Quebra de Contrato – O julgamento IV

7 de julho de 2018
Kito Mello
por

Presidente da ASBI - ASSOCIAÇÃO SIONISTA BRASIL- ISRAEL. Professor, autor-roteirista, escritor, pesquisador e ghost writer.

A noite estava indo embora e a turma de sonderkommandos que trabalhava entre o fim da tarde e o fim da noite entraria no alojamento a qualquer momento e seria a vez deles trabalharem pesado nas câmaras de gás.

Do lado de fora do alojamento ouviam-se lamentos e gritos de terror. O kapo levantou-se e foi até a porta, abrindo-a para ver o que se passava do lado de fora. Todos ficaram apreensivos.

— São alguns prisioneiros que estão sendo encaminhados para as câmaras de gás. Tranquiliza-os, sem perceber a gravidade do que falara.

— Nossa hora se aproxima. Estamos cada vez mais perto do nosso fim. — conclui Max.

O kapo se manteve de pé, observando pela pequena abertura da porta. Todos permaneciam em silêncio. Mais gritos desesperados foram ouvidos a distância até que ele decidiu fechar a porta.

— Lyor, você disse que o povo irá sobreviver. Isto é o que está escrito no contrato feito no Sinai com Moisés? Deus garantirá a sobrevivência do povo judeu? Garantirá a nossa sobrevivência? — pergunta Theodor.

Lyor apenas olha para ele. Quer poder afirmar que sim, mostrar o quanto todos estão enganados, apesar de todas as evidências contrárias.

— Pois eu digo que não! Deus é o único culpado de tudo o que estamos passando, a sobrevivência do nosso povo não o interessa mais. — sentencia Max.

— Não, não é assim. Um povo não pode simplesmente deixar de existir. — argumenta Menachem.

— Acreditem! Esse é o plano de Deus. Ele quer acabar com todos nós. — responde Max.

— Não seja ridículo. — devolve Shlomo.

— Talvez o teste a que fomos submetidos tenha falhado, ou nós falhamos no teste. De qualquer maneira, nós não podemos entender a mente de Deus. — diz Lyor.

— Não me venha com isso novamente, Lyor. A gente não está falando sobre a mente de Deus, a gente está falando sobre o contrato que Ele fez conosco e parece ter quebrado. Estamos aqui decidindo sobre a promessa que Ele nos fez de que iríamos sobreviver aos nossos inimigos e não de que seremos aniquilados por eles. — esbraveja Theodor.

— Sobrevivermos como pessoas e não como animais. — completa Max.

— Mas existem judeus por todo o mundo e não só na Europa. acrescenta Shlomo.

— Você acha que se os nazistas acabarem com todos judeus da Europa, vão deixar o resto dos judeus que vivem no mundo, em paz? — devolve Tob.

— Talvez nós sejamos os últimos judeus da Europa. É muito importante o que decidiremos aqui. Se de fato, formos os últimos, podemos terminar esta história aqui, podemos terminar o que começou com Moisés no Sinai há 3.500 anos. Podemos rejeitar o pacto do Sinai e…

— Você acha que se eles entrarem aqui para nos pegar e nos levarem para as câmaras de gás, iremos nos salvar se dissermos que não somos mais judeus, ou se dissermos que rompemos o pacto que Deus fez com Moisés? …Oh! Por favor, deixe-nos ir pra casa, nós agora não seguimos nossa religião, nem nossa tradição. Pois saibam todos vocês que eu não rejeito o fato de ser judeu. Nada muda a nossa situação de condenados, é Deus quem está sendo acusado. — argumenta Tob, interrompendo Lyor.

— Isso nos tira todo o fio de esperança. — diz Shlomo.

— Vai se acostumando com isso, então. — devolve Max.

— Vocês religiosos, acreditam que Deus fez todas as estrelas do universo? — continua Tob.

— Certamente, ele fez tudo isso. O profeta Amós nos diz…

— Pra quê, Shlomo? — interrompe Tob.

— Perdão! Não entendi.

— Pra vocês, Deus fez mais de um bilhão de estrelas unicamente na nossa galáxia?

— Sim. — responde Lyor.

— E em quantas galáxias há planetas que não conhecemos?

— Eu não saberia responder. — responde Lyor, vacilante.

