Quebra de Contrato – O Anschluss

7 de abril de 2018
Kito Mello
por

Presidente da ASBI - ASSOCIAÇÃO SIONISTA BRASIL- ISRAEL. Professor, autor-roteirista, escritor, pesquisador e ghost writer.

Vienenses saudando a passagem de Hitler após a anexação da Áustria pela Alemanha nazista em 1938.

Em 11 de março de 1938 às 19h47, Kurt Schuschnigg fez seu último discurso no rádio como chanceler federal austríaco. “Deus proteja a Áustria” foram suas últimas palavras. Adolf Hitler havia chantageado o país: ou o governo renunciava, ou as tropas alemãs a ocupariam. O presidente Wilhelm Miklas e Schuschnigg sabiam que era inútil resistir.

O dia seguinte marcou o fim do Estado da Áustria. Às oito horas da manhã, as tropas alemãs entravam no país. Na tarde do mesmo dia, Adolf Hitler chegava de carro a Braunau am Inn, cidade próxima à fronteira onde ele nascera em 1889. Em vez de resistência, houve júbilo.

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A vida corre normalmente em Łódź e em toda a Polônia de um modo geral. Efraim é o pai dos irmãos Haim e Jacob. Ele é um bom judeu, bem ortodoxo e é também o dono de várias lojinhas que vendem de tudo, e que são administradas por parentes. Isso lhe permite proporcionar conforto para os familiares e custear todas as despesas dos filhos, principalmente com a formação escolar e acadêmica. A comunidade judaica na Polônia é a maior de toda a Europa e Łódź, a maior delas.

Dois anos mais tarde, Efraim manda Jacob, o filho mais novo, recém-formado pela Chachamei Lublin Yeshivah, ir morar com o irmão Haim, o filho mais velho, avesso à religião, e que trabalha como marceneiro, em Majdan Tatarski, um vilarejo que fica a quatro quilômetros de Lublin. Lá, Jacob segue uma promissora carreira como rabino, onde ensina a Torá aos rapazes da comunidade, enquanto Haim monta uma oficina no fundo do quintal da casa. Nessa época, já existe antissemitismo, embora seja moderado. Contudo, o judaísmo polonês consegue espalhar sua sabedoria por toda Europa, o que diminui a resistência em algumas situações.

Jacob se casa com Gyitla em 1935 e ela dá à luz a um filho, Tzvi e a uma menina, Simah. Como esposa do rabino local, ela passa a cuidar das crianças e das meninas, preparando-as para serem boas esposas. Aparentemente, tudo vai bem com a Polônia, mas na Alemanha, as ações políticas de Hitler começam a refletir contra os judeus.

Um dos mais graves problemas que os alemães sofrem é o desemprego e, para atacar este problema, o Führer abre frentes de trabalho, empregando cerca de 1 milhão de pessoas em obras de emergência e atividades paramilitares e, em 1935 é reaberto o alistamento militar, com o intuito de elevar o efetivo a 500 mil homens, apesar da proibição do Tratado de Versalhes.

Em 1936 inicia-se a remilitarização da Renânia, na fronteira com a França. Desta maneira saneia-se a situação social interna e ao mesmo tempo desenvolve-se a política externa, ainda no sentido da preparação do expansionismo. A geração de empregos está diretamente associada à militarização e a industrialização do país, destacando-se a indústria bélica.

Em 1937, Hitler e seus Ministros preparam o avanço da Alemanha sobre os territórios considerados usurpados do país ao final da Primeira Guerra, o que acontece em 13 de março de 1938, quando efetiva-se o *“anschluss”, ao utilizar-se de um argumento racial e da unidade dos povos germânicos para se aproveitar da fraqueza do governo austríaco e de sua instabilidade econômica que foi se agravando, desde o final da Primeira Guerra.

O mesmo argumento racial é utilizado por Hitler para avançar em direção a Tchecoslováquia, país formado após a Primeira Guerra, com o fim do Império Austro- Húngaro. Nesse novo país, a região dos Sudetos é formada em sua maioria por alemães, que, insuflados por Hitler, passam a exigir autonomia. A mobilização de tropas tchecas e francesas faz com que se busque um acordo diplomático. Realiza-se então a Conferência de Munique — setembro de 1938 —, que acaba por determinar que os Sudetos sejam entregues à Alemanha. Com isso, a Tchecoslováquia, isolada, é obrigada a entregar 20% do seu território.

