Quebra de Contrato: EICHMANN CAPTURADO

1 de setembro de 2018
Kito Mello
por

Presidente da ASBI - ASSOCIAÇÃO SIONISTA BRASIL- ISRAEL. Professor, autor-roteirista, escritor, pesquisador e ghost writer.

Com exceção do domingo, Eichmann cumpre sua rotina metodicamente todos os dias. O ônibus que ele pega quando volta do trabalho, na fábrica da Mercedes-Benz, é sempre o 202, e sempre no mesmo horário. A Rua Garibaldi, onde ele desce do ônibus e caminha até sua casa é de terra batida, muito mal iluminada e pouco movimentada. Outro complicador é que a sua casa é apenas um bloco de concreto no meio do nada, já que a área é completamente descampada, o que expõe qualquer ação que seja praticada. Apesar do risco de serem vistos, eles decidem que é ali que vai ocorrer o sequestro.

Reunidos na casa alugada por Jacob, Rafi explica como os agentes devem proceder.

—Assim que o nosso homem descer do ônibus em direção a sua casa, Avraham o segue, como se tivesse descido junto com ele. No mesmo instante, Zvi caminha da casa dele até o ponto de ônibus. O encontro de vocês se dará na Rua Garibaldi. Nesse momento, Zvi pergunta às horas para Eichmann. Quando ele parar, Avraham o agarra por trás. Enquanto vocês o imobilizam e colocam um capuz sobre a sua cabeça, Jacob chega com o carro. Vocês, então o jogam no assoalho da parte traseira, e quem for atrás o mantém nessa posição até que voltem para cá. Tudo sem correria para não chamar a atenção. E mais um detalhe muito importante: Nada de armas!

— Mas sem armas ficaremos desprotegidos. — reclama Jacob.

— Essa operação não precisa de armas. Não queremos correr o risco de matá-lo e também, porque se forem parados pela polícia e eles encontrarem armas com vocês isso pode nos prejudicar. — justifica Rafi.

— Mas se formos parados pela polícia, como vamos explicar estarmos com Eichmann amarrado e encapuzado deitado sobre o assoalho do carro? — insiste Jacob.

— Responde essa pra ele, Zvi. — diz Rafi.

— Simples Jacob. Enquanto você foge da polícia, nós o desamarramos e retiramos o capuz, então o fazemos cheirar um pano embebido em éter até que desmaie. Então o sentamos ao nosso lado e colocamos uma garrafa de uísque em suas mãos. É quando você para o carro para os policiais fazerem o trabalho deles, e diz que ficou nervoso porque seus amigos estão bêbados. O resto pode deixar que a gente fala na hora.

— Mas não se preocupe. Outro carro lhe dará cobertura. O importante é todos sabermos que, se formos pegos e identificados como agentes de espionagem, Israel negará ter conhecimento disso e ficaremos presos por um bom tempo. — diz Rafi.

— E sem ter o direito de receber um carinho da *“yiddish momme”. — complementa Zvi.

Eles riem e descontraem um pouco, apesar de continuarem tensos. Durante quatro dias treinam exaustivamente a ação do sequestro. Sem exagero, pode-se afirmar que chegam a executar quatrocentas repetições.

— Tudo deve ser feito em vinte segundos. — diz Rafi.

Tão ensaiado quanto à ação do sequestro, é o percurso que Jacob faz de carro, desde o ponto onde ocorrerá a ação até a casa em que estão hospedados. Todos os dias, ele treina a fuga exaustivamente, reconhecendo todas as curvas e retas onde poderá acelerar e ser bem-sucedido, se precisar escapar de uma perseguição. Outra providência que eles tomam é a de falsificar placas para os dois carros que usarão no dia da Operação. São três placas sobrepostas uma sobre as outras que eles irão retirar no caminho até retornarem ao cativeiro. Para cada placa eles têm o documento correspondente. Tudo é metodicamente pensado para dar certo. O segundo carro utilizado na operação é para interferir caso Jacob esteja sendo perseguido.

Desde o fim da guerra, a Argentina ofereceu abrigo seguro aos oficiais nazistas de alta patente como Adolf Eichmann. Havia uma rede segura montada por Perón para levá-los até lá. Eles sabiam disso. O problema era como chegariam até Buenos Aires sem serem presos no meio do caminho.

No caso de Eichmann, como estava no dossiê montado por Jacob, assim que acabou a guerra, ele fugiu para Hamburgo, na Alemanha, e se escondeu na cidade de Eversen, onde trabalhou no campo até 1950, quando simpatizantes do nazismo de dentro da igreja católica começaram a organizar uma rota de fuga para oficiais nazistas partindo do porto de Genova, na Itália. Foi quando ele ganhou documentos falsos com o nome de Riccardo Klement. Curiosamente, esta rota ficou conhecida como “Caminho dos Ratos”. Os simpatizantes nazistas do Vaticano cuidaram para que ele também recebesse um visto de saída da Itália e um visto de entrada na Argentina. Ele foi de navio na terceira classe para não chamar a atenção.

