Os conservadorismos do Brasil explicados até para os mais burros

27 de dezembro de 2017
Rafael Nogueira
por

Rafael Nogueira é professor de Filosofia e História.

Norman