Quebra de Contrato: Diga-me com quem andas…Parte II

5 de março de 2019
Kito Mello
por

Presidente da ASBI - ASSOCIAÇÃO SIONISTA BRASIL- ISRAEL. Professor, autor-roteirista, escritor, pesquisador e ghost writer.

Continuando….

— No Século XI da era cristã, na longínqua Samarkanda muçulmana, Nizam-El-Molk, Grão-Vizir e Cão dos Turcos Seljúcidas, cujo Império se estendia do Afeganistão ao Mediterrâneo, influenciado pelos apelos do poeta e sábio persa Omar Khayyam, poupou a vida ao traidor Hassan Sabbah, comutando-lhe a pena de morte por decapitação, em pena de banimento do Império.

— E isso não foi um ato bondoso?

— Foi, mas foi um erro também, O Cão Nizam-El-Molk, acabava de assinar a sua sentença de morte, bem como do próprio Império Seljúcida. Humilhado, Hassan Sabbah não agradeceu a clemência e jurou vingança. Banido, errou pelo Império cavalgando o descontentamento e arrebanhando para as suas hostes um exército disseminado, discreto e clandestino. Assim nasceram os “Batinis – a gente do segredo”.

— Hassan Sabbah escolheu os mais fanáticos de entre eles, foi isso?

— Exatamente. Hassan Sabbah fundou a “Seita dos Assassinos” e refugiou-se com um núcleo duro na fortaleza de Alamut, que tomou com astúcia no ano de 1090. Nesse reduto montanhoso, quase inacessível e inatacável da região de Teerã, hoje capital do Irã, Hassan Sabbah fez espalhar pelos seus e pelos outros, a sua mensagem de morte: “Não basta matar os nossos inimigos, não somos homicidas, mas executores. Devemos agir em público, para servir de exemplo. Matamos um homem, aterrorizamos outros cem mil. Todavia não basta executar e aterrorizar, é igualmente indispensável saber morrer, pois, se ao matar desencorajamos os nossos inimigos de empreender o que quer que seja contra nós, ao morrer do modo mais corajoso, ganhamos a admiração da turba. E desta turba sairão homens para se juntarem a nós. Assim sendo, morrer é mais importante do que matar.”

Adria fica pensativo. Lembra da última conversa com Ahmed e Sulamita e sobre o que estava escrito nas suratas que ele pediu que lessem no Alcorão.

— Ei, “Calvin”! Você está aqui? — pergunta Jacob.

— Hã! Tô sim, “Harold”.

— Posso continuar?

— Pode sim!

— Pugnando pela pureza da fé muçulmana e pregando a Guerra Santa contra o inimigo, Hassan Sabbah enviou mensageiros de morte, fanáticos e suicidas para os quatro cantos do Império. Chamou-lhes “Fedai”, ou seja: “Comando Suicida”. A partir de Alamut e em estreita obediência a Hassan, os assassinos enviados, matavam sempre em praça pública e sempre em ato público. Quanto maior a multidão a assistir, melhor. Uma vez morto o dignitário ou o governante em questão, sempre à punhaladas, o assassino nem sequer tentava fugir. Mais do que matar, as suas ordens e o seu destino era morrer. Obviamente morria logo a seguir, mas morria com um sorriso nos lábios e a certeza de ir se deleitar com as 72 virgens que lhe estavam prometidas. “Hassan Sabbah tinha construído a mais temível máquina de matar da história.”

— Mas tudo isso foi no passado vovô, hoje em dia, não é mais assim.

— Engano seu, Adria. Em 1092, Nizam-El-Molk foi assassinado por um Fedai. A partir da morte do Cão, Hassan Sabbah foi minando todo o Império Seljúcida, assistindo e contribuindo para o seu desmembramento. A Seita dos Assassinos, sempre bem organizada, e quando necessária clandestina, espalhou-se então pela Síria, Egito e Iraque. Com os seus assassínios cirúrgicos, eles conseguiram criar um clima geral de terror, que impedia qualquer crítica ou afrontamento.

— Acho que estou entendendo agora aonde você quer chegar, vovô.

— Durante o Século XII, a seita chegou a deter 10 fortalezas na Síria Central, promovendo assassínios, conforme as suas conveniências e alianças, quer de poderosos árabes, quer de poderosos ocidentais dentro dos reinos dos Cruzados. A morte para eles sempre foi democrática. Alamut e a Seita dos Assassinos sobreviveram aos Seljúcidas, aos Fatimidas, aos Cruzados e ao próprio Saladino. Saladino, aliás, moveu-lhes certa vez uma sanha sem quartel, determinado a exterminá-los. Contudo, desistiu da coisa após ter sido alvo da segunda tentativa de assassinato por Fedai, que por pouco não lhe limpavam o sebo. A partir daí deixou os Batinis em paz. Só com as invasões mongóis do final do Século XIII, foi que Alamut finalmente caiu e, com ela, as restantes fortalezas da Seita. Mas a seita ainda tem descendência atual, uma vez que o Aga Khan, líder espiritual dos Ismaelitas, “é o descendente em linha direta de Hassan Sabbah”.

— Você está preocupado porque eu estou me encontrando com uma garota árabe?

Jacob se espanta.

— Então Sulamita não é só uma coincidência, ela é mesmo filha de árabes?

— Sim, e eu também me encontro com o primo dela, o Ahmed.

Jacob coça a cabeça.

— Você tem que parar com isso já, Adria.

— Me dê um bom motivo, vovô, só essa história de Hasan Sabbah, chata pra caramba, não vai resolver muita coisa. Eles sabem que eu sou judeu e eu sei que eles são árabes e já conversamos sobre coisas bem complicadas e não brigamos.

