Por que o Conservadorismo brasileiro não pode retroceder?

8 de dezembro de 2017
Rafael Nogueira
por

Rafael Nogueira é professor de Filosofia e História.

O conservadorismo nascente no Brasil ainda é muito frágil. Não se pode cantar vitória antes do tempo, como muitos fazem pensando que é suficiente ver no seu perfil do Facebook só gente “de direita”. Além do Facebook selecionar para você o que provavelmente mais o agradará, uma considerável maioria conservadora nessa rede social, ainda assim, seria bem pouco.

Para robustecer a consciência conservadora no Brasil, sem saltos nem tropeços, é preciso entender a mensagem do professor Olavo quando ele diz: “Não parar, não precipitar, não retroceder”. Parecem palavras-de-ordem simplórias, só para nos encorajar, mas não são.

A primeira parte da lição é “não parar”. Não estamos num momento em que os conservadores estão perdendo o fôlego na luta, nem desencorajados, nem tampouco incrédulos. Mas tenhamos isso em mente. Alguns eventos futuros, que só não chamo de imprevisíveis porque são facilmente previsíveis, podem sim paralisar muitos.

Dou ao leitor alguns exemplos:

Uma nova estratégia da esquerda, mais eficiente e surpreendente. Vitória socialistas nas eleições para o Parlamento e para a Presidência da República. O fortalecimento das pautas esquerdistas nas universidades públicas (já são hegemônicas, mas podem piorar). A infiltração da esquerda nos meios majoritariamente conservadores, como a internet e as igrejas — por isso, não parem as atividades por aqui, e não deixem a religião ser tomada por malucos. Etc.

Não é para parar, nem deixar que tomem os espaços duramente conquistados por décadas de trabalho e sacrifício dos pioneiros.

A segunda parte, “não precipitar”, é urgente.

Confiar que os males intelectuais, morais, sociais e políticos causados pela esquerda, estão contidos, e que uma eleição acabará com sua sanha de tudo estragar e perverter, ou ainda fechar os olhos para os seus movimentos, sem estudá-los a sério, sem mapeá-los, sem compreendê-los, e sem separar o joio do trigo (porque até esquerdista pode ter razão uma ou outra vez) é pedir para dar com os burros n’água.

Achar que estudar é chato e viver apenas de berrar nos ouvidos alheios seus “valores”, muitas vezes, pouco refletidos, é no mínimo estupidez.

Tem que estudar aquilo que você acredita, para que isso seja mais que uma crença pouco inteligente e sem raízes, é preciso fazer autocrítica, é preciso compreender a mentalidade esquerdista (que é muito complexa), e isso leva tempo.

Então, calma! Temos que ler, observar, coletar informações e nos reunir para conversar e debater. Entre nós, mesmo.

Cada um na sua vocação: tem que ter o que coleta bem informações, tem que ter os oradores públicos (intelectuais ou populares), tem que ter os escritores de ficção, os ensaístas, os colunistas, os cineastas, os produtores digitais, os professores (de escola e universitários), os jornalistas, os empresários etc. E um tem que ler/ouvir o outro.

Passo a passo, as coisas irão melhorar. Sem desespero.

Aflige você o fato das universidades públicas estarem tomadas? Calma.

Alguém extrovertido e de palavra fácil quebrará o discurso único. Alguém introvertido e discreto ingressará como aluno, prosperará como pós-graduando e tomará cátedras. Alguém, desde cima, ligado à política acadêmica, corrigirá as incompreensões legais que chamam de democracia a tirania e o totalitarismo de tolerância.

Mas isso só se não pararmos nem precipitarmos. Se todo mundo quiser ser o rei conservador em sala de aula, mesmo não estudando nada nem tendo vocação para isso, eles acumularão vitórias.

Mas os diplomados sairão de lá semestre a semestre, ano a ano, e tomarão todos os postos nas escolas, nas empresas, nas próprias universidades… E agora?

Só podemos fazer o que dá para fazer (não, não é frase do Leandro Karnal).

Você é empresário? Chefe de Departamento Pessoal? Diretor/coordenador de escola? Reitor de universidade? Coordenador de curso universitário?

Não contrate com base no diploma, oras. Prefere que seu funcionário/professor faça o COF do professor Olavo? E/ou os cursos de seus alunos? Candidatos que não sejam vinculados a partidos ou movimentos de esquerda, etc.? Pois dê conta de garantir isso!

Eu não estou falando de discriminação por cor, raça, sexo nem opção sexual! Isso não é relevante nem lícito! Estou falando o seguinte: se você entende que a universidade não capacita, selecione segundo critérios que lhe pareçam mais relacionados com as competências que espera que os seus funcionários tenham.

Se você não é empresário, mas tem filhos e se preocupa muito com a formação deles, as opções são múltiplas.

Você pode aderir ao “homeschooling” (educação domiciliar). Educar em casa não é proibido. Basta dispor de tempo, ter cultura e didática, e cumprir direitinho com as exigências legais. Ok, não é nada fácil, mas capacite-se ou peça ajuda dos mais adiantados e aos mais experientes.

Ou você pode diminuir as cobranças escolares formais que pesam sobre o seu filho, até para ele não tomar um ou outro professor de escola por Buda, e fornecer-lhe uma educação complementar, dada por você nas horas vagas, por amigos de confiança, por tutores contratados, por professores particulares, com ajuda de cursos à distância etc.

Quando morei nos EUA, a colombiana que limpava o “hostel” onde me hospedei deixava o seu filho estudando diante de um computador, com fones grandes, boa parte do tempo. Ela tinha contratado um pacote de aulas. O danado assistia a uma aula, e depois ia correr e brincar, depois via outra, e ia jogar. E como ele tinha autorização para usar o piano da casa, o rapazinho praticava lições de piano constantemente.

Eu sei que não estamos nos Estados Unidos, mas sejamos mais criativos e menos reclamões e ineficientes.

Tem muita gente estudando com o professor Olavo e com os seus alunos: esses estudiosos mais dedicados adorariam ajudar famílias que querem educar melhor os seus filhos, tenho certeza.

Não falo em causa própria para abrir um novo mercado para mim (não vejo problema nenhum em promover o meu trabalho, mas não é o caso). Estou muito ocupado para fazer isso em Santos (onde moro), mas tenho um amigo, o Marcelo Gonzaga, que trabalha quase somente com isso, e com traduções e revisões, já faz algum tempo. E eu sei que tem gente em São Paulo, em Curitiba, em Fortaleza e em muitas outras cidades com capacidade para auxiliar a formação dos pequenos e dos jovens.

E quanto ao “não retroceder”?

Eu entendo assim: o que não cresce, definha e morre. Então, não se pode parar de crescer. Mas dessa forma inteligente que defendi acima.

Retrocesso é também consequência de uma paralisação continuada, ou de uma precipitação idiota. Se você para, o inimigo avança. Se você precipita, o inimigo também avança. Se o inimigo avança, você retrocede.

Somos fortes na internet, mas ainda não o bastante. Se um dos nossos representantes mais constantes, como o Flávio Morgenstern, o Filipe G. Martins, o Bruno Garschagen, o Alexandre Borges, resolve fazer outra coisa da vida, o retrocesso será enorme.

Tenhamos na memória a lição do mestre e não paremos, não precipitemos, nem retrocedamos, mesmo que a vitória só possa ser cantada pelas gerações futuras.

Leia mais de Rafael Nogueira.