Quebra de Contrato: o medo do que há de vir é mais forte do que o tormento que sinto

12 de maio de 2018
Kito Mello
por

Presidente da ASBI - ASSOCIAÇÃO SIONISTA BRASIL- ISRAEL. Professor, autor-roteirista, escritor, pesquisador e ghost writer.

— Por que vocês não se juntam à nós para resistirem ou reagirem? — pergunta Haim numa reunião com Jacob, Efraim, Fligar, seu amigo policial e Max, seu companheiro da Resistência.

— Porque não possuímos armas! — responde Efraim.

— Vocês não percebem o que os nazistas estão fazendo com a gente, senhor Efraim? — pergunta Max.

— Não nos apoiamos mais, rabino. A solidariedade judaica está se desfazendo e as pessoas estão procurando maneiras de se salvarem individualmente. — diz Max para Jacob.

— Nem todos agem assim, Max. Nosso povo é otimista em relação à humanidade. Acreditamos que os alemães vão reconhecer o erro que estão cometendo. — contemporiza Efraim.

— Um otimismo descabido, meu pai. Por este prisma, vocês simplesmente se negam a acreditar que o extermínio em massa do nosso povo já está acontecendo. — diz Haim.

— Isso é impossível, Haim. Somos milhões e estamos por toda a Europa. — responde Jacob.

— Temos que continuar acreditando que as nossas comunidades organizadas têm o direito de viver. A Inglaterra e a França vão entrar na guerra e derrotar Hitler. — acrescenta Efraim.

— Quem pode pensar diferente disso, Haim? Alguém pode imaginar que isso possa piorar? — diz Fligar.

— Acreditem! Isso pode piorar muito mais. Estamos sofrendo as mesmas coisas que já sofrem nossos irmãos alemães, austríacos e tchecos. Nem os ingleses e nem os franceses os ajudaram. Por que nos ajudariam agora? — responde Max.

Os inimigos tentam torná-los sub-humanos, tentam aniquilá-los para livrarem o mundo deles, mas eles não sabem com quem estão lidando. Não sabem o que significa ser judeu. Pensam que judeu é aquele que meramente se esforça para ser humano. Ser judeu é muito mais do que isso. Judeu é aquele que se esforça para ser o melhor para a humanidade. Sempre foi assim e continuará sendo.

No gueto, Jacob é confrontado com sua fé de forma marcante, e isso ocorre momentos antes de todos serem evacuados e deportados para o campo de Belzec.

Ele está em um esconderijo, preparando-se para realizar uma cerimônia de bar- mitzvá. O ambiente é lúgubre, sem janelas, com paredes descascadas pela infiltração e um armário de quatro portas que esconde um cubículo. Um tapete colocado sobre uma tampa de concreto encobre uma saída pelo esgoto.

Dentro do cubículo, Jacob, ritualmente, derrama a água de uma jarra sobre as mãos direita e esquerda, em três tempos cada uma, enquanto espera a chegada do casal Moishe e Sarah Nisenbaum, com o filho Dov, para realizar sua cerimônia de bar-mitzvá.

Haim, Max e outros membros da Resistência dão cobertura ao evento, mas Haim se atrasa ao se encontrar com Fligar para lhe entregar um relógio de ouro em troca de informações, orientando-o a comprarem mais armas.

— Guarda isso. Não dá mais tempo para nada. — diz Fligar. — Como não dá mais tempo? — indaga Haim.
— Eles vão evacuar todo o gueto, hoje.
— Tem certeza disso?

— Alguma vez eu falhei com você?

— E a que horas será isso?

— Não sei. A qualquer hora.

— Então tira essa fantasia de policial e vem com a gente. — Eu sou mais útil pra vocês ao lado deles.

— Então, de qualquer maneira, fique com o relógio. Você pode precisar comprar o silêncio de alguém.

Fligar fita o relógio, guarda-o no bolso, mas não percebe que está sendo observado à distância por David, um policial judeu traidor da causa.

— Preciso ir agora, Jacob me espera. — despede-se Haim.

— Quer um bom conselho, Haim? Convença o teimoso do seu irmão a abortar o que programaram e tratem de se esconder.

— Talvez convencê-lo seja mais difícil do que resistir aos alemães…

— Boa sorte.

Haim para e olha dentro dos olhos do amigo.

— Sabe, Fligar, quando essa guerra acabar, terão nos tirado tudo, menos a nossa vontade de resistir.

Haim atravessa o pátio sem perceber, a esta altura, que o outro policial judeu o segue à distância. No entanto, Fligar percebe a movimentação suspeita e os segue cautelosamente. Quando David já estava quase alcançando Haim, Fligar o intercepta.

