Quebra de Contrato: O nascimento de “CALVIN & HAROLD”

28 de outubro de 2018
Kito Mello
por

Presidente da ASBI - ASSOCIAÇÃO SIONISTA BRASIL- ISRAEL. Professor, autor-roteirista, escritor, pesquisador e ghost writer.

É tempo de Jacob estreitar não só a relação com o neto que, algumas vezes, o chama de pai, como se reaproximar de Mirta, reconquistá-la, mostrar o quanto é grato por tudo o que ela fez e faz, principalmente por sua paciência em suportá-lo com todos os seus problemas.

A forma rígida com que Elias educa Adria, o deixa tão intimidado sobre como agir que, muitas vezes, o garoto vacila, achando perigoso agir como orienta Jacob, culpando-se por estar quebrando alguma regra de conduta. Mirta é a ponte perfeita para que o menino compreenda o terreno em que está pisando ao lado do avô. Com seu jeito doce, ela mostra ao neto que Jacob não é perigoso, e nem as coisas que ensina são proibidas, mas apenas uma maneira diferente de enxergar o mesmo mundo.

Jacob compreende as dificuldades de Adria e não o força a nada, deixando claro que ele não é um troféu a ser disputado com o pai. Por seu intermédio, Adria toma gosto pela leitura e lê o primeiro gibi ou HQ, “Calvin & Harold”. Por conta disso, a livraria El Ateneu passa a ser um dos roteiros preferidos, assim como a banca de jornal de Pepe, um velho conhecido do avô.

Adria gosta tanto da história do menino e do tigre de pelúcia, que passa a adotar os codinomes para si mesmo e para Jacob, e sempre que estão juntos e sozinhos, usam os nomes dos personagens como se fosse um código secreto. Assim, o menino encontra as explicações para as curiosidades normais que vão surgindo com a idade, sem se sentir envergonhado.

É por causa de Jacob também, que durante a Copa do Mundo de 1986, Adria assiste aos jogos da seleção Argentina na casa dos avós, algo impensável para Elias, que nem desconfia que o convite de Mirta para que o neto frequente a sua casa seja para esta finalidade. Dessa experiência, nasce o amor do menino pelo futebol e pelo Boca Juniors, intensificando os passeios aos bosques de Palermo, onde avô e neto jogam bola até se cansarem.

Num desses passeios e após se divertirem, Mirta os chama para lancharem sobre uma toalha estendida sobre a grama.

— Você me ama, vovô?

Jacob sorri e puxa Adria para deitar-se com a cabeça em suas pernas, enquanto alisa seus cabelos.

— Você é parte de mim, Adria. Todo esse tempo que temos passado juntos, serviu para eu construir para você um lugar muito especial no meu coração.

Adria sorri.

— Onde quer que eu esteja, vou sempre levar você comigo. Nunca, nada ou ninguém poderá te substituir.

— Nem se a mamãe tiver outro bebê?

Jacob para e pensa.

— Não importa o que o futuro traga! Você sempre será o meu amor e eu sei que a minha vida hoje, só é melhor por sua causa.

— Eu sou o primeiro homem que você ama vovô?

— Não, filhote. Já amei outros homens, e ainda amo o seu pai.

— Mas um homem pode amar outro homem?

— Não há nada de errado nisso. Eu amei muito o meu avô, o meu pai e o meu irmão. Agora eu amo seu pai e amo muito você.

— Papai diz que não é certo um homem amar o outro.

— Seu pai fala muitas coisas certas, mas também fala muitas coisas erradas.

— Jacob! — adverte Mirta.

— Se você diz que ama ele, por que é que estão sempre brigando?

— Porque seu pai é cabeça dura, e depois que virou religioso, fechou-se para o mundo.

— Jacob! — adverte novamente, Mirta.

— Ele diz que você também era religioso e que foi até rabino. É verdade isso?

— Há tanta coisa que eu quero te dizer Adria, mas nem sei por onde começar.

— Começa pelo começo. — diz o garoto, sorrindo

Jacob sorri.

— Você é muito esperto, sabia?

Jacob faz cócegas em Adria, que rola de tanto rir.

— Você quer saber a verdade? Toda a verdade?

— Hahahahahaha! Manda ele parar, vovó.

Mirta não se intromete e curte a relação que ambos estão construindo.

— Para, vô! Por favor, eu te imploro.

Jacob para de fazer cócegas e deita-se sobre a grama verde. Adria deita-se sobre o seu peito e ambos se abraçam.

— Eu te amo, Adria! Esses dias que passamos juntos, são os dias mais felizes da minha vida.

— Eu também, vô, mas você ainda não me respondeu se era rabino. Jacob torna a fazer cócegas em Adria.

— Manda ele parar vó, manda ele parar.

— Não exagere Jacob.

Jacob para e sussurra ao ouvido de Adria.

— Nunca conte nada do que conversamos com o seu pai, “Calvin”.

— Por que, “Harold”? — sussurra Adria.

— Porque ele pode não gostar e vai acabar me proibindo de ver você.

— Tá bem, eu não digo nada.

No fim do dia, eles levantam para retornarem para casa. Mirta acerta um chute na bola, mandando-a para longe. Adria olha espantado para ela.

— Pensa que eu não sei chutar uma bola, rapazinho?

Adria corre para pegar a bola e Mirta aborda Jacob.

— Cuidado com o que você fala para ele, “Harold”. Elias pode ficar zangado.

Jacob surpreende-se com Mirta, que segue segurando a cesta com o que sobrou do lanche e a toalha sobre os ombros. Jacob sorri, enquanto a admira. “Ela é muito mais esperta do que eu posso imaginar.” — pensa.

Como Jacob havia previsto, toda vez que Adria é entregue, Elias massacra o filho com perguntas, querendo saber o que eles conversaram. Mas, já orientado, o menino omite e nega qualquer insinuação que prejudique o avô. As palavras ditas por Jacob ecoam em sua cabeça. “Porque ele pode não gostar e vai acabar me proibindo de ver você.”