Quebra de Contrato: A dor da perda só será curada com dedicação à Adria

21 de dezembro de 2018
Kito Mello
por

Presidente da ASBI - ASSOCIAÇÃO SIONISTA BRASIL- ISRAEL. Professor, autor-roteirista, escritor, pesquisador e ghost writer.

Nos dias que se seguiram ao cumprimento da shivá, Jacob tornou-se depressivo, aumentando consideravelmente o consumo de cigarros, só conseguindo arrumar forças para sair de casa, se fosse para voltar ao local do atentado chorar por Mirta, arrependendo-se pelo tempo que não lhe dedicou. Para piorar, Elias cobrava sua presença para formar um minian e rezar o kadish por ela.

— Não me obrigue a fazer parte disso. — diz Jacob, ainda revoltado com a perda de Mirta.

— É pedir demais que você reze por minha mãe? — responde Elias.

— Eu rezo por ela, Elias. E é só por ela, que eu o deixo vir aqui, na minha casa, rezar com os seus amigos.

— Eu não venho só por ela, papai. Venho por sua causa também. Para pedir a Deus que nos console.

— Leia o Talmud Sotá 14. — provoca Jacob.

— O quê?

— O seu Deus por si mesmo o consolará.

— Ele é o seu Deus também, papai. Aliás, sempre foi e será.

Jacob encara Elias e seus amigos.

— Eu não posso enfiar na sua cabeça que esse Deus não existe, Elias, mas posso mandar você e os seus amigos sumirem daqui com ele. Não me obrigue a fazer isso, meu filho.

— Eu só estou pedindo que você se junte a nós e reze pela mamãe.

— Não! Seu minian já está formado, vocês não precisam de mim. Reze com os seus amigos quantos kadishim quiser, mas não me envolva com o seu Deus, ou você não vai gostar nem um pouco do que eu tenho a dizer sobre ele.

Jacob retira-se para o seu quarto, enquanto Elias e os amigos rezam por Mirta.

Passados alguns dias, após recuperar-se, o cônsul de Israel na Argentina, Danny Carmon, faz uma declaração dura ao referir-se ao Irã.

— O Irã é um país que nega o Holocausto e que tem um regime muito perigoso. Trata-se de uma ameaça para o mundo inteiro, que pede uma resposta global e imediata.

Aparentemente refeito, Jacob retorna ao local onde ficava a embaixada. O espaço agora está vazio. Por horas, ele caminha de um lado a outro, entre as ruas Suipacha e Arroyo até que encontra Juan Rivero, um homem que por pouco não morreu no dia do atentado. Eles conversam e Jacob ouve o seu relato:

“Eu estava de carro na Avenida Libertador, quando peguei a Rua Suipacha para me dirigir até a Rua Arroyo, onde faria um serviço e senti uma grande explosão que sacudiu meu carro e estilhaçou todos os vidros dos prédios que estavam em volta da embaixada de Israel que ficava bem na esquina. A rua ficou bloqueada com escombros, pessoas ensanguentadas correndo de um lado a outro, crianças desesperadas, carros estacionados completamente destruídos, e em poucos minutos chegou a polícia, os bombeiros, ambulâncias com suas sirenes ensurdecedoras. Curiosos aproximavam-se e aglomeravam-se para buscar o melhor ângulo daquele cenário de destruição.”

Jacob também releva sua dor, contando que todos os dias volta ali como se quisesse encontrar tudo refeito, e Mirta saindo pela porta tão viva quanto ele a deixou minutos antes de tudo acontecer.

— Como estava isso aqui antes da tragédia, Juan? — pergunta Jacob.

Ele já sabe a resposta, conhecia bem o lugar, trabalhava ali, conhecia todos e era respeitado pelas suas conquistas, mas precisa ouvir novamente, ou quantas vezes fossem necessárias, como se sua memória tivesse apagado.

— Era um prédio muito bonito de três andares que dava importância ao lugar…

Jacob está absorto, embora preste atenção no relato. Isso se repete dia após dia, semana após semana, sempre no mesmo horário, entre duas e três horas da tarde. Nada é combinado, mas Juan também visita o lugar. Seu pensamento não é de perda, mas de que podia ser mais um na contabilidade macabra.

