QUEBRA DE CONTRATO: PARA SUPORTAR A VIDA, DEVES TE APRONTAR PARA ACEITAR A MORTE

17 de dezembro de 2018
Kito Mello
por

Presidente da ASBI - ASSOCIAÇÃO SIONISTA BRASIL- ISRAEL. Professor, autor-roteirista, escritor, pesquisador e ghost writer.

Meses depois, a rotina permanece a mesma em Buenos Aires, e, por isso mesmo, as medidas de segurança são relaxadas. Adria frequenta normalmente a escola; Judith continua responsável por attender; transferir; cadastrar e completar as chamadas telefônicas locais e nacionais; Elias continua trabalhando no departamento cultural da AMIA, criando e implantando projetos que atendem às aspirações dos jovens e adultos da comunidade. Mirta e Jacob estão mais próximos. Ele, dedicando-se a ela com esmero, dando-lhe toda atenção e carinho que merece, e ela, retribuindo tudo com o mesmo afeto de sempre.

Depois que Jacob decidiu abandonar as investigações sobre a ameaça contida na carta que fora encontrada em Milão, sobrou-lhe mais tempo para recuperar sua imagem junto à esposa. Agora, ele assessora os novos agentes que são recrutados pelo MOSSAD. Sua jornada de trabalho é mais flexível, enquanto o de Mirta exige que ela fique até o final do expediente.

Na manhã do dia 17 de março de 1992, Jacob recebe um telefonema de Israel, cobrando-lhe uma posição sobre a denúncia de atentado.

— Bom, tomamos todas as medidas necessárias. Eu continuei com as investigações, mas creio que podemos afrouxar um pouco a segurança. Não vejo motivos para continuarmos mantendo a comunidade preocupada.

— Você é quem sabe. Qualquer coisa avise-nos.

— Pode deixar. Ele tranquiliza.

Na hora do almoço, Jacob convida Mirta para comerem no restaurante do Hotel Alvear Palace.

— Só se você prometer que vamos voltar antes das duas. — ela diz.

— Eu prometo!

O Hotel não é longe da Embaixada, fica ali mesmo, na Recoleta, um bairro com amplos parques, largas avenidas e uma luxuosa arquitetura de estilo clássico, onde estão os melhores restaurantes, bares, antiquários, butiques, os principais museus e os centros culturais. Concebido em 1932, originariamente como um hotel de luxo para hospedar a crescente quantidade de visitantes europeus que chegavam até Buenos Aires, naqueles idos, o Alvear Palace tornou-se o modelo do requinte na sua mais alta expressão. Seu protagonismo na vida social, cultural, política e de negócios da Argentina tem sido sempre muito preponderante. Jacob sabe que ele é um dos lugares preferidos de Mirta. O melhor lugar para abrir o coração e reveler à Mirta suas limitações e o medo de perdê-la e ao neto.

— Nunca é tarde, Jacob. Dê mais às pessoas, mais do que elas esperam. E faça isso com alegria.

— Como posso fazer isso, se não confio em ninguém?

— Não acredite em tudo que você ouve, meu amor. Sei que as suas experiências do passado não ajudam esse argumento, mas as pessoas não são iguais, a época não é a mesma e você precisa se tornar outra pessoa.

— Como, Mirta? Como posso relaxar e abaixar minha guarda se me assombra saber que o país que eu escolhi para viver abriga os assassinos do meu povo e a maioria das pessoas compartilha das mesmas ideias antissemitas?

— Eu compreendo você, mais do que você possa imaginar Jacob. É por isso mesmo que sei o quanto você sofre; o quanto sua vida tornou-se um fardo para você mesmo.

Jacob a olha compenetrado.

— Liberte-se meu amor! Gaste tudo o que você tem, se isto vai te fazer uma pessoa melhor! Durma tanto quanto você queira meu querido! Mude a sua rotina, reinvente-se para o seu próprio bem. Tanto eu quanto Adria queremos você por inteiro.

— Eu amo muito vocês e o Elias também. — diz sem a olhar nos olhos.

— Quando você disser: Eu te amo! Olhe as pessoas nos olhos, Jacob. Deixe que elas vejam que este sentimento brota do seu coração.

Jacob levanta os olhos e a encara.

— Ame profundamente e com paixão, querido! Você pode se machucar, mas é a única forma de viver a vida completamente.

Ele sorri para ela.

— Prometo que vou me esforçar para ser quem você sempre sonhou que eu fosse.

— Não mude por minha causa, meu amor. Mude porque é assim que você compreende que é o certo a fazer.

