Quebra de Contrato – o fim dos guetos

30 de Março de 2018
Kito Mello
por

Vice-Presidente da ASBI - ASSOCIAÇÃO SIONISTA BRASIL- ISRAEL. Professor, autor-roteirista, escritor, pesquisador e ghost writer.

Em 1940, o Líder de Polícia e das SS Odilo Globocnik, cujo comando de distrito estava situado próximo a uma reserva judaica, forçou os judeus de Lublin a se concentrarem no quarteirão judaico da cidade, uma decisão baseada na sua antipatia pessoal contra a localização das moradias destes. Todavia, antes da criação do gueto propriamente dito, dez mil judeus já haviam sido expulsos de Lublin e realocados para a região rural da cidade. Essa expulsão e isolamento em guetos foram decididos em março de 1941, quando as tropas da Wehrmacht, em preparação para a invasão da Rússia, requisitaram alojamentos próximos à fronteira entre os territórios da Alemanha Nazista.

O gueto, o único no distrito de Lublin, foi situado na área de Podzamcze, a partir do Portão de Grodza, à época, chamado de “Portão Judeu”, por demarcar os limites entre os quarteirões judaicos e não-judaicos da cidade, juntamente com as ruas Lubartowska e Unicka e indo até os limites da Rua Franciszkańska. Diversos membros de partidos políticos judeus, como o Bund, foram aprisionados no Castelo de Lublin, prosseguindo com suas atividades às escondidas. Porém, quando a guerra chegou ao fim, praticamente todos eles estavam mortos.

A solução para esvaziar os guetos e aniquilar os judeus foi implementada por uma cota diária de deportação para o Campo de Extermínio de Belzec, os que sobraram foram transferidos para o Gueto de Majdan Tatarski, um gueto secundário estabelecido nos subúrbios de Lublin, sendo então assassinados ou mandados para o Campo de Extermínio de Majdanek. Os remanescentes do gueto que conseguiam escapar da deportação e se escondiam, acabavam detidos pelos alemães e eram executados na mesma hora. À época da liquidação do gueto, Joseph Goebbels, ministro de propaganda da Alemanha, escreveu em seu diário:

“O procedimento é deveras bárbaro, e não deve ser descrito aqui em detalhes. Não restará muito dos judeus.”

Após liquidarem o Gueto de Lublin, as autoridades alemãs empregaram o trabalho escravo de detentos do campo de Majdanek para demolirem e desmantelarem as áreas do antigo gueto, incluindo as áreas vizinhas à vila de Wieniawa e o distrito de Podzamcze e, em ato simbólico, explodiram a Sinagoga de Maharam, construída no século XVII em honra a *“Meir Lublin”.

Desta forma, eles terminaram de eliminar a sociedade judaica em Lublin e séculos de cultura — em 1939 os judeus formavam em torno de um terço da população total da cidade. Alguns poucos indivíduos conseguiram escapar da liquidação do Gueto de Lublin, chegando ao Gueto de Varsóvia e levando com eles notícias da destruição. As evidências testemunhais convenceram alguns judeus de Varsóvia que a intenção dos alemães era, de fato, exterminar toda a população judaica na Polônia. Outros, no entanto, incluindo o chefe do *“judenrat” local, Adam Czerniaków, consideraram os relatos de assassinatos em massa um “exagero”. No fim da guerra, apenas 230 judeus de Lublin sobreviveram à ocupação alemã.

Não há palavras suficientes para descrever o mal, não há imagens gráficas nem imaginação suficientemente doentia para descrever aquilo que Jacob e seus parentes, assim como os demais judeus, suportaram nas garras dos seus assassinos. Seis milhões de judeus foram assassinados por um único motivo: ERAM JUDEUS!

Para os nazistas, não importava se o judeu era uma pessoa assimilada ou muito religiosa. Um judeu era um judeu, e isso era o suficiente para justificar todo o sofrimento e crueldade que uma mente doente pode produzir.

Sua barba era arrancada com as mãos, sua pele era torcida e retorcida, seus dentes eram arrancados com violência, seus pulmões gaseificados até que perdessem o controle dos músculos e desabassem uns sobre os outros para em seguida, arderem em fornos crematórios ou em imensas grelhas. Medo, terror, pânico, tudo foi feito para destruí-los, porém, em alguns lugares dos seus corpos os nazistas não conseguiam penetrar: Suas mentes, corações, almas e espíritos.

A ALMA JUDAICA NUNCA FOI DIMINUÍDA, APENAS ENFRAQUECIDA!

O mais notável era o fato de que, muitos se apegaram durante toda a provação à Torá — o código moral e legal que tem orientado suas vidas desde o Sinai —. Nos guetos, nos campos de concentração e de extermínio ou nas marchas da morte, eles continuaram a consultar a Torá em busca de orientação, fazendo perguntas aos rabinos e líderes espirituais.

Do prático ao moral e ao filosófico, essas perguntas demonstravam a fé que aqueles mártires tinham no seu Criador e a que ponto eles estavam dispostos a cumprir Sua vontade.