Perón os aceitou, tanto por ser simpatizante do nazismo quanto para receber os conhecimentos tecnológicos que eles possuiam. Eichmann tentou de tudo para ser bem-sucedido, mas fracassou em todas as tentativas, até que foi aceito na fábrica da Mercedes-Benz, como mecânico.

No dia onze de maio de 1960, eles chegam meia hora antes do ônibus 202, e aguardam a chegada de Eichmann. Para não chamarem a atenção, Rafi fica ao lado de um dos carros que está com o capô levantado, como se estivesse quebrado, enquanto Jacob para o seu carro ao lado dele, dando a impressão de que o está ajudando. Zvi fica posicionado perto da casa de Eichmann e Avraham se esconde aguardando o momento de seguir o nazista. Os demais agentes ficam dentro dos carros. Como é noite e o local é escuro, ninguém os percebe.

Às 19 horas o ônibus chega, mas Eichmann não está nele.

— O filho da puta deve ter desconfiado e fugiu. — disse Rafi, transtornado.

Eichmann nunca havia feito isso durante os dois meses em que foi vigiado. Sempre fez tudo do mesmo jeito, mas justamente no dia em que eles decidem sequestrá- lo, a rotina muda, e eles ficam momentaneamente desorientados.

Zvi inicia a caminhada. Eles não têm como se comunicar para avisá-lo que ainda não é a hora de agir. No entanto, como toda a área é descampada, à medida que ele avança, percebe que não há nenhuma movimentação no sentido oposto, então decide voltar.

Rafi manda um dos agentes do segundo carro avisar a Zvi que eles irão esperar o próximo ônibus. Durante esse tempo que esperam, pessoas passam de bicicleta, outras caminham e perguntam se querem ajuda, o que os deixa ainda mais tensos.

— Vamos embora Rafi. Nossa presença aqui está ficando óbvia demais. — diz Avraham.

— Não. O avião chega amanhã e parte em seguida. Vamos realizar isso hoje. — ele responde.

Então, às 20h05 chega outro ônibus, e dele desce Adolf Eichmann com uma lanterna. Rapidamente, Avraham corre para trás do ônibus e reaparece caminhando como se dele tivesse descido. O ex-oficial nazista olha para trás, mas como o ônibus começa a se movimentar, acha que Avraham também desceu do mesmo ônibus, não ligando para o fato de ele fazer o mesmo caminho. Conforme avança em direção aos carros, Rafi liga os faróis cegando-o, ao mesmo tempo em que dá um sinal para Zvi, que inicia a caminhada em sentido contrário.

Mas uma nova surpresa acontece. O agente que fingia estar com o carro quebrado aborda Eichmann, que recua colocando a mão no bolso. Achando que ele pode estar armado, o agente pula em seu pescoço e Eichmann começa a gritar. Rafi acelera com o carro parado para abafar os gritos do alemão, que logo é dominado e arrastado para o interior do carro de Jacob. Percebendo o que está ocorrendo, Zvi corre pela estrada ao encontro dos carros.

— Cale essa boca imunda, seu nazista filho da puta. — grita Avraham com sotaque hebraico.

Eichmann surpreende-se com aquela ordem. Nunca um judeu ousara lhe falar daquela maneira.

Logo em seguida, chega Zvi esbaforido e é recolhido pelo carro onde estão Rafi, Jacob e Avraham. Eichmann grita mais uma vez desesperado, acreditando que vão matá-lo. Zvi, o único que sabe falar alemão, aperta o pescoço do nazista, tentando fazê- lo parar de gritar.

— Mund halten, Nazi-Bastard! (cale a boca, seu nazista filho da puta!).

Eichmann continua a se debater como um louco. — Zvi sentencia:

— Zusammenarbeit mit uns, oder wir werden dich töten! (coopere conosco, ou vamos matá-lo!).

Finalmente, Eichmann se acalma e diz: Tudo bem! Já me rendi ao meu destino.

Rafi mantém seus pés sobre o corpo do alemão e manda que Jacob vá para o cativeiro. Um quilômetro e meio depois, Jacob para o carro e troca a placa em menos de um minuto.

O cativeiro fica muito distante da Rua Garibaldi e ainda há o risco do carro quebrar, mas o estresse maior acontece ao serem parados em uma barreira militar. O soldado manda-os parar e Jacob obedece. Nenhuma palavra de ambos os lados. Então a placa do carro é iluminada e anotada.

Ninguém diz absolutamente nada dentro do carro para não despertar uma suspeita em Eichmann, e ele recomece a gritar ou se debater, o que acabaria com a Operação, a liberdade do nazista e a prisão de todos os agentes. Finalmente, o soldado os libera e eles conseguem chegar ao cativeiro, cinquenta minutos depois de Eichmann descer do ônibus.

*YIDDISH MOMME – É o estereótipo da mãe judia. Uma mulher excessivamente zelosa e corajosa, disposta a tudo para proteger e mimar seu filho.