— Mesmo não sabendo responder, você tem conhecimento de que existem outras galáxias e outros planetas, certo?

— Imagino que sim.

— E ainda assim, você acredita que toda a atenção desse Deus está voltada apenas para este pequeno planeta?

— Acredito que sim. — responde Lyor com o cenho franzido, esperando algum ataque.

— Então eu acho que não me expressei direito, Lyor. Para você a atenção deste Deus está voltada apenas para uma pequena parte deste planeta? Não, não, não, espere, para ser mais específico. A atenção de Deus está voltada somente para nós, judeus?

— Acredito que sim.

— Ora, Lyor, você quer que nós acreditemos que este Deus, que criou mais de um bilhão de estrelas, fez um contrato apenas com os judeus? Só com os judeus? E nem mesmo com todos os judeus. Sim, porque judeus como eu, ou como os que se manifestam contrários a Ele, não contam, não é mesmo? — provoca Tob.

Todos permanecem em silêncio. Menachem deixa transparecer tensão já adivinhando o que virá pela frente.

— Me responda o seguinte, Lyor, se Deus ama tanto assim os judeus, por que precisou fazer todo o resto? Por que não encheu o universo só com judeus, ao invés de estrelas? Qual era o interesse deste Deus, Lyor? — pergunta enfaticamente, Tob.

— Não sabemos o interesse Dele. A mim também parece incrível, que de todo o universo, Ele tenha nos escolhido para sermos…

— Isso não é surpreendente, Lyor? Ou melhor, isso não é uma loucura! Uma loucura que permeia a cabeça de vocês, religiosos. — argumenta Tob, cortando Lyor.

Novo burburinho e agitação entre os prisioneiros. O kapo parece extasiado com tão brilhantes argumentações dos dois lados.

— Por que você considera loucura, crermos que Deus se importa conosco? — pergunta Menachem para Tob.

— Os bebês, sejam eles judeus ou não, assim que nascem, pensam que são o centro do universo, não é assim? — responde Tob com uma pergunta para Menachem.

Menachem balança a cabeça concordando.

— Eles pensam que o mundo desaparece quando fecham os olhos, não estou certo?

— Talvez, mas eles também…

— Eles não estão errados, Menachem? — corta-o Tob.

— Mas eles são crianças, Tob.

— Na Idade Média, os homens também não achavam que o sol girava ao redor da terra? — pergunta Tob mais uma vez para Menachem.

— Sim, mas naquele tempo…

— Felizmente eles estavam enganados, não é? Mas não vamos esquecer que muitos morreram por pensar diferente deles. — corta-o mais uma vez, Tob.

Todos permanecem calados. O tribunal avança na madrugada. Dali a poucas horas, todos deverão estar de pé e dispostos para mais uma jornada estafante e desumana de trabalho escravo.

— Tudo não passou de um grande equívoco causado pelo ponto de vista que estavam olhando. — argumenta Lyor.

— Não seria a mesma situação, a que acontece em relação à crença de vocês neste Deus? — responde Jacob.

— Tolice. — devolve Lyor.

— Por favor, apenas pensem. No passado, uma nação podia ter quantos deuses quisesse. Um para agricultura, outro para os trovões, um para os rios e, sabe-se lá, quantos deuses mais. — diz Jacob.

— Mas eram nações pagãs. — rebate Menachem.

— Senhores, por favor, nós não estamos julgando outros deuses, mas apenas o Deus de nossos antepassados, e não temos muito tempo pra isso. — interveio Theodor.

— Pois bem, sabemos que os gregos e os egípcios tiveram muitos problemas para administrar seus deuses, então criamos uma sociedade onde o poder estaria concentrado apenas nas mãos de um único homem; um único rei; um único Deus. — argumenta Jacob.

Shlomo e Lyor olham para ele com um desprezo profundo. Max esboça um sorriso. Tob decide sentar-se. O kapo observa a conversa, mas não tira os olhos de Jacob. Não compreende como ele foi capaz de mudar tanto, desde que chegou a Treblinka. Elyakim cobre a cabeça.

— Como consequência disso, nossa sociedade se tornou eficaz e unida, e até hoje, concebe a ideia de que este único Deus nos ama mais do que a qualquer outra nação. — continua Jacob.