A maioria dessas perguntas e respostas, e sobre o que elas significavam nunca foi registrado. Praticamente tudo isso ficou perdido nos escombros e nas cinzas. Felizmente, para o mundo, mas principalmente para os judeus, alguns poucos documentos preciosos sobreviveram e hoje servem de testemunho daquilo que esse povo tolerou e suportou.

Ao entrar em contato com esses documentos, pode-se perceber que a maioria daquelas pessoas se preocupava em saber o que deveriam ou não fazer, segundo a Torá. Quando o mundo não fazia mais sentido, eles ainda procuravam certificar-se de que suas ações, palavras e pensamentos eram puros e sagrados. Quando o mundo ignorou Deus e Seus mandamentos, eles determinaram que não o fizessem. Nem todos, no entanto, mantiveram-se firmes e, assim como Jacob Zollinger, perderam a fé pela total falta de compreensão e respostas aos seus questionamentos.

Em um dos relatos encontrados, uma mulher, moradora no gueto de Łódź e que tinha acabado de dar à luz, queria saber se poderia circuncidar seu bebê antes do oitavo dia, pois temia que ele não vivesse sequer uma semana. Essa mãe amorosa desejava assegurar que pelo menos seu filho morresse como um judeu circuncidado.

As pessoas perguntavam se deveriam ou não recitar bênçãos sobre os alimentos quando a comida não era *“kosher” ou se poderiam recitar as preces matinais antes do nascer do sol, pois esta seria a única hora em que não seriam notadas.

Um homem muito doente foi avisado que estava fraco demais para jejuar — segundo a Torá é proibido jejuar se o estado de saúde é débil — em *“Yom Kipur”. Ele implorou ao rabino para saber se, mesmo assim, poderia abster-se de comer. Embora tivesse sido não observante durante toda a vida, ele queria morrer sabendo que tinha jejuado em seu último Yom Kipur.

Um pai queria saber se poderia salvar seu único filho, selecionado para a morte, por meio de suborno, sabendo que, caso seu filho fosse salvo, outro morreria em seu lugar.

Uma mãe perguntou se poderia matar seu bebê de maneira indolor, pois no dia seguinte eles iriam pegar todas as crianças e, talvez, atirassem sua filha de três meses de um telhado ou diretamente no fogo.

Havia judeu que perguntava ao rabino quais as frases corretas das orações, e depois, recitava cuidadosamente a bênção *“al kidush Hashem”, quando alguém estava sendo assassinado ou antes que ele próprio tirasse sua vida.

Estas questões não eram respondidas com base em opiniões ou sentimentos pessoais. Estes judeus só queriam saber o que a Torá tinha a dizer sobre estes temas, e era obrigação dos rabinos encontrarem as respostas.

Por que alguns escaparam e outros tantos pereceram, foge à racionalidade. Achar que escaparam porque Deus assim quis é considerar que esse mesmo Deus não quis saber do restante. Por isso, é compreensível que uns se agarrem na fé e outros não queiram mais saber dela. Muitos questionamentos povoam a mente das pessoas que se detêm a estudar o assunto, mas qualquer juízo de valor que se faça para defender esta ou aquela tese é irresponsável. Ninguém pode julgá-los, nem mesmo eles podem julgar um ao outro porque não acreditam em Deus, ou porque seguem acreditando. Se existe um Deus que tudo vê, onipresente, onipotente e onisciente, só ele poderá compreender e perdoar quem Nele desacreditou, mas se esse Deus não existe, a fé em sua existência serve para confortar o coração de quem não consegue caminhar sozinho.

Os judeus sabem muito sobre sofrimento e perseguição, mesmo assim, sempre buscam fazer aquilo que é certo, que é sagrado, que é bom para o mundo e para o seu semelhante, independentemente das circunstâncias, da sua religiosidade ou da falta dela.

A cada ano, todos devem relembrar o horror cometido contra eles, como sofreram e morreram. Porém, o mais importante é lembrar como sobreviveram e ainda vivem. Ao fazermos isso, honramos a dignidade, o poder e a fé que sempre tiveram.

Am Israel Chai!

*MEIR LUBLIN – Foi um importante rabino polonês, talmudista e decisor da lei judaica. Também chamado de Maharam (em hebraico: Nosso Mestre).

*JUDENRAT – Corpos administrativos durante a Segunda Guerra Mundial que os alemães julgaram necessário que os judeus administrassem nos territórios ocupados da Polônia.

*KOSHER – A comida, de acordo com a halachá (lei judaica) é chamada de kosher, que significa próprio, neste caso, próprio para consumo pelos judeus, de acordo com a lei judaica.

*YOM KIPUR – É um dos dias mais importantes do judaísmo.

*AL KIDUSH HASHEM – Santificação do nome de Deus. Em casos onde a fé e a continuidade de uma vida judaica estiverem em perigo, ou seja, quando algum poder maligno pretender forçar os judeus a abandonarem sua fé, numa ocasião como essa, todo judeu é conclamado a resistir àquele poder com toda sua força e, se necessário, sacrificar a vida para não cometer a menor transgressão contra as leis