— Os alemães já chegaram. É melhor irmos logo ou vai sobrar pra gente.

David faz menção de continuar seguindo Haim, mas Fligar puxa-o pelo braço e os dois seguem em direção ao portão do gueto, onde se reúnem outros policiais judeus e um comboio de soldados alemães.

No cubículo escuro, iluminado por uma gambiarra e, com um sistema de ventilação feito com buracos circulares no teto, e uma mesa, onde repousa o rolo da Torá, Jacob se reúne com a família Nisenbaum e alguns membros da Resistência, entre eles: Joseph, Eliezer, Zivia, Natan, Raya e Max.

Moishe e Sarah se mostram preocupados com a presença deles, mas Jacob os tranquiliza.

— Não se preocupem. Todos os que estão aqui são da minha inteira confiança.

Joseph aproxima-se e cumprimenta o pai do menino. Haim logo em seguida bate à porta do armário que esconde o cubículo. Ele dá três batidas rápidas e é recebido por Natan pela porta semiaberta:

— Chame Jacob pra mim, agora! — pede Haim.

— Agora não dá. Ele está no meio da cerimônia. O que houve?

Haim determinado, força passagem e adentra o armário. No pátio externo do gueto, os policiais judeus recebem ordens dos oficiais da Wehrmacht. Três caminhões, ocupados por soldados, entram no pátio devagar. Atrás deles, outro grupo de soldados em formação. No cubículo, Dov lê a Torá diante de Jacob, que nem desconfia do que acontece do lado de fora.

— *“Bereshit bara elohim et hashamayim ve’et ha’arets…”

Haim interrompe sem saber o que está ocorrendo do lado de fora.

— Acabem com a cerimônia! Os alemães vão invadir o gueto a qualquer momento. Precisamos nos esconder antes que eles cheguem!

— Nós não vamos a lugar algum! Enquanto estivermos aqui estaremos seguros. — responde Jacob.

— Não seja burro, Jacob! Deus não impediu que a gente viesse parar nesse gueto imundo e nem vai impedir que os alemães entrem aqui!

— É por causa de gente sem fé como você que o nosso povo vem sofrendo! — responde Jacob.

— Você está enganado, meu irmão. Nosso povo tem fé, nosso pai tem mais fé que todos os *“hassidim” reunidos e olhe para onde todos nós viemos parar, seu tolo? Deus não nos salvou, não salvou nenhum rabino e nem salva nosso povo, que morre todos os dias de fome, de tifo ou com uma bala na nuca.

— Rabino, desculpe, mas ainda dá tempo do meu filho receber a bênção? — pergunta o pai do menino, interrompendo a discussão.

Pelo som do alto-falante, a ordem de um oficial alemão invade o recinto.

“Vamos começar a evacuar o gueto. Vocês têm vinte minutos para aparecer e se apresentar. Quem não obedecer será fuzilado. Tragam o mínimo que puderem.”

Haim arranca a boina sobre a cabeça de Joseph e coloca-a sobre a sua cabeça e, diante do menino, grita: “Deus te abençoe, Mazal Tov!”

— Pronto, agora vamos embora! Já nos arriscamos demais! — grita.

Todos olham para Jacob, hesitantes.

— Não ouse se meter nos meus assuntos, Haim!

— Seus assuntos? Não banque o messias, sua fé não irá nos salvar! Se não fosse pela resistência que fazemos, nem esse espaço você teria! Agora vamos!

— A cerimônia ainda não acabou! Se ficarmos unidos em torno da Torá, Deus nunca nos abandonará! Foi pela falta de fé que nossos antepassados sucumbiram aos inimigos! — admoesta Jacob.

— Deixe que eles mesmos decidam se querem se salvar, Jacob. — diz Haim.

— Nós decidimos ficar com o rabino. — diz Moishe, o pai do menino.

— Vocês estão loucos? Salvem o menino pelo menos! — diz Max.

— Ele está a salvo. — rebate Jacob.

— Espero que você tenha razão, Jacob. Não queria estar na sua pele se essa família morrer por causa da sua teimosia. — conclui Haim.

Do lado de fora os soldados arrombam portas, quebram vidraças, derrubam carroças e maltratam os judeus, que já se aglomeram no pátio com seus pertences.

No cubículo, Haim, Max, Joseph, Eliezer, Zivia, Natan e Raya passam pelo armário e fecham a porta, deixando Jacob e os Nisenbaum para trás. Encaminham-se às pressas para a saída do porão, mas são interceptados por Fligar, que chega ofegante à porta.

— Por aqui não, eles estão vindo pra cá! Vão pelo esgoto!

Todos dão meia volta. Haim e Max afastam o tapete e removem a tampa de concreto. Zivia e Raya descem pelo buraco, seguidas por Joseph e Natan. Fligar dá cobertura.

— A essa altura, Fligar, você já deveria saber que, se não vestimos a camisa do inimigo, ficamos com a nossa manchada de sangue. — diz David, o policial judeu que havia suspeitado e seguido Haim, antes de ele entrar no prédio.

— Deixe que escapem, somos todos judeus e estamos no mesmo barco! — rebate Fligar.

— Eu já abandonei esse barco faz tempo, Fligar. Não há outra opção.

— Há sempre uma terceira opção. — devolve Fligar, sorrindo.

Fligar retira do bolso o relógio de ouro que Haim havia lhe dado momentos antes.

— “Alimente a caixinha…” Você se lembra disso, não é?
 —  Fligar  oferece o relógio ao adversário, que o aceita, analisa a joia e a guarda no bolso.

— É… Isso pagaria o meu silêncio, mas… É tarde demais. — sentencia David, tirando um apito do bolso e dando o alarme.

Fligar arranca o apito de sua boca e os dois começam a lutar.

— Fujam daqui! — grita Fligar.

Eliezer foge pelo buraco. Haim e Max entram na briga. Dentro do cubículo, Jacob está de mãos dadas com o Moishe e Sarah, formando um círculo em volta de Dov, que está ao centro. Jacob inicia uma oração.

— Há trevas ao nosso redor, meu Senhor, e não conseguimos enxergar no nevoeiro…

Fora do esconderijo, Fligar, Haim e Max imobilizam David, quando então, entram cinco soldados e um tenente, que dispara para o alto. Todos se levantam, em prontidão, assustados. O olhar do tenente é frio. Ele aproxima-se de Fligar e de David com a arma apontada para eles.

— O que é que tá acontecendo aqui? — pergunta o tenente.

Todos permanecem em silêncio.

— Estou perguntando quem começou esta merda?

— Eu estava impedindo a fuga desses homens, que recebiam a cobertura deste traidor! — diz Fligar, apontando para David.

— Vocês dois, entrem nesse buraco, procurem os ratos fujões e, se os encontrarem, matem todos! — diz o tenente para dois soldados, apontando para a passagem que dá para o esgoto.

Os soldados descem pela abertura.

— É mentira, senhor, fui eu que os surpreendi. Esse filho da puta está mentindo! — suplica David.

— Acredite em mim, meu comandante, ele ficou calado quando o senhor fez a pergunta e agora quer se livrar mentindo. — rebate Fligar.

— Não acredite nele, senhor, é ele o traidor! — devolve David.

— Procure no bolso dele e saberá que estou dizendo a verdade, senhor. Ele tentou me subornar para que esses homens escapassem. — diz Fligar.

— É mentira, senhor, ele o está enganando! — Soldado, reviste-o! — ordena o tenente. O soldado faz a revista.
— Tem um relógio de ouro aqui, senhor.

O tenente não vacila e dispara contra a testa de David, que cai morto. Então ele pega o relógio e guarda-o no bolso.

— Tem mais alguém aqui com vocês?

— Não, senhor. — diz Fligar já esperando pelo pior.

Sem se fazer notado, Fligar troca olhares com Haim e Max, enquanto observa o tenente se dirigir ao armário e estacar diante dele.

— Vou perguntar mais uma vez, tem mais alguém aqui com vocês?

— Não, não tem não senhor. — repete Fligar.

O tenente abre uma das portas do armário. Nada acontece, abre a segunda porta. Ninguém!

— Sabe o que vai lhe acontecer se estiver mentindo, não é? Ameaça o tenente.

— Sim senhor. — responde Fligar.

Então ele abre bruscamente a terceira porta, mas nela também não há ninguém. Resta a quarta e última porta. Ele estaca diante dela.

— É a sua última chance…

— Não há ninguém, senhor.

Ele tenta abrir a porta, mas ela está trancada. Então se aproxima de Fligar e o encara nos olhos.

— Por que aquela porta está trancada?

Uma gota de suor escorre pela testa de Fligar. Três tiros são disparados contra o seu abdômen e ele cai morto.

— Soldados, abram aquela porta!

Os soldados descarregam suas metralhadoras contra a porta do armário, revelando o cubículo, em meio à poeira e a fumaça levantada pelas rajadas.

— Juntem esses dois vermes aos da raça deles. — diz o tenente, apontando para Max e Haim.

Em seguida, ele adentra o cubículo, seguido pelos três soldados.

— Ora vejam só o que temos aqui, rapazes… Esses judeus não perdem mesmo a mania de se esconderem como ratos no porão.

