Quebra de Contrato: Diga me com quem andas…

24 de fevereiro de 2019
Kito Mello
por

Presidente da ASBI - ASSOCIAÇÃO SIONISTA BRASIL- ISRAEL. Professor, autor-roteirista, escritor, pesquisador e ghost writer.

Em suas andanças com Sulamita e Ahmed, Adria passa a frequentar a Mesquita da Rua Alberti, afim de conhecer melhor a religião e a cultura dos novos amigos.

— O que é, de fato, ser um muçulmano, Ahmed? — pergunta Adria.

— É todo aquele que se submete a Deus, de livre e espontânea vontade, e vive em paz e harmonia com toda a criação.

— Mas é assim que vivem os judeus também. — retruca Adria.

— Em qualquer parte do mundo, nós obedecemos, dedicamos e adoramos somente o Deus único. — complementa Sulamita.

— Mas nós também fazemos isso, Sulamita.

— Nós acreditamos que a Torá foi revelada a vocês, assim como Jesus veio ensinar os não judeus a seguirem as leis de Deus, porém, a última revelação de Deus foi feita ao profeta Mohammed, pelo Anjo Gabriel, que nos deu o Alcorão Sagrado. — rebate Ahmed.

— Mas por que motivos então, vocês espalham o terror pelo mundo e o alvo principal somos nós, os judeus e os cristãos?

— Não é verdade, Adria, nós seguimos uma religião de paz, amor, misericórdia e perdão e a nossa base está na estrutura familiar. — responde Sulamita.

— Não é à toa que, sem levantarmos uma só espada, hoje somos mais de dois bilhões de seguidores.

Adria observa as explicações dos amigos, mas percebe-se o seu desconforto por temer fazer perguntas que os aborreça.

— Tudo bem, vocês estão me mostrando uma visão do Islã que eu desconhecia, mas no Alcorão existem passagens onde só se fala em ódio e morte aos infiéis. Isso não contradiz o que vocês estão afirmando?

Sulamita encara Ahmed com constrangimento.

— Desconheço essas passagens, Adria, se você puder mostrá-las aqui no meu Alcorão, prometo buscar uma resposta com os mais velhos, pois não saberia explicar isso a você.

Adria tira um pedaço de papel dobrado de dentro do seu bolso e lê para os amigos.

— A segunda surata do texto “Al Bacara”, versículo 191, revelada em Medina diz: “Matai-os onde quer que os encontreis e expulsai-os de onde vos expulsaram, porque a perseguição é mais grave do que o homicídio. Não os combatais nas cercanias da Mesquita Sagrada, a menos que vos ataquem. Mas, se ali vos combaterem, matai-os. Tal será o castigo dos incrédulos.”

— Isso certamente você também vai encontrar na Torá. — responde Ahmed.

— Sim, é verdade, mas isso não contraria tudo o que a Sulamita acabou de explicar sobre o perdão, a paz e a misericórdia?

— O profeta só pode estar se referindo aos inimigos do Islã.

— Sim, eu não duvido disso, mas da mesma maneira que o Anjo Gabriel revelou isso ao profeta, a Torá foi revelada pelo Deus único. Isso não sugere que o Anjo ou Deus estão errados, ou que nós não sabemos o que eles querem dizer?

— Isso na certa é só uma passagem solta no Alcorão, Adria, e talvez você tenha razão, nós podemos estar interpretando errado o que o Anjo quis dizer com essas palavras.

Para qualquer garoto o caso teria terminado ali, mas não para Adria.

— Receio que não seja só esta surata que trata deste ódio gratuito aos incrédulos.

Ahmed se mostra inquieto.

— O que mais você tem para nos mostrar, Adria? — pergunta Ahmed.

Adria olha o papel.

— Leia pra mim o que está na quarta surata, versículo 91 do “An Nissá”.

Ahmed lê até o ponto que interessa Adria: “… capturai-os e matai-os onde quer que os acheis porque sobre isto vos concedemos autoridade absoluta.”

Sulamita fica corada.