— Preste atenção, Adria, as fortalezas se perderam, mas as palavras de Hassan Sabbah, não. Perduram na memória dos muçulmanos e muitos deles seguem-nas hoje como há 10 séculos, sem qualquer depuração do pensamento e sem qualquer verniz de civilidade. Hoje, como há 10 séculos, a Al-Qaeda proclama em alto e bom som:

“NÓS GOSTAMOS DA MORTE COMO ELES GOSTAM DA VIDA E POR ISSO VAMOS VENCÊ-LOS!”

— Olha vô, eu sei que você trabalhou na Mossad; que sabe muito mais coisa do que eu; que quer o meu bem, mas eu te garanto que não há risco nos nossos encontros.

— Você não está entendendo, Adria, a Al-Qaeda não são os únicos a proclamarem isso. Os suicidas palestinos sejam do Hamas ou do Fatah seguem religiosamente a mesma cartilha. E como Sabbah bem sabia, as suas palavras são portadoras de uma doutrina eficaz. Elas entram como nunca no coração do muçulmano médio e são para eles, a expressão da única solução que vê para o confronto com o Ocidente, colonizador, dominador e maléfico. Mais do que uma seita perseguida e repudiada, os novos assassinos merecem o apoio explícito, ou implícito de legiões incontáveis de muçulmanos.

— Vovô, isso tem mais de 10 séculos, como você mesmo disse.

— Engano seu, Adria, a Seita dos Assassinos está mais viva e atuante do que nunca, representadas pelo Hezbollah. Você sabe o que é o Hezbollah?

— Mais ou menos.

— Não, você não sabe. Hezbollah, que em árabe significa “Partido de Deus”, é uma força islâmica xiita com estrutura similar à do Exército e, ao mesmo tempo, um grupo político com sede no Líbano. Esta organização paramilitar se destaca cada vez mais na vida política do Líbano, ocupando-se de administrar os trabalhos sociais e instituições escolares e hospitalares xiitas, além de se responsabilizar também pelas atividades agrícolas do país. Ela é apoiada ativamente pelos iranianos, seja no campo doutrinário ou no financeiro. Externamente, ele é visto como um grupo terrorista, principalmente nos EUA, em Israel, no Canadá, nos Países Baixos e no Reino Unido. Enquanto isso, no mundo árabe e muçulmano, o Hezbollah é respeitado como uma força de defesa contra a interferência exterior. Pode-se afirmar que sua meta principal é construir um Estado Islâmico Libanês, além de extinguir Israel.

— Tudo isso por causa dos meus encontros com um garoto e uma menina árabes, vovô. — reclama Adria.

— Não Adria, tudo isso, porque você vai fazer seu bar-mitzvá e provavelmente seu pai vai te mandar para Israel e lá você terá que servir às Forças Armadas e se tornará um inimigo em potencial dessa gente.

Adria levanta-se da cama, vai até a escrivaninha e pega um pedaço de papel e o entrega para Jacob.

— O que é isso?

— É o endereço da mesquita que eu estou frequentando.

— O quê?

— Calma vô, eu só quero conhecer um pouco mais da religião deles.

— Você está pisando um solo arenoso, Adria. O Hezbollah sobreviveu ao fim da guerra de Israel contra o Líbano e continua a atuar no Oriente Médio, principalmente a partir do Vale do Bekah, no sul do país. Seu braço armado é conhecido como Jihad Islâmico, e eles são acusados de cometerem inúmeros atentados e assassinatos em Israel e naquela região. Seu poder é tão intenso, que é possível encontrar subdivisões dela na Europa, África e Américas do Norte e Sul. Ninguém me tira da cabeça que eles estão envolvidos com a explosão da Embaixada que matou a sua avó, minha Mirta. — diz emocionado.

— O que você quer que eu faça?

— Não sei, Adria.

— Eu sei, você quer simplesmente que eu pare de falar com meus amigos, e mostre para eles que eu preciso segregá-los porque eles já são meus inimigos, ou serão futuramente.

— “Calvin”, o que sei é que o ódio principal do Hezbollah tem se voltado cada vez mais para Israel, por causa do sionismo e tem se estruturado a partir, segundo eles, da falácia de um arrebatamento violento das terras dos muçulmanos. Este sentimento cresceu desde julho de 1993, quando os israelenses desencadearam contra esta organização a “Operação Ajuste de Contas”, que resultou em 86 mortos, 480 feridos, 360 mil libaneses transferidos do Sul do Líbano para Beirute e na condenação externa de Israel.

— Você quer que eu acredite que meus amigos são parte do Hezbollah?

— Não, mas em 1991, Abbas Musawi foi escolhido para liderar o grupo, mas foi morto logo em seguida, por um grupo de Israel.

— Você estava metido nisso, vovô?

— Não, mas este assassinato possivelmente deflagrou o atentado à Embaixada de Israel em Buenos Aires, pouco tempo depois.

— Então você estava metido nisso.

— Eu tive tudo para impedir que isso acontecesse, mas desconsiderei, relaxei como você está fazendo agora, ao encontrar-se com essa gente e a frequenter… uma mesquita. Diz arrasado.

— Eu te prometo uma coisa, “Harold”, se eu perceber algo suspeito te aviso; paro de frequentar e me afasto deles, mas você tem que me garantir que não irá contar nada para os meus pais.

Jacob olha profundamente e com ternura para Adria.

— Não sei se isso é o certo a ser feito, “Calvin”, mas eu aceito. Só que você vai ter que me mostrar tudo e contar tudo. Eu quero bilhetes, panfletos, quero saber o que se passa lá dentro e se você percebe alguma coisa diferente.

— Combinado.
 Diz o garoto, como se estivesse acabado de receber uma missão como agente do Mossad.

Os dois se abraçam apesar de Jacob ainda estar muito apreensivo.