Quebra de Contrato: 24 horas antes

14 de abril de 2019
Kito Mello
por

Presidente da ASBI - ASSOCIAÇÃO SIONISTA BRASIL- ISRAEL. Professor, autor-roteirista, escritor, pesquisador e ghost writer.

Jacob coloca o guarda-chuva no cesto e vai para a sala, onde retira e repousa o blazer sobre a cadeira. Em seguida, saca do bolso do blazer a pequena sacola com as HQ’s que comprou para Adria. Apesar de estar fazendo frio, ele também retira a suéter e caminha até o quarto de Adria.

Da cozinha ouve-se a conversa de Judith.

— Que boa notícia, Rosa! Estava preocupada por causa do horário da cerimônia do Adria.

Jacob abre a porta do quarto e observa o neto, enquanto analisa o ambiente, percorrendo-o com os olhos. Uma escrivaninha, prateleiras afixadas à parede com livros, quadrinhos, bonecos e aviões — uma paixão herdada dele mesmo.

Adria se mexe. Jacob olha em sua direção. Sobre a mesa de cabeceira, um exemplar da Torá. Adria suspira. Jacob olha para a parede ao lado da janela. Seus olhos se abaixam e ele mira o baú aberto, com o tigre de pelúcia gigante.

— Harold!

Também vê a coleção de quadrinhos de Calvin & Harold. Ele entra sorrateiramente. Adria, dissimulado, abre os olhos e vê o avô, mas finge estar dormindo. Jacob aproxima-se da mesa de cabeceira bem devagar e repousa a sacola com as duas HQs sobre a Torá. Faz menção de sair.

— Bôker Tov, “Harold”… — Surpreende Adria.

— Bom-dia, “Calvin”! Trouxe um presente para você. — Responde Jacob sorrindo.

Adria espreguiça-se, ainda sonolento. Jacob dá um beijo em sua testa e recebe um beijo no rosto.

— Estou te esperando no nosso escritório, não demore. — Diz Jacob.

— Já vou… mais cinco minutinhos… — Diz bocejando.

— Só não esquece uma coisa!

— O quê, vovô?

— Eu te amo. — Diz Jacob.

— Eu te amo muito mais. — Responde Adria.

— Eu te amo muito mais, ainda. — Rebate Jacob.

— Eu te amo, ainda muito mais. — Finaliza Adria.

Jacob sorri, deixa o quarto e vai em direção à varanda. Então senta-se à cadeira, junto ao cilindro de oxigênio e coloca a máscara sobre o rosto.

Judith, ainda está ao telefone. Jacob pode escutar sua conversa.

— A cerimônia está marcada para 10h30, depois eu passo no seu setor e levo um pedaço de bolo. Obrigada mais uma vez, Rosa. Lehitraot!

Em seu quarto, Adria levanta-se e retira as duas HQs de dentro da sacola. Seus olhos se arregalam com a HQ da Vampirella. A personagem lhe chama atenção pelas curvas bem desenhadas. Ele a folheia curioso, enquanto confere o movimento da luminosidade por debaixo da porta do quarto.

— Adria, levante e venha tomar seu café! — Grita Judith.

Adria assusta-se com o chamado e guarda apressadamente a HQ da Vampirella na gaveta da mesinha de cabeceira. Então segue para a sala, ainda de pijamas e kipá, com a HQ do Calvin & Harold à mão.

— Bôker Tov, mamãe! — Dá um beijo em Judith.

— Bôker tov Adria! Tome logo o seu café para não se atrasar, hoje tudo tem que dar certo para a sua cerimônia, que será amanhã.

— Ué! Não seria amanhã que tudo teria que dar certo?

Judith sorri com a perspicácia do filho.

— Hoje, amanhã e sempre. — Ela responde.

— Faz um ovo quente, mamãe?

— Faço… E não deixe que seu pai te veja lendo essas bobagens à mesa.

Adria senta-se e repousa a HQ do Calvin & Harold sobre a mesa. Judith volta para a cozinha e ele serve-se de café, passa manteiga no pão e ergue-o recitando uma benção: *Baruch Atá Hashen elohenu mélech haolam hamótsi léchen min haárets.(Bendito sejas Tu, Eterno nosso Deus, Rei do Universo, que fazes sair o pão da terra).

Judith ressurge com um ovo quente em um recipiente. Adria está concentrado na leitura da HQ.

— Adria! — Adverte-o Judith.

— Desculpe mamãe… Onde está o papai?

Foi até à AMIA conversar com um empresário disposto a apoia-lo na Feira Internacional do Livro, deste ano.

— E o vovô?

Judith aponta em direção à varanda. Adria vê pelo vidro fosco a silhueta de Jacob sentado, com a máscara de oxigênio. Então ameaça levantar-se com xícara à mão.

Da cozinha, Judith censura-o.

— Adria!

— Você tem visão de raio-x, mamãe?

Adria termina o café, com pressa, observando o avô. De repente, Elias entra pela porta social e Adria imediatamente esconde a HQ debaixo de si.

— Bôker Tov Adria!

— Bôker tov, papai!

— Falta menos de vinte e quatro horas para o seu barmitzvá. Como está esse coração?

— Muito acelerado, pai…

Adria termina o café. Com a HQ escondida debaixo do sovaco e sob o pijama, vai até a varanda e aninha-se à cadeira onde está o avô.

— Bôker Tov vovô!

— De novo? Para me dar bom-dia novamente, é porque quer me perguntar alguma coisa.

Adria mostra uma história da revista em quadrinhos para Jacob.

