Quebra de Contrato: Não existe amor proibido. Proibido é não amar.

6 de janeiro de 2019
Kito Mello
por

Presidente da ASBI - ASSOCIAÇÃO SIONISTA BRASIL- ISRAEL. Professor, autor-roteirista, escritor, pesquisador e ghost writer.

Adria está apaixonado.

A menina é linda, contudo, há um pequeno detalhe que faz toda a diferença. Ela é muçulmana e ele judeu.

Pior ainda, ambos são filhos de pais religiosos. Conheceram-se casualmente, quando Adria estava passeando com Jacob nos bosques de Palermo. Ela levou um tombo perto dele, e ele a ajudou a levantar-se. Jacob não estava perto nessa hora, tinha ido comprar pipoca para eles, e os pais dela caminhavam mais à frente, sem perceberem o que tinha acontecido com a filha.

Talvez por influência de Jacob, Adria seja um pouco precoce e nada tímido com as meninas. Seu primeiro grande amor foi a personagem “Vampirella”, uma vampira com corpo exuberante da HQ de mesmo nome, que Jacob lhe dava escondido, junto com as HQs de “Calvin & Harold”. Depois, falta pouco tempo para ele completar treze anos, e como Jacob diz:“É chegada a hora de agir como um homem.”

— Você se machucou? — pergunta Adria.

— Não.

— Está sozinha?

— Não, meus pais vão ali, na frente. — ela aponta para eles.

Adria observa o véu que cobre sua cabeça.

— Esse véu em sua cabeça, você é muçul…

— Muçulmana? Sim, isso é algum problema pra você?

— Hã! Claro que não.

— Você não se parece nem um pouco com um muçulmano. — diz ela, sorrindo.

Apesar de vestir-se como um ortodoxo durante a semana, Adria consegue que Elias o libere para vestir-se com roupas comuns, quando passeia com Jacob nos finais de semana, mas não abre mão do uso das franjas do tzitzit. Só que ele as esconde nos bolsos da calça e só os retira quando chega em casa.

— Eu sou judeu.

Ela se assusta e afasta-se dele.

— Parece que você é que tem problemas com judeus. — ele diz.

Ela estaca.

— Eu não tenho nada contra judeus, mas meus pais não vão gostar de nos ver conversando. — diz, afastando-se ainda mais.

Adria aproxima-se dela.

— Você mora aqui em Palermo?

— Não.

— Você é muito bonita, sabia?

Ela sorri, mas fica constrangida.

— Obrigada.

— Olha! Eu nem sei por que tô fazendo isso, mas eu quero te ver novamente, posso?

— Nem pense nisso, meus pais não aprovariam esse encontro.

— Os meus também não, mas eles não precisam saber. — diz com um sorriso moleque no rosto.

Ela deseja sair dali, mas sente-se atraída por ele.

— Eu tenho curiosidade de conhecer a sua religião.

— Então somos dois. Eu também gostaria de conhecer a sua.

Os pais dela, sentindo sua ausência, param e a chamam. Jacob também se aproxima, segurando dois sacos de pipoca.

— Eu preciso ir agora. — ela diz, aflita.

— Você quer me encontrar aqui amanhã de tarde? — pergunta Adria, completamente impressionado.

— Não. À tarde eu já estou em casa e meus pais não me deixariam voltar para Palermo sozinha.

— Entendi. Você estuda aqui em Palermo, mas mora em outro lugar, certo?

— Isso mesmo.

— Onde você mora?

— Na Rua Saavedra.

Adria sorri.

— Eu moro na Rua Tucumán com Uriburu.

Ela sorri.

— Podemos nos encontrar na Plaza de Miserere, o que você acha?

— Me espera amanhã às 14 horas. — ela diz sorrindo, já saindo apressada.

— Espere! Como você se chama?

— Sulamita, e você?

— Adria.

— Te vejo amanhã, Adria. — ela diz, saindo em disparada.

Adria a observa correndo com o véu esvoaçando sobre os ombros. Ele está tão hipnotizado, que nem percebe quando Jacob toca em seu ombro.

— Para quem você está olhando? — pergunta Jacob, curioso.

— Hã! Nada não vô.

Jacob não liga e entrega o saco de pipoca para Adria.

— Tome.

— Obrigado, “Harold”.

— Vamos até o Jardim Japonês? — pergunta Jacob.

— Prefiro ir ao zoológico, vô! Gosto daqueles bichos.

— Ok, você manda e eu obedeço. — diz Jacob sorrindo.

Os dois caminham em direção ao zoológico. Adria completamente disperso e Jacob totalmente observador.