— Foi acreditando nisso que nós prosperamos. — rebate Menachem.

— Mas também nos isolamos e mantivemos esse Deus somente para nós até que fomos surpreendidos por alguém que teve uma ideia melhor do que a nossa. — avança Jacob na argumentação.

— Os bastardos cristãos. — devolve Max.
Novo burburinho e agitação, dessa vez concordando com a colocação de Max. — Mas eles acreditam em um Deus que se reparte em três. — diz Shlomo.

— O importante Shlomo, é que dizem que Deus não ama só os judeus, mas ama todo mundo e, se ama todo mundo, o Deus deles é melhor do que o nosso, que só ama os judeus. Então eles pensaram: “Se o nosso Deus é melhor do que o deles, por que não conquistamos os judeus?” Então vieram os romanos. Eles gostaram tanto dessa ideia que saíram convertendo todos os povos que eles conquistaram, mesmo que isso tenha custado a vida dos que não quiseram segui-los. — diz Jacob.

— Um Deus e um rei. Tudo isso pelo poder. — completa Tob.

— Mas os romanos se foram, desapareceram. — responde Menachem.

— Por quê? — pergunta Jacob.

Menachem não entende.

— Porque alguém teve uma ideia ainda melhor que a dos romanos, Menachem. Ora, se só existe um Deus, esse Deus é quem o cria. Assim nascem os conquistadores, e é assim que Hitler concebe esta ideia. Senhores, aqui neste lugar, Hitler é Deus. — sentencia Jacob.

— Tudo o que você está dizendo Jacob, está correto historicamente, mas nós ainda estamos aqui. — afirma Menachem.

— É verdade, mas não se esqueça de que nós estamos aqui apenas por mais alguns dias, ou horas ou mesmo minutos. — devolve Jacob.

Então Jacob vira-se de costas para Menachem e se afasta. Shlomo respira fundo, levanta-se e aproxima-se de Jacob.

— Você renegou nosso Deus mesmo depois de tudo o que ele te deu na vida?

— O quê? — surpreende-se Jacob.

— É isso mesmo. Deus é perfeito, a Torá é perfeita. Têm muitos aqui que renegaram nosso Deus e se converteram a outras religiões. Tomaram por esposas as impuras, viraram as costas para as Escrituras Sagradas. São homens educados. Disseram que viram uma verdade que a gente não viu, mas aqui estão eles, enfrentando a morte como todos nós. — argumenta Shlomo.

— E vocês? Depois de tanta devoção, cobrindo a cabeça como uns idiotas, ainda assim continuam se dando mal e são mandados para a morte junto conosco. — ataca Max.

Há um forte burburinho. Theodor levanta a voz com todos, pedindo ordem.

— Eu só peço para vocês enxergarem as coisas como homens, e não como crianças. Usem a razão. — argumenta Jacob.

— E o que é a razão? Quando você foi colocado neste lugar com a gente, que parte da razão você passou a usar? Qual é a utilidade da razão nesse mundo de loucuras em que fomos jogados. — devolve Menachem.

Ouvem-se as vozes dos soldados nazistas maltratando outros presos do lado de fora do alojamento, mais alguns minutos e o dia irá raiar. Todos ficam ainda mais apreensivos e assustados.

— Não temos mais tempo. Vamos votar pela condenação ou absolvição do Deus de Israel. — declara Theodor.

Todos se levantam de seus catres.

— Eu voto pela condenação, para mim está claro que Deus quebrou o contrato feito no Sinai com Moisés e o nosso povo. — sentencia Jacob.

— Qual é o seu voto, Menachem? — pergunta Theodor.

— Eu absolvo nosso Deus, Bendito seja Ele, sob a alegação de que, tudo o que está nos acontecendo é para um propósito maior, mas que agora desconhecemos.

— Se isso refletir o voto de todos aqui, caberá a mim resolver a questão. No entanto, qualquer que seja o meu voto, não se esqueçam: O objetivo dos nazistas é nos destituir de toda a moral, é fazer com que aceitemos pequenas concessões até que todos estejamos vencidos e aceitemos uma bala na nuca, ou a morte lenta na câmara de gás, em total submissão. — diz Theodor.

— Eu peço a palavra. — levanta-se Jacob.

— Não temos mais tempo. — diz Theodor.