— Olha pra isso, Harold, o avô do Calvin é que nem você…

— No meu tempo as HQs eram bem maiores, podia-se ler uma boa história com temas importantes e engraçados, agora elas não são mais como antigamente, são muito reduzidas e às vezes, até sem graça.

— Você leva a vida muito a sério, não é vô?

— Levo.

— Isso é legal ou chato?

— Na maioria das vezes é chato.

— Então deve ser por isso que o papai quer te internar num asilo, não é? — Diz rindo.

— Ok. Entendi a piadinha, moleque. Agora eu quero saber o que você achou da Vampirella.

— Hã?

— Não se faça de tonto. Tô falando daquela gostosona com aqueles dentes enormes, prontos para morder o teu pescoço, que eu deixei no seu quarto. Vai dizer que você não reparou?

Jacob sorri e Adria desconversa ruborizado.

— Vamos mudar de assunto, vovô!

Jacob respeita a reação tímida de Adria.

— O que você sugere então? — Pergunta Jacob.

— Deixa eu ver: Ah, já sei! Deixa eu respirar um pouco desse ar, antes que você acabe com ele por causa desse seu narigão. — diz colocando em seu próprio rosto a máscara que Jacob está usando.

Jacob permite a brincadeira. Aliás, ambos sabem brincar um com o outro sem se excederem nos limites.

— É, mas você também vai crescer… — diz Jacob.

— E o que tem isso?

— Bem, sabe como é né? O seu nariz… Ele vai crescer junto. — Diz sorrindo

Adria põe a mão no nariz do avô, marca a medida e compara-o com o seu próprio nariz.

— Eu teria que viver muito para ter um nariz do tamanho do seu, vovô.

— Quanto?

— Deixa eu ver… Uns três mil setecentos e oitenta e nove anos!

Ambos riem.

— Agora sou eu. — Reclama Jacob, pegando a máscara novamente.

Adria aproxima a máscara de Jacob e a coloca, inesperadamente, sobre a sua cabeça.

— Eu nunca te vi de kipá, vovô.

— Nem vai ver. Agora me dá isso aqui, moleque!

Adria levanta-se e diz imperativo:

— Faz de conta que essa varanda é uma sinagoga. A *bimá é essa cadeira. Você é o rabino e acabou de me chamar pra fazer*aliá…

— Eu não quero ser o rabino, Adria.

— Tá bom, o rabino é… Deixa eu ver… O cilindro! Você vai me passar a Torá, que é essa máscara de oxigênio.

Jacob encara Adria, com seriedade.

— Adria, eu não quero participar dessa brincadeira. É melhor você pedir ao seu pai.

— Pééééééiiiinnn! — Resposta errada, vovô: Isso não é uma brincadeira! Estou passando a lição do meu barmitzvá.

Enquanto brincam e conversam, Elias vai até a cozinha conversar com Judith que está lavando a louça do café.

— A Rosa conseguiu trocar a escala comigo. — Diz Judith.

— Que ótimo, querida!

— Eu estou tão apreensiva… No meu turno, o número de ligações costuma ser bem maior, e você sabe, ela já não tem mais o mesmo ritmo.

— Como está o humor dele? — Pergunta Elias, mudando de assunto.

— Ah, ele tá ótimo. Só um pouco ansioso, engoliu o café em poucos minutos.

— Estou falando do papai.

— Você sabe, Elias, seu pai continua com aquele jeito fechado, com cara de poucos amigos.

— Eu não posso acreditar que ele vai manter um comportamento egoísta no dia mais importante da única pessoa que ele dá atenção nesta casa.

— Não seja rude com ele, querido. Você sabe que ele não está bem, desde que veio para cá.

Elias checa o relógio de parede: 7h53.

De tanto insistir, Jacob topa a brincadeira com Adria e passa a fazer perguntas para ele.

— Por quanto tempo tem o homem a obrigação de estudar a Torá, Adria?

— Até o dia de sua morte.

— E por quê?

— Porque assim que o homem deixa de estudar, ele esquece.

— Mas considerando todas as dificuldades e limitações naturais, qual seria a medida justa para o estudo da Torá?

— Não existe tal coisa, vovô!

— E por que não?

Adria põe-se pensativo e demora a responder. Jacob lembra-se do tempo em que fez seu barmitzvá e responde com irritação desmedida:

— Espera-se do erudito da Torá, não um mínimo de esforço, Adria, mas o máximo de esforço possível, pois está escrito:“Meditarás sobre a Torá dia e noite!”

Adria assusta-se com a reação de Jacob.

— Como é que você espera fazer aliá à Torá, se você não conhece o conceito mais elementar da nossa religião?

— Sabe o que é estranho, vovô?

— Não.

— Como você pode saber tanto sobre a nossa religião, se faz tudo ao contrário do que está escrito?

Jacob se cala, levanta-se, apoia-se sobre a sacada da varanda e observa os pedestres. Em seu campo de visão surge um furgão branco. “Será o mesmo que estava na porta do Bar do Manduca?” — Pensa.

Ele acompanha o trajeto até perdê-lo de vista, ao dobrar a esquina da Rua Pasteur. Então se volta para Adria e diz:

— Me desculpe, “Calvin”, eu me enganei. Não é a nossa religião. É a sua religião e eu respeito isso.

*BIMÁ – É uma plataforma elevada, com um balcão de leitura a partir do qual, a Torá e a Haftará (leitura dos profetas) são lidas no sábado e festivais, nas sinagogas.

*ALIÁ – (Ascensão ou elevação espiritual) é o termo que designa a imigração judaica para Israel, mas também se refere à honra concedida a alguém de ser chamado para ler determinada passagem da Torá.