Por que devemos lembrar de 32?

14 de julho de 2018
Rafael Nogueira
por

Rafael Nogueira é professor de Filosofia e História.

Fora do Estado de São Paulo é raro encontrar quem conheça a história da Revolução Constitucionalista de 1932. Mesmo professores de história não fazem jus à realidade com suas narrativas simplistas e debochadas. Até em São Paulo, vez ou outra, articulistas inimigos dos heróis, insensíveis àqueles que se sacrificam por nobres ideais, debocham do feriado estadual de 9 de julho, data que marca o início do movimento que deu origem ao levante. Curioso é que, geralmente, esses cínicos descrentes da grandeza humana vivem no cinema a idolatrar super-heróis da Marvel ou da DC.

É indesculpável o desconhecimento por parte de estudiosos paulistas: há museus, desfiles, hinos, poemas e eventos geralmente promovidos pela Polícia Militar de São Paulo, dos quais já participei como palestrante algumas vezes. Combatentes vivos, infelizmente, não há mais, mas quase todos têm histórias de família ligadas à revolução paulista. Meu tio-avô, Luís Gonzaga Nogueira, esteve na guerra.

Os antecedentes do evento relacionam-se com um processo revolucionário anterior, causado pela resistência de alguns setores do Exército contra o modelo republicano da época, considerado oligárquico e autoritário, e por uma celeuma interna entre as principais oligarquias: a de São Paulo e a de Minas Gerais e seus aliados.

O movimento tenentista vinha se manifestando em toda década de 20, e depois de azedar o Café com Leite (política de acordos entre elites paulistas e mineiras), os políticos de Minas Gerais se uniram a outros da Paraíba e do Rio Grande do Sul, e aos tenentes, para impedir que mais um presidente paulista se elegesse.

Até aí, metade de São Paulo estava de acordo. O PRP, Partido Republicano Paulista, já estava desgastado, os cafeicultores viviam um momento de decadência e a má fama de fraudadores lhes tirava a popularidade até local, muito embora fraudes fossem a regra em qualquer campanha política da época, de qualquer estado. Uma nova facção, anti-oligárquica, surgira em São Paulo, o chamado Partido Democrático, que se uniu ao grupo liderado por Minas para derrubar a má política vigente. Era a Revolução de 30.

Getúlio Vargas é empossado Presidente da República pela Revolução, e por mais de um ano ignorou as expectativas democráticas de muitos tenentes e do PD paulista. As oligarquias pareciam ter brigado entre si à revelia do povo.

Ex-oligarcas, militares, estudantes e democratas paulistas se unem e começam manifestações pedindo a Vargas que cumpra seus compromissos revolucionários, a saber, abrir uma constituinte e promover a democracia.

Nada mais fora de moda para a época: democracia liberal era coisa do passado. Os EUA estavam quebrados por causa do crack da bolsa de Nova Iorque, e na Europa ascendiam ditadores: Hitler, Mussolini, Franco, Salazar, Stálin… Estudantes paulistas se uniam para evitar que Getúlio fizesse o mesmo no Brasil, se necessário, trocando a caneta pelo fuzil. Morrem cinco jovens numa manifestação, e o povo inteiro compra a briga. Surgia o MMDC (iniciais dos quatro jovens que morreram instantaneamente, na ocasião. O quinto ficou de fora porque faleceu dias depois).

Deflagrado o processo em 9 de julho, começa o drama paulista. Getúlio demite líderes aliados — chefes militares gaúchos e mineiros –, fecha jornais e rádios Brasil afora, espalha uma versão dos fatos que dizia serem os paulistas egoístas e separatistas, e consegue reunir 200 mil combatentes regulares contra 25 mil, entre poucos militares e muitos civis voluntários, unidos por São Paulo. Nem preciso dizer como tudo terminou.

Foi a maior união cívica jamais vista na história brasileira. Mulheres transformavam panelas em capacetes e derretiam alianças de casamento para levantar fundos para a guerra. A frase mais emblemática do civil em luta foi a do camponês Paulo Virgínio, ao ser torturado a cavar sua própria cova por ter se negado a dar informações confidenciais sobre posições de tropas paulistas: “Morro, mas São Paulo vence!”.

Pouco me importa que digam que patriotismo está fora de moda, ainda mais na sua espécie mais regional. O espírito de 32 ainda é capaz de nos arrebatar se não virmos só letra morta e monumento frio, mas sim poderosos sentimentos capazes de levar homens a darem suas vidas pela justiça, pela boa lei, pelo povo, pela posteridade.