As potências ocidentais colocam então em prática a “política de apaziguamento” acreditando que dessa maneira conseguirão frear a expansão do nazismo, através da definição de fronteiras europeias e da declaração anglo-alemã e franco-alemã de não agressão.

Haim está na casa em Łódź, reunido com Jacob e Efraim, conversando sobre as últimas ações da Alemanha.

— Vocês ouviram o rádio ontem? — pergunta Haim.

— Não. — responde Efraim.

— Eles devem estar comentando isso agora, aliás, é a única notícia que se ouve nas rádios. — diz Haim.

— Sintonize em alguma rádio polonesa. — pede Efraim.

— Não, papai, tem que ser a BBC de Londres. — responde Haim.

Haim liga o rádio e sintoniza a BBC de Londres. Após tocar duas músicas, o jornalista britânico entra no ar para repetir a manchete do dia anterior.

“E atenção!!! Voltamos a informar que, desde o dia 12, o exército alemão invadiu a Áustria, colocando o Ministro do Interior nazista para ocupar o posto de chanceler, passando por cima do *“Tratado Saint-Germain-en-Laye” de 1919, que pôs fim ao Império Austro-Húngaro, onde o artigo 88 estipula expressamente que a união da Áustria com a Alemanha está proibida. Ontem, dia 13 de março de 1938, infelizmente, a Alemanha anunciou oficialmente a anexação da república austríaca e a converteu numa província do Reich.”

Jacob e Efraim minimizam o impacto da notícia.

— Isso é muito ruim para os judeus austríacos, mas, de certa maneira, a população já manifestava interesse em pertencer à Alemanha de Hitler. — diz Efraim.

— Não é possível que você acredite que isso é apenas um problema dos judeus de Viena, papai! — diz Haim.

— E de certa maneira, não é? — responde Efraim.

— Não, não é. — retruca Haim.

— Não foi isso o que ele quis dizer, Haim, mas sim, que nós não vamos aceitar uma anexação. Olhe o nosso tamanho! A polônia é gigantesca. Compare-a com o tamanho da Áustria. Hitler não ousaria entrar aqui e perder novamente, como na Primeira Guerra. — diz Jacob.

— E depois, ele não pode mais reivindicar nenhum território polonês. Nem mesmo *“Dantzig”. É o que diz o *“Tratado de Versalhes”. — responde Jacob.

— Não sejam tolos, Hitler acabou de rasgar o Tratado de Saint-Germain e, se quiser, vai rasgar o de Versalhes também. — rebate Haim.

— Não seja tolo você, Haim. Além da Polônia, ele vai ter de enfrentar Inglaterra, França e Rússia, que vão se sentir ameaçadas.

— Tomara que eu esteja enganado, mas acho que essa anexação é só o começo de todo o mal que está sobre as nossas cabeças. — profetiza Haim.

* O judeu vienense Ari Rath tinha 13 anos e ainda se lembra do dia 12 de março de 1938: “Meu irmão e eu fomos visitar nossa avó. Queríamos ver se estava tudo em ordem. As casas com as bandeiras com a suástica não foram uma surpresa. O que realmente nos surpreendeu foi que naquele mesmo sábado, 12 de março, a polícia de Viena já estava usava braçadeiras com a suástica. A coisa já devia estar preparada.” E, com certeza, estava.

Um mês antes, em 12 de fevereiro, Hitler e o chanceler austríaco haviam fechado um acordo: Arthur Seyss-Inquart, ministro austríaco do Interior e homem de confiança de Hitler, assumiria o controle da polícia. Além disso, Hitler conseguiu impedir a proibição na Áustria do partido nacional-socialista NSDAP. O caminho estava livre para a que se preparasse a “anexação” – de dentro para fora, já que há muito os nazistas austríacos tinham se infiltrado nos setores executivo e administrativo.

*ANSCHLUSS – É uma palavra do idioma alemão que significa conexão, anexação, afiliação ou adesão. É utilizada em História para referir-se à anexação político-militar da Áustria por parte da Alemanha em 1938.

*TRATADO DE SAINT-GERMAIN-EN-LAYE – Foi celebrado na França em 10 de setembro de 1919 pelos aliados, vitoriosos, de um lado, e, de outro, pela nova República da Áustria, após o término da Primeira Guerra Mundial. O acordo declarava dissolvida a Monarquia Austro-Húngara. A nova República da Áustria, que incluía a maior parte dos territórios de língua alemã do antigo Império Austríaco, reconheceu a independência da Hungria, da Tchecoslováquia, da Polônia e do Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos.