Quebra de Contrato: Faltei ao seu aniversário para salvar o mundo

4 de novembro de 2018
Kito Mello
por

Presidente da ASBI - ASSOCIAÇÃO SIONISTA BRASIL- ISRAEL. Professor, autor-roteirista, escritor, pesquisador e ghost writer.

Tudo caminha bem entre Jacob, Mirta e Adria, até que, quatro meses antes do aniversário de seis anos de Adria, Jacob é convocado para mais uma reunião e fica sabendo que, finalmente, depois de tanto pressionar, os diretores do MOSSAD irão tratar da sua aposentadoria.

A princípio ele se anima, afinal, há mais de trinta anos que ele presta serviços para a Instituição e para Israel.

— Analisamos o seu pedido e o achamos justo, Jacob.

— Quer dizer que vou poder desfrutar o resto dos meus dias com Adria e Mirta?

— Vai, e tem mais, se Mirta quiser se aposentar, nós trataremos disso também.

— Isso é muito bom, muito bom mesmo!

— A partir de hoje, você está oficialmente desligado. Nós não o pressionaremos a ficar, embora ainda precisemos muito de você.

Jacob desconfia. “Não vai ser de graça.” — ele pensa. Sabe que em seguida, virá um pedido. Um último pedido. Já conhece o esquema. É como se a roleta jogasse com a sorte pela última vez. Se der preto, ele ganha um monte de dinheiro, mas se der vermelho, seu corpo estará mergulhado em uma poça de sangue. Foi exatamente assim que aconteceu aos outros agentes mais velhos do que ele que ganharam a aposentadoria ou morreram em uma última missão. “Comigo não será diferente.” — pensa.

— Qual será minha última missão, senhor?

O diretor sorri.
— É por isso que você é o nosso melhor agente, Jacob.

— Será fora da Argentina?

— Sim. Os palestinos iniciaram um novo tipo de reação contra a presença israelense nos territórios ocupados. Eles a chamam de *“Intifada”.

— Quem é o líder ou mentor, que está por trás desta revolta, senhor?

— O terrorista internacional, Khalil al-Wazir, mais conhecido pelo codinome, Abu Jihad. Ele vem criando muitos problemas para a imagem internacional de Israel.

— As autoridades israelenses já planejaram capturá-lo, senhor?

— Sim, várias vezes, mas após um sequestro arquitetado por ele a um ônibus no sul de Israel, em que três civis morreram, o primeiro-ministro nos deu sinal verde para eliminá-lo.

— Quando partimos? — pergunta Jacob, já pensando na decepção que causará ao neto, faltando ao seu aniversário.

— Em dois dias, mas desta vez vocês irão apenas como apoio.

— Tem mais alguma coisa que eu precise saber senhor?

— Abu Jihad está por trás da preparação das equipes de assalto no Líbano e no Egito. Ele forma essas equipes com os jovens miseráveis de Gaza, do Cairo e de Beirute, depois os envia para atacar os assentamentos nos territórios ocupados.

— Ele espera alguma operação terrestre?

— Sim, mas nós vamos surpreendê-los.

— E com quem trabalharemos senhor?

— No momento oportuno vocês saberão.

— E a data da execução da Operação?

— Entre abril e julho.

Pela primeira vez, e após uma reunião, Jacob chega em casa, arrasado.

— Será a primeira vez que eu vou me ausentar no aniversário dele, Mirta. Vou decepcioná-lo tanto quanto decepcionei o Elias.

Mirta o abraça forte e reconhece, pela primeira vez, que algo o atingiu de verdade. Apesar de tudo o que ele passou na guerra, de tudo o que já enfrentou com o MOSSAD, nada foi capaz de derrubá-lo, nem mesmo a perda dos pais, dos filhos, da primeira esposa e de Haim, ao contrário, tudo serviu para lhe dar mais força para reagir e enfrentar seus inimigos e adversidades.

Seu amor por Adria revela-se verdadeiro, puro e intenso. Talvez, por viver em tempos de paz, ele acredite poder dedicar ao neto todo o amor que foi impedido de doar aos pequenos, Tzvi, Simah e Mendel.

Desolado, Mirta o consola surpresa com seu choro.

— Será que ele vai compreender Mirta? Será que Elias o afastará de mim, castigando-me por toda a minha ausência consentida?

— Não sei Jacob, mas eu prometo que vou ajudá-lo. Vou conversar com Elias. Não deixarei que façam com Adria, o mesmo que permiti que fizessem com o nosso filho.

— Você é uma boa esposa, Mirta. Um dia, quem sabe, poderei retribuir todo o carinho e atenção que você me dedicou todos esses anos.

— Amor, Jacob!

— O quê?

— Todos esses anos, eu lhe dei mais do que atenção e carinho. Dei-lhe amor.

Jacob fica desconcertado. Sabe que nunca foi recíproco nem no amor nem no carinho; que a abandonou todas as vezes que ela precisou de sua atenção, dos seus beijos e abraços; que pouco ligou para os seus problemas, agindo por puro egoísmo. Elias tornou-se um adversário, não por culpa de Mirta, mas pela fragilidade da relação que ele mesmo propiciou, entregando-a para o pai; um religioso ortodoxo, radical e intransigente, que sufoca a vida dos que estão à sua volta com crendices e supertições.

“Será que é tarde para me redimir?” — pensa.

Sua vontade de fazer justiça contra os que oprimiam seu povo, acaba por torná-lo o maior dos injustos com quem não merece isso. Mirta é uma mulher íntegra. Mais do que ele mesmo, que após o episódio com Haim, passou a agir usando todos os recursos legais e ilegais para atingir seus alvos.

Talvez, ela compreenda a sua necessidade em mostrar ao mundo que sobreviveu para se tornar o carrasco de seus inimigos. Mas ela é reservada. Nunca lhe disse nada sobre as missões arriscadas das quais participou, mas sempre temeu por sua vida. Sabe que o “modus operandi” dos terroristas é sempre imprevisível e implacável. No entanto, com os nazistas, apesar de todo o risco das operações, apenas um ou outro era caçado, ao contrário dos terroristas árabes, que lutam por uma causa perdida desde 1948, amargando uma derrota atrás da outra e que, por causa disso, criaram uma organização perigosíssima, com ramificações em todo o mundo, levando terror aos judeus e a todos que discordam deles ou se associam a Israel.

— Só posso te desejar sucesso, já que a proteção de…

— Eu vou voltar. — diz Jacob, impedindo que Mirta complete a frase.

— Volte definitivamente para mim, para Elias e para o nosso neto.

— Eu volto, prometo.

Eles se abraçam e se beijam.

No fim de março a Operação para eliminar o terrorista Abu Jihad está pronta. Antes de partir, Jacob escreve uma carta para Adria.

— Por favor, Mirta, só a entregue para ele, caso alguma coisa dê errado e eu não volte nunca mais. — pede, guardando a carta dentro da bolsa de veludo que foi resgatada em sua casa, em Łódź, assim que a guerra acabou.

— É uma linda maneira de você me dizer que pode morrer nesta missão.

— Me desculpe por isso, Mirta.
Ele guarda a bolsa no fundo do armário.

— Ah, Jacob! — ela suspira.

Ele a beija com carinho e a abraça forte.

— Eu vou voltar você vai ver. Nós vamos cuidar de Adria juntos.

— Não prometa o que você não pode cumprir, Jacob.

Ele abre a porta e parte, rumo ao aeroporto, em Ezeiza.

Ao fechar a porta, Mirta hesita algumas vezes até que decide pegar a carta na bolsa de veludo para ler. A campainha toca. Assustada, ela guarda tudo no fundo do armário. A campainha toca insistentemente.

— Já vou!

*INTIFADA – Termo que pode ser traduzido como ―revolta. É frequentemente empregado para designar uma insurreição contra um regime opressor ou um inimigo estrangeiro, mas tem sido especialmente utilizado para designar dois fortes movimentos da população civil de Israel contra a presença israelense nos territórios ocupados e em certas áreas teoricamente devolvidas à Autoridade Palestina.