Ou tudo, ou nada

11 de Abril de 2018
Pedro Jácome
por

É advogado, pitaqueiro sem diploma e fã incondicional de Marília Mendonça.

Neste sábado, após a prisão de Lula, após churrasco, corote, “missa”, show  e comício, um discurso/meme repetido exaustivamente pela esquerda é o “E agora, o que a direita vai fazer?”

Seja no áudio do jornalista Chico Pinheiro,; ou Numa imagem aludindo ao Jardim do Éden ou a consultórios psiquiátricos, os esquerdistas ironizam o que seria a inauguração de um mundo sem corrupção.

Os defensores, abertos ou enrustidos do ex-presidente, ironizam o desejo dos “conservadores” de verem Lula preso, como se estes, os conservadores, considerassem a prisão do ex-presidente como o golpe final na corrupção e na criminalidade.

O discurso não é novo.

Após o impeachment, a linha argumentativa também passou por essa ironia infantil de que agora, após a queda da ex-presidente Dilma, O Brasil viveria na Terra de Preste João, sob Unicórnios vomitando chocolate.

A Esquerda, por acreditar num estado futuro de conformidade e paz social absoluta, imagina que a direita também almeje um Estado social estático não conflitivo.

No entanto, diferentemente da utopia socialista, o conservadorismo (falo do conservadorismo letrado e não da verborragia tio_bêbado_do_churrasco) não crê em tempos de fim de opressões, mas em baby steps, erros e acertos, idas e vindas para a construção de uma sociedade melhor (e melhor, amigos, nem de longe quer dizer “perfeita”).

O conservadorismo ilustrado acredita em perfeições metafísicas, mas resguarda à política o campo da realidade humana e, portanto da imperfeição.

Na realidade humana, na vida, as pessoas não buscam estados de perfeita tranquilidade e perene contemplação.

Pessoas normais ficam felizes ao comprar seu primeiro carro, conquistar seu primeiro emprego, passar no vestibular, casar, alugar uma casa, ter um filho…. mas em nenhum desses momentos imaginam que todos os seus problemas estejam resolvidos. Elas sabem que cada dia teu o seu mal e amanhã haverá um leão a matar.

Conservadores não lutam pelo fim completo de todas as injustiças. Eles têm metas mais modestas.

Não se trata de almejar o fim de qualquer prática racista, mas de fazer o fim da escravidão, mitigação de seus efeitos, o fim de segregações institucionais, etc,

Não se trata de desejar (como algo exequível e possível) o fim de qualquer espécie de sexismo, mas de desejar mais equidade de direitos.

Não se trata de querer o fim da violência, mas o aumento da sensação de segurança.

Conservadores entendem que onde existe liberdade – e a liberdade existirá, ainda que em grau mínimo em qualquer sociedade – haverá espaço para que as pessoas se comportem em desacordo com a decência social ou moralmente esperada.

Não se trata, portanto, de pôr fim à corrupção, mas de alegrar-se nas vezes em que a Justiça é feita.

Conservadores se alegram com a prisão de Lula, mesmo sabendo que este não será o fim dos desvios de verba, peculatos ou fraudes licitatórias. Mas se alegram porque demos um passo nesse sentido.

E se comemoram mais a prisão de Lula que a de Henrique Alves ou Maluf, isso se dá pelo mesmo motivo que vamos ao cinema para ver Luke derrotar o Imperador, mas não vibramos efusivamente a cada vez que um stormtrooper é atingido.

A queda de líderes de facçoes criminosas é mais comemorada que a de seus sicários em desenhos animados, videogames, filmes e, também, na vida real.

A queda de Lula não representa o fim da corrupção. Mas representa um passo importante na luta contra a impunidade.

Passo que, aliás, não é o primeiro.

De todos os presidentes eleitos no Brasil, que já deixaram o cargo, desde a Nova República, apenas um terminou o mandato e está em liberdade. Todos os outros foram impedidos de continuar governando ou estão presos.

O conservadorismo não acredita no paraíso terrestre, mas comemora cada passo que se dá em direção às ideias de perfeição.

O esquerdismo, no entanto, diz acreditar no paraíso terrestre, mas parece não se conformar com qualquer passo que se dê em direção a ele, que não seja o derradeiro.

Talvez isso explique porque a civilização que mais respeitou igualdades e liberdades na história da humanidade, seja a mais odiada pela esquerda.

E porque o aparelho estatal repressor que mais prendeu ricos e poderosos no Brasil, seja o mais atacado pela esquerda, que outrora o acusava de só prender pobres, pretos e putas.