Quebra de Contrato: As horas que antecedem ao ataque

10 de março de 2019
Kito Mello
por

Presidente da ASBI - ASSOCIAÇÃO SIONISTA BRASIL- ISRAEL. Professor, autor-roteirista, escritor, pesquisador e ghost writer.

Buenos Aires amanhece com uma chuva fina e persistente. Jacob levanta-se, cumpre seu ritual e joga fora, mais uma vez, o remédio para o tratamento da quimioterapia e, mais uma vez, erra o alvo.

Na rua há mais pedestres. O tráfego de carros agora é maior. Jacob, jornal à mão, ainda irritado com a declaração do presidente Menem, no prólogo do livro “Reconciliação e Violência”, de Delfor A. Brizuela e Alberto Castells, que ganhara de Juan no dia anterior, caminha apressado por entre os pedestres, em direção ao Bar do Manduca. Ele entra sem cumprimentar ninguém, nem mesmo Manduca. Pálido, vai até o banheiro e olha-se no espelho, então lava o rosto e, em seguida, as mãos, obedecendo o ritual judaico. Seca-se com algumas toalhas de papel, torna a olhar-se no espelho e recita o primeiro parágrafo do prólogo:

“Quando em 8 de julho de 1989 assumi a presidência da nação, apresentei ao povo da República uma proposta de paz, unidade e reconciliação. Ofereço esta mensagem para todos os argentinos de boa vontade e especialmente àqueles que, de uma forma ou de outra, assumirão o compromisso e a responsabilidade de ajudar a construir uma Justiça mais completa.”

— Canalha! — diz, jogando o livro na lata de lixo.

Ele deixa o banheiro e aproxima-se da mesa onde estão os funcionários da AMIA.

— Olha aí o Jacob, você não queria falar com ele? — pergunta Hugo apontando para Gabriel.

— Jacob, você sabe se o Elias vai ficar na AMIA hoje, depois do bar-mitzvá do seu neto? — pergunta Gabriel.

— Eu não sei da vida do Elias. — responde Jacob, secamente.

— Mas ele é teu filho. — rebate Gabriel.

— E daí, só por causa disso, eu tenho que saber da vida dele, ou o que ele faz e deixa de fazer?

Todos estranham o comportamento agressivo de Jacob.

— Você está passando bem, Jacob? — pergunta Abraham.

— Tá tudo bem, patriarca. — responde sorrindo.

— Melhora esse humor, Jacob, perdemos da Romênia, mas ainda podemos arrumar alguma coisa. — brinca Buby, referindo ao jogo da Copa do Mundo.

— Isso se o presidente de vocês não explodir este país até lá. — responde com amargura, caminhando em direção ao balcão.

— Manduca, me serve um café, por favor.

Manduca opera a máquina de café e o serve, depois abre o jornal sobre o balcão, onde fica uma enorme jarra de Hesperidina — um conhaque com raspas de laranja —, a primeira marca registrada na Argentina.

Neste exato momento, dois homens de aparência árabe, levantam-se de suas cadeiras. Jacob está posicionado no balcão, mas sem impedir a passagem. Então, um dos homens, ao passar por detrás dele, esbarra propositalmente e com certa dose de força em sua cadeira, fazendo-o derrubar o café sobre o jornal. Jacob olha para o homem, mas antes que fale alguma coisa, espanta-se com a atitude agressiva do sujeito que cospe no chão.

Apesar da idade avançada, Jacob parte para cima do homem, mas é contido por Manduca, que pressentindo o que irá acontecer em seguida, segura-o pelo braço, contendo-o. Os amigos de Jacob, levantam-se imediatamente em solidariedade a ele, e manifestam-se, xingando o agressor. O outro homem, percebendo que o clima ficou tenso, coloca o dinheiro do que devem pelo café sobre o balcão e puxa o companheiro pelo braço, ambos saindo apressadamente do bar.

Jacob é confortado pelos amigos, mas ainda incomodado com o desaforo que sofreu, caminha até a porta na tentativa de descobrir para qual dos lados os dois homens seguiram. Como não os encontra, acaba se distraindo com o tráfego que começa a ficar mais intenso. Quando desiste da busca, sua atenção é despertada pelo toque da buzina de um furgão Renault Traffic branco. Ao olhar para o veículo, depara-se com o homem que o ofendeu e que esta olhando para ele com os olhos arregalados, ao mesmo tempo em que faz um gesto ameaçador, passando o dedo indicador pela própria garganta, esboçando um sorriso que não esconde seu ódio.

Manduca aproxima-se por trás e coloca as mãos em seus ombros, mas Jacob desvencilha-se dele, abre a porta e sai em direção ao carro, na tentativa de anotar a placa, mas só consegue ver a lanterna traseira esquerda do veículo quebrada e que o final da placa é 94.

— “Será o mesmo furgão?” — pergunta-se confuso.

— Está tudo bem, amigo? — pergunta Manduca.

— Está. Eu só quero o meu guarda-chuva e voltar para casa.

— Espere um pouco, você está tenso. Vamos falar um pouco sobre a cerimônia do Adria. Você já decidiu se vai?

Jacob fita-o nos olhos.

— Manduca! Eu só preciso do meu guarda-chuva.

— Você não veio de guarda-chuva, Jacob.