Tornam-se amigos, uma amizade que se solidifica com o tempo, apesar de Juan ser um homem de poucos amigos. Jacob se oferece como voluntário para ajudar a remover os escombros, embora precise insistir muito para que o deixem participar. No fundo, as pessoas compreendem sua dor, sabem que ele ficará ali, mesmo que o proíbam, então o deixam trabalhar sem importuná-lo. Até que um dia, ele e Juan ficam a noite inteira até amanhecer, repetindo a mesma história, consumindo e acabando com vários maços de cigarros e indo embora com o corpo dolorido de tanto chorar e remoer a dor da perda.

Com o tempo, ele decide se apresentar para trabalhar no novo prédio da embaixada, na Avenida de Mayo. No entanto, apesar de saberem da sua imensa dor, os altos funcionários o olham com desconfiança. Afinal, Jacob era o responsável pela segurança antes do atentado. Não se sabe quando nem por quem, mas o certo é que, de alguma maneira, vazou a informação de que ele tinha recebido uma denúncia sobre o atentado, e que deu por encerrada as investigações, considerando que, passado um tempo, sem que nada tivesse alterado a rotina de seu trabalho, tudo poderia voltar ao normal.

Foi com muito tato que o embaixador o dispensou para que voltasse para casa e continuasse de licença por mais algum tempo, ou por todo o tempo, sem que ele soubesse dessa decisão. Enquanto isso, uma comissão continuava apurando os fatos. Contudo, seis meses após o atentado, Jacob foi aposentado compulsoriamente.

Isso o arrastou para um amargo ostracismo. Sua condição de saúde física e mental, já debilitada, contribuiu para aumentar, ainda mais seu quadro depressivo. Elias cuidava dele, levava-o para fazer exames de rotina, passeava com ele e Adria, mas eram raras às vezes que Jacob animava-se com alguma coisa. As saídas começaram a rarear e a clausura acabou sendo a sua opção de vida.

— Não posso mais deixar você morando sozinho, papai.

— Então mude-se para minha casa. Traga sua esposa e o meu neto pra cá. — diz Jacob, rispidamente.

Adria se animou.

— Você sabe que eu não vou fazer isso. — responde Elias.

— Sim, eu sei. Para você, morar comigo é tão difícil quanto é para mim, morar com você.

— Prometa-me então que vai se alimentar direito e parar de fumar, eu virei visita-lo todos os dias para lhe dar os remédios. Assim, nem eu nem você precisamos mudar a rotina. O que é que você acha?

— Gosto da ideia, filho. Venha me visitar sim, mas traga o Adria, ele é o meu melhor remédio. — diz, piscando o olho para o neto.

Contudo, quando uma pessoa decide destruir a si mesma, por carregar uma culpa da qual ela não consegue se perdoar, a mentira passa a ser o seu melhor argumento para afastar quem quer lhe proteger. Cada vez mais, Jacob aprofundava-se num processo autodestrutivo. Ele não parava de fumar, não se alimentava direito, e suas noites de sono eram acossadas por sonhos com Mirta, com os pais, o irmão e os filhos mortos nos campos de extermínio. Todos pedindo a sua ajuda.

Sempre sobressaltado, ele acordava sedento e com os batimentos do coração acelerados. Quando não se levantava às 4 horas, também não passava das 5 horas. Rotineiramente, ao acordar, vestia-se e caminhava até o maxikiosko de Pepe, onde entrava e lia as notícias dos periódicos, para depois seguir seu caminho e tomar o café da manhã no bar do amigo Manduca.

Se Elias, por algum motivo não pudesse visita-lo, ele boicotava-se e evitava tomar os remédios, o que só servia para agravar o seu quadro psicológico. Então, no início de 1993, num exame de rotina, o médico descobriu que ele estava com um câncer no pulmão. Elias foi implacável.

— Viu no que deu a sua irresponsabilidade, papai?

— Me deixe em paz, Elias!


— Não adianta se culpar pela morte da mamãe, você não podia fazer nada.

Jacob senta-se. Adria senta-se ao seu lado.

— Eu investiguei e cheguei muito perto de descobrir os autores desse atentado, mas fui indolente, desisti, não acreditei que fossem capazes de tamanha ousadia. — lamenta-se.

— Vem morar com a gente, vovô.

Jacob olha para Elias.