— Você me ajuda a reeducar-me? — pergunta ele, sorrindo.

— Claro! Eu sempre estarei ao seu lado Jacob. A sua felicidade é a minha felicidade. Temos que aproveitar mais, curtirmos juntos o nosso neto.

— Sim, vamos fazer isso! Eu te amo muito Mirta! — diz olhando-a nos olhos.

— Eu também, Jacob. Mesmo não tendo sido a sua prioridade durante todos esses anos, eu nunca deixei de te amar.

Eles inclinam-se sobre a mesa e deixam que suas bocas toquem-se com um “selinho”.

Mirta levanta um pouco o olhar e percebe o relógio afixado na parede do restaurante.

— Precisamos ir embora, querido. Faltam dez minutos para às duas horas.

Jacob paga a conta e eles retornam para a Embaixada.

— Você não vai entrar? — ela pergunta.

— Não. Vou para casa pensar em tudo o que conversamos. Quando você chegar quero estar mais relaxado.

Mirta sorri. Eles se beijam e ela entra na Embaixada.

Quarenta minutos depois, Mirta está preparando um relatório em sua mesa, quando o telefone toca. Ela atende. Uma voz rouca do outro lado da linha não lhe dá tempo de respirar e grita:

— Nós não descansaremos, enquanto vocês viverem. Morte aos judeus!

— Alô!

_  Morte aos judeus!

Ela desliga o telefone e corre até a sala do embaixador, mas ele acabara de sair.

Desesperada, ela corre até a sala de David Ben Rafael, o segundo na hierarquia. Ele se assusta com a sua entrada abrupta. Ela conta-lhe sobre o telefonema.

Em casa, Jacob toma um banho, depois abre uma cerveja e senta-se no sofá da sala, pensativo. Seus olhos estão fechados, mas suas expressões são de quem está refletindo, ora arqueia as sobrancelhas e comprime os lábios, ora movimenta a cabeça afirmativamente. Ele abre os olhos. Uma corrente gelada sobe-lhe à espinha e arrepia seus pelos, deixando sua pele como as de uma galinha depenada. Ele levanta-se, vai até a cozinha, serve-se de um copo d’água e volta para a sala e liga a televisão.

As imagens são impactantes.  São como um soco desferido na “boca” do seu estômago. Ele deixa copo cair quebrando-se e espalhando vidro e água sobre todo o assoalho. Seu estado é de completa apoplexia. Seus olhos ficam vidrados na tela do aparelho, enquanto o locutor transmite a notícia:

“Atentado terrorista em Buenos Aires! Uma caminhonete Ford F-100 conduzida por um suicida e carregada com cerca de 200 kg de explosivos, choca-se contra o edifício da Embaixada de Israel, provocando uma explosão ensurdecedora. Até agora, cinco pessoas foram encontradas mortas, mas há centenas de feridos. Mais de cem funcionários trabalhavam na hora da explosão, que aconteceu agora a pouco, às duas e quarenta e sete desta tarde. O prédio que fica na Rua Arroyos, no centro de Buenos Aires, ficou destruído. Muitos carros em chamas foram lançados a vários metros de distância. Árvores foram arrancadas e os prédios vizinhos também foram atingidos. Muitos pedestres ficaram feridos com os vidros lançados a mais de quatrocentos metros de distância. Centenas de policiais, médicos e bombeiros, procuram sobreviventes entre os destroços. Pelo menos trinta pessoas ainda estão soterradas. O escapamento de gás provocou alguns incêndios isolados. Nenhum grupo terrorista assumiu a responsabilidade pela explosão. O presidente Carlos Menem, em uma ligação, atribuiu o atentado a nazistas argentinos e também aos militares dissidentes “caras pintadas”. Mais detalhes no jornal da noite.”

Jacob sai do estado apoplético e corre imediatamente para a Embaixada, mas ao chegar é impedido de entrar pela equipe da defesa civil, pelos bombeiros e policiais.

— Deixe-me entrar!

— Impossível senhor. — responde um dos bombeiros.

— Eu trabalho aqui.

— Não atrapalhe o trabalho dos meus homens! — ordena um oficial.

Jacob força a passagem e é contido.

— Mirta! Mirta! Suplica desolado, enquanto a equipe de resgate retira os corpos das vítimas dos escombros.

Além da Embaixada, a explosão provoca danos numa igreja católica e numa escola vizinhas. Um funcionário da Embaixada, que está ao seu lado e bastante ferido, dá uma entrevista para uma rádio local.