Os pais do menino estão abraçados e acuados ao fundo. Jacob está à frente deles. Sarah, bastante apreensiva, deixa escapar um lamento.

— Cale a boca, sua vadia! — grita um dos soldados batendo em seu rosto.

Caminhando lentamente por entre eles, o tenente analisa o ambiente e fita o buraco de ventilação no teto.

— Tem mais algum rato escondido aqui? Fala tranquilamente, olhando em direção aos buracos de ventilação, mas todos permanecem calados.

— Soldado, vamos ver se cai algum ratinho desse buraco.

A pobre mãe chora compulsivamente em desespero. O soldado saca a pistola e atira várias vezes contra o buraco de ventilação.

— Em nome de Deus, senhor, poupe-nos como Esaú poupou Jacó. — suplica Jacob para o tenente.

— Ora, ora, rabino… E como Jacó, você agora pensa em me enganar?

— Não senhor.

— O que você me oferece, além de um prato de lentilhas, seu judeu trapaceiro? — pergunta o tenente, apertando as faces de Jacob com as mãos.

— Não posso lhe oferecer as lentilhas, senhor, mas posso dizer uma benção em seu favor.

O tenente gargalha diabolicamente.
— Qual bênção? A que era de Esaú por direito e que vocês roubaram para si?

— Sim, nosso patriarca Jacó cometeu um erro, mas no final, o que restou foi o perdão, senhor.

— O mesmo perdão que foi negado a Cristo pelo seu povo?

— Os homens escrevem o que querem senhor. Não significa que o que está escrito seja a verdade.

O tenente dá um soco no rosto de Jacob que cai ao chão.

— Sempre arrogantes, achando que todos estão errados e só vocês estão certos.

Jacob limpa o sangue que escorre do canto de sua boca, enquanto o tenente afasta uma cortina, revelando uma latrina. Então urina até que ouve o ruído de uma criança soluçando e pede silêncio, levando o dedo indicador à boca.

— Shhhhhhhhhhhh!!!…

O carrasco chuta a latrina, espatifando-a, e revelando Dov todo molhado de urina, encolhido dentro do buraco, onde se encaixa a louça.

— Saia daí, ratinho. Está com medo do quê?

O oficial ergue-o pelo colarinho e passa a arma sobre o tefilin afixado contra a testa de Dov.

— Quantos anos você tem? Não, não… Deixa-me tentar adivinhar… Hum! Você tem treze anos. Certo?

Dov, em estado de choque, permanece em silêncio.

— Já pode formar um minian? Não, claro que não. É por isso que você está aqui, não é?

Sarah chora compulsivamente.

— Soldado, cale a boca dessa infeliz.

O soldado bate com o cabo da metralhadora no estômago de Sarah, que vai ao chão, sendo acudida por Moishe.

— Então menino… Vamos ver se Jacó lhe ensinou a lição, ou também o enganou. — diz o tenente para Dov, que treme de medo.

— Questão número um: Qual o significado desta merda que você tem amarrada à testa e ao braço?

Dov permanece mudo.

— Rabino! Creio que esse menino não aprendeu esta lição. Explique novamente para ele.

— “E as atarás como sinal na tua mão e serão por filactérios entre teus olhos.” — recita Jacob, vacilante, a passagem do Deuteronômio 6:8.

O tenente caminha em círculos e volta-se para o menino.

— Questão número dois: Para que serve esse pano de chão pendurado no seu pescoço?

O menino irrompe em lágrimas.

— Resposta errada, meu filho, lágrimas não são argumentos. Rabino, por favor.

— O talit é como um lembrete visível do dever de observar, fielmente, todos os 613 mandamentos da Torá. — esclarece Jacob, com lágrimas nos olhos.

— Rabino! Qual a importância desta cerimônia para este menino?

— O bar-mitzvá é um rito de passagem que marca a maioridade religiosa do garoto judeu.

Um tiro é disparado na testa de Dov, que cai morto ao chão. Seus pais se desesperam.

— Soldado, mate os pais também, eu não aguentaria vê-los chorar.

Moishe e Sarah se ajoelham e suplicam pela vida, mas são executados.

— Você precisa ensinar melhor esses meninos, rabino. Esse aí não estava pronto para receber a Torá.

Jacob olha estupefato para o tenente.

— Soldados, levem-no.

Jacob é conduzido para fora do cubículo até o pátio externo, onde se aglomeram as famílias judias. Ele procura pelos pais, por Gyitla e pelos filhos. O Gueto de Łódź é isolado pelas tropas do III Reich, para ser totalmente aniquilado ao longo da década de 1940.