

— Diga que vamos ao cinema, ou que vamos lanchar.

— Isso não vai dar certo, “Calvin”.

— Por favor, vovô!

Jacob fica pensativo durante alguns minutos.

— Tem algo que você está me escondendo e eu precise saber?

Adria surpreende-se com a pergunta, mas não revela.

— Claro que não, vô!

— Está bem, mas você tem que me prometer que esse encontro não vai durar mais do que uma hora.

— Eu prometo.

— Nem que vai me meter em alguma enrascada com os seus pais.

Adria olha para Jacob e respira fundo.

— Eu prometo vovô.

— Então eu te ajudo.

Eles se abraçam e riem.

— Pode ser hoje?

Mas e a sua…

— Mamãe vai sair daqui a pouco, daí descemos juntos e você me espera até eu voltar.

— Onde essa menina mora mesmo, Adria?

— Na Rua Saavedra.

— Ok.

— O almoço está pronto! — grita Judith, da cozinha.

Adria sorri para Jacob, que lhe devolve o sorriso. Eles vão para a sala.