— Você está pegando textos soltos, Adria, não é assim que se compreende o Alcorão.

— Tudo bem, pode ser que estejamos fazendo do modo errado, mas para quem prega o amor e a paz, essas palavras não lembram outra coisa?

— A verdade é que todos os livros usam esses termos em defesa de um povo escolhido por Deus. Vocês têm a Torá que também manda matar inocentes, quer que eu te mostre? — desafia Sulamita.

— Não precisa. Eu conheço todas as passagens e não concordo com nenhuma delas.

— Por que você não frequenta a mesquita com a gente e tenta deixar o clima invadir seu coração, quem sabe você vai perceber que somos um povo pacífico?

— Tudo bem, só preciso dar um jeito lá em casa, para que não percebam e não criem problemas para mim e para o meu avô.

Nos dias que se seguem, Adria frequenta a sinagoga e a mesquita, assiste as aulas para o bar-mitzvá e evita ao máximo criar confusão em casa, mas Jacob não é bobo, sabe que o neto está indo longe demais ao pisar em território inimigo. Mesmo que Ahmed e Sulamita sejam bons, e, na maioria das vezes, os infantes são. O problema está nos adultos, nos fundamentalistas, e se Adria for descoberto, será um grande troféu para os radicais islâmicos. Jacob decide ter uma conversa para situar Adria sobre com quem ele está lidando.

Não se pode acusar todos os árabes de terroristas, isso seria leviano demais, mas infelizmente, a maioria deles tem um único pensamento: aniquilar Israel a qualquer custo, e agora os cristãos também.

Adria chega do colégio, já preparado para o esquema que vem fazendo há algumas semanas com o avô, mas Jacob pede que ele falte ao encontro para conversarem um assunto da mais alta gravidade. Adria frustra-se, mas obedece. O período é bastante favorável, eles já almoçaram e Judith e Elias estão trabalhando na AMIA.

Jacob começa contando uma breve história, um pouco enfadonha no início, haja vista a ansiedade de Adria em se encontrar com os amigos, mas logo o conteúdo da conversa torna-se interessante.

— Você sabe de onde provém a palavra assassino, Adria?

— Não. — responde assustado.

— Vem do nome de Hassan Sabah, um antigo guerrilheiro árabe que levou terror ao Oriente Médio no século XI.

— Mas esse nome nem de longe lembra a palavra assassino, vô.

— Eu sei, mas a etimologia da palavra “assassino” vem de “hashish”, uma palavra árabe que significa erva, e que era e é usada para designar o “cannabis… a maconha”.

Adria começa a se interessar um pouco mais pelo assunto.

— No tempo dos Cruzados, os fanáticos muçulmanos se formavam em quadrilhas, para assassinar os cristãos e outros inimigos da sua fé, mas antes de partirem para uma ação de guerra, eles costumavam fumar o “hashish”, e sob a influência da droga, cometiam os seus assassinatos.

— E onde você está querendo chegar com essa história, vovô?

— Um consumidor de “hashish” era um “hashishi”, no plural, “hashishin”. Era por esse nome que os membros dessas quadrilhas eram chamados.

Então os que fumavam “hashish” eram “assassinos”, é isso? Foi daí que essa palavra derivou para várias outras línguas?

— Isso mesmo.

— Mas, onde entra o tal Hassan Sabah?

— Hassan i-Sabbah (1034-1124), a quem Marco Pólo chamou o “Velho das Montanhas”, foi um missionário nizari de uma seita ismaelita iraniana, e que converteu uma aldeia inteira, chamada Alamut, nas montanhas Alborz, no norte do Irã. Foi ele o fundador de um desses grupos, cujos membros chamavam, de forma derrogatória, os “Hashshin”. Por isso, o nome de Hassan Sabah está ligado na história desses assassinos.

— Interessante vovô, mas ainda não sei aonde você quer chegar com isso.

— Se você me der um pouco mais de tempo, eu explico.

— Tudo bem, meu encontro já foi “pro saco” mesmo. Diz sorrindo.