Jacob deixa o bar. Manduca encosta-se à porta e pelo vidro vê o amigo distanciando-se. ― “Nem está chovendo, meu amigo.” — pensa.

Jacob ganha as ruas e olha para o mobiliário urbano que marca 7h29. O sol começa a aparecer. Muitos transeuntes andam pelas calçadas e o tráfego é intenso. Ele caminha distraído, no sentido da Banca do Pepe.

— O que houve, estou te esperando desde aquele dia para te devolver seu guarda-chuva.

— Obrigado, Pepe!

Ele acende um cigarro, ignorando por completo seu problema pulmonar e segue em frente, mas, logo em seguida, depara-se com um casal de amigos e, discreta e rapidamente, desfaz-se do cigarro.

— Mazal Tov! Jacob.

— Bom-dia, Aldo, como vai Dora.?

— Jacob, você deixou cair o seu cigarro… — diz Dora impertinente.

Aldo admoesta Dora, constrangido.

— Jacob, veja com o Elias se vocês querem carona para logo mais.

— Ligue você para ele, Aldo. — responde Jacob, rispidamente.

— É que eu não tenho mais idade para caminhadas longas, você sabe, apesar de achar lindo, todos vestidos, em marcha, em direção ao templo sagrado…

Jacob está distraído, ainda pensa no furgão branco e nos homens que estavam nele. “Eram eles, eu tenho certeza disso.” — pensa.

— Lembro-me até hoje das palavras do rabino que celebrou o meu bar-mitzvá… Jacob, você está me ouvindo? — pergunta Aldo.

— De certo que seu pensamento está em Adria… — diz Dora.

Jacob avista um grupo de judeus ortodoxos vindo em sua direção.

— Desculpem, mas eu tenho que voltar pra casa.

— Nos vemos mais tarde na AMIA, então!

— Até logo, Aldo.

— *Lehitraot! Jacob. — despede-se Dora.

Jacob deixa-os para trás e caminha apressadamente, tentando fugir do grupo de ortodoxos que vem em sua direção. Tenta atravessar a rua, mas o tráfego intenso não permite. O grupo está mais próximo. Sem saída, decide entrar na barbearia do amigo de mesmo nome “VICENZO”, e, por uma brecha na persiana afixada na porta de vidro, observa os homens passarem.

— Bom-dia, Jacob!

— Bom-dia, Vicenzo!

— Então, veio preparar-se para o grande dia? — pergunta Vicenzo.

Jacob não responde e acompanha a trajetória do grupo, que estaca à altura da vitrina da barbearia para cumprimentar Aldo e Dora.

— Fazemos só a barba, ou o bigode e o cabelo também?

Pela brecha na persiana, Aldo e Dora apontam em sua direção. Jacob solta a persiana.

— Merda! Mas aqui eles não entram… — murmura baixo.

— O que disse, Jacob?

— Faz só a barba, Vicenzo!

— Está bem, assim que você puder sentar-se, por favor!

Jacob senta-se à cadeira do barbeiro e verifica novamente as horas por um relógio de parede; 7h35. Vicenzo repousa uma tolha morna sobre o rosto de Jacob, que fecha os olhos e relaxa.

Todo o procedimento leva tempo suficiente para que Aldo, Dora e o grupo de judeus ortodoxos vão embora. Jacob levanta-se da cadeira, paga a conta e vai para casa. Ao chegar, estaca à porta, olha em direção à *“mezuzá”, afixada no batente direito da porta, faz menção de passar a mão, mas desiste e reconhece que o ato seria mecânico pelos anos que o repetiu. Então abre a porta da cozinha e entra. Judith, o cumprimenta.

— *Bôker tov Sr. Jacob.

— Bom-dia, Judith.

— Deixe que eu guarde para o senhor. Referindo-se ao guarda-chuva.

— Não se preocupe, eu ainda posso fazer isso.

— Como o senhor está se sentido?

— Como todos os dias.


Judith verifica o ovo dentro da panela de água fervente.

— O senhor tomou seus medicamentos?

— Religiosamente. — responde irônico.

— Posso preparar seu café?

— Não se incomode com isso, minha filha, eu já tomei o meu café na rua, como faço sempre.

Jacob serve-se de um copo com água.

— Eu passei aquela sua camisa branca. Está estendida sobre sua cama. — diz Judith afetuosamente.

— Mas eu não…

O telefone toca. Judith, ocupada com a panela, olha para Jacob,

— O senhor atende pra mim, por favor?

Ele hesita, mas atende ao terceiro toque.

— Alô! Sim, só um minuto, por favor, Rosa.

Jacob estende a mão com o telefone para Judith e sai reclamando.

— Depois que inventaram o telefone, as pessoas não se visitam mais. Tudo se resolve por este aparelho. Onde é que vamos parar?

Judith atende ao telefone.

—   Bôker tov, Rosa!

*LEHITRAOT! – O mesmo que até logo.

*MEZUZÁ – É o nome de um mandamento da Torá que ordena que seja afixado no umbral das portas um pequeno rolo de pergaminho que contém as duas passagens da Torá que ordenam este mandamento, ―Shemá‖ e ―Vehaiá‖ (Deuteronômio 6:4-9 e 11:13-21).

*BÔKER TOV – Bom-dia.