— Isso não vai dar certo, Adria. Seu pai vai me aporrinhar com aquela rigidez inútil e…

— Por mim, vovô! Ano que vem é o meu barmitzvá. Você pode me ensinar a Torá e…

— Não me peça isso, Adria. Eu não quero saber de Torá, nem de nada.

Adria não recebe bem essa resposta, mas insiste.

— Mas, talvez você possa me mostrar uma maneira menos rígida de segui-la. — insiste.

— Não peça ao seu avô o que eu não permitirei que aconteça, Adria. — interfere Elias.

Jacob o encara e olha para Adria em seguida.

— Você ouviu o seu pai. Ele não deixará isso acontecer e no final, nós três vamos acabar nos aborrecendo.

— Por favor, “Harold”!

Jacob suspira e sorri.

— Prometo que vou pensar “Calvin”.

— Sou eu que tô pedindo, vô! Deixa o papai vir te buscar hoje!

Jacob não responde. Adria coça a cabeça e coloca uma das mãos no bolso traseiro da calça. Um sorriso toma conta do seu rosto. Ele olha para Elias e para Jacob.

— Tenho uma ideia!

— Qual? — pergunta Jacob.

— Papai, me deixa conversar com o vovô a sós, por favor?

Elias, visivelmente contrariado, cede. Ao sair, Adria pega dois dados do bolso da calça.

— Vamos fazer uma aposta, vovô!

Jacob sorri.

— Sabia que seu pai não deixaria você fazer isso, não é?

Adria sorri.

— Você joga os dados. Se eu adivinhar os números você se muda lá pra casa. Se eu errar, não insisto mais. — desafia o menino.

Jacob fica pensativo. Sabe que existe uma possibilidade muito grande de perder a aposta. Adria estende a mão com os dados.

— Tá com medo, vô?

Jacob sorri. “talvez não seja tão ruim morar com ele.” — pensa.

Jacob pega os dados.

— Você vai me ver jogar os dados?

— Lógico que não.

Jacob ameaça jogar os dados, mas desiste.

— Eu proponho uma mudança no seu desafio.

— Qual? — pergunta Adria.

— Se você não adivinhar os números, depois do barmitzvá você vem morar comigo.

Adria sorri.

— Eu aceito.

Adria vira-se de costas. Jacob joga os dados sobre o piso de madeira envernizado. Um dá 6 e o outro 4.

— E agora? — pergunta Jacob.

Sem virar-se para Jacob, Adria o orienta.

— Pegue os dados e os esconda em seu bolso para que eu possa virar.

Jacob obedece.

— Muito bem, rapazinho. O que eu faço agora?

— Multiplique o maior número por dois e some um.

— Certo.

— Agora, multiplique esse total por cinco e some com o outro número.

— Que número?

— O número menor do outro dado.

— Ok.

Jacob demora um pouco.

— Pronto. Fiz isso.

— Qual foi o resultado? — pergunta Adria, sorrindo, com a certeza da vitória.

— Sessenta e nove.

Rapidamente, o garoto subtrai mentalmente, cinco algarismos deste total.

— 6 e 4.

— O quê? — pergunta Jacob, incrédulo.

— 6 e 4. Foram esses dois números que você tirou nos dados, não foram? — pergunta sorrindo.

— Isso é trapaça, moleque! — reclama Jacob.

— Não. Isso é mágica e você perdeu a aposta.

Jacob coça a cabeça, franze o cenho e torce a boca.

— Vamos negociar? Ele pede sorrindo.

— Não posso vovô, você ensinou-me a honrar a palavra dada. — diz Adria, rindo.

Jacob meneia a cabeça.

— Depois de derrotar os nazistas em Treblinka, sobreviver ao Holocausto e enfrentar os terroristas árabes, sou derrotado por um fedelho de doze anos?

Adria ri.

— Se você pensar assim vai ser pior para aceitar a derrota. — diz o garoto, cinicamente.

Estou acabado. Isso é a confirmação de que estou velho e sem nenhuma utilidade.

— Você ainda é muito bom, “Harold”. Se eu não fosse seu neto e não te conhecesse bem, talvez acabasse me convencendo a esquecer nossa aposta. Sua interpretação dramática foi brilhante. — diz em tom de deboche.

Jacob sorri.

— Mande seu pai me buscar, mas só daqui há uma semana. — diz abraçando Adria.

Apesar de saber que terá problemas com os rigores de Elias, ele cede e demonstra estar feliz.