— Que ironia! Nosso trabalho é incentivar o diálogo entre os países e agora nossos colegas estão lá dentro, mortos, impedidos de falar. — diz, chorando.

Então dois bombeiros saem do prédio, carregando um corpo coberto por um lençol sujo de sangue. O braço direito da vítima pende para fora da maca, revelando a mão esquerda de uma mulher com uma aliança de ouro no dedo indicador direito.

Para os judeus, durante a troca de alianças na cerimônia de casamento, esta é colocada no dedo indicador direito. Existem algumas explicações para isso ser assim. Uma delas, é que ele é usado para apontar a pessoa com quem se escolhe casar; Outra explicação, é que existe a crença de que é por este dedo, que corre uma veia que segue direto ao coração. Depois da cerimônia, a aliança é transferida para o dedo anelar da mão esquerda da noiva. Isso, talvez tenha sido decidido assim, para seguir a tradição cristã, evitando chamar atenção. Pois, se ninguém soubesse o sobrenome deles, todos seriam tratados como cidadãos comuns, evitando qualquer atitude antissemita.

No entanto, desde que se casaram, nem ele nem Mirta trocaram o dedo da aliança. Para eles, fazer isso, significava aceitar a assimilação cultural dos povos ocidentais, comportando-se exatamente como quem não é judeu.

Jacob, aos prantos, aproxima-se da maca. Os bombeiros param para ele identificar o corpo. Com as mãos trêmulas, ele pega a mão da vítima e aproxima o seu dedo indicador com o dedo dela. Não há nenhuma dúvida. As duas alianças têm o mesmo detalhe: Doze estrelas de David, representando as doze tribos de Israel.

— Por favor, o senhor reconhece essa pessoa? — pergunta um dos bombeiros.

Jacob retira o lençol que cobre o rosto da vítima e, imediatamente, ajoelha-se e rasga o colarinho da camisa que está vestindo.

— Mirta! O nome dela é Mirta. Ela é minha esposa. — grita, enquanto se cobre com os escombros espalhados pela calçada.

Os bombeiros seguem com o corpo de Mirta. Policiais aproximam-se dele, mas decidem não tocá-lo. Logo, surgem alguns amigos da Embaixada e Elias. Eles o identificam e o confortam.

Findo os trabalhos, o saldo em vítimas é de vinte e nove mortos e duzentos e quarenta e dois feridos. Apesar dos esforços e das investigações encaminhadas, ninguém é condenado e o atentado não é esclarecido.

Num golpe de sorte, o embaixador de Israel, Yitzhak Shefi havia saído da Embaixada minutos antes da explosão. O consul, Danny Carmon, conseguiu sobreviver ao atentado. A mesma sorte, no entanto, não teve a sua esposa, Ehora Carmon, nem o encarregado de negócios da representação diplomática, David Ben Rafael, ambos morreram soterrados pelos escombros. Mirta estava ao lado deles, quando foi encontrada.

Menem antecipa-se às investigações e joga a culpa nos nazistas alemães, mas as investigações mostram que os responsáveis eram muçulmanos. Dois dias, após o trágico ato, a facção terrorista, “Jihad” — Guerra Santa — reivindicou a autoria do atentado, encaminhando uma carta e um vídeo aos jornais argentinos.

Num primeiro momento, não houve como confirmar a autenticidade dos documentos, mas depois, tanto a mensagem, quanto o vídeo se mostraram compatíveis com outras reivindicações feitas pelo mesmo grupo terrorista. Dizia a carta:

“Em fidelidade ao sangue do nosso irmão mártir, o combatente Abu Yaser, é com muito orgulho que estamos confirmando que, o grupo Jihad é o autor do atentado contra a Embaixada de Israel. Anunciamos que continuaremos as operações contra o germe israelense da corrupção. Esta operação foi executada em nome de Hussein, filho de Abbas al-Musawi, ex-secretário-geral da organização fundamentalista muçulmana Hezbollah, morto em 16 de fevereiro durante um ataque aéreo de Israel, no sul do Líbano. As ameaças de Israel não vai nos intimidar. Isso é uma guerra aberta até a eliminação de Israel e até a morte do último judeu na terra.”

A comunidade judaica argentina, manifestou-se dizendo ser este ato terrorista contra a Embaixada de Israel, o mais brutal ataque contra um alvo civil judeu, desde a Segunda Guerra Mundial. Em Israel, ao receber os corpos de algumas vítimas que foram repatriadas, o Ministro do Exterior, David Levy declarou:

— Lutaremos até aniquilar aqueles que buscam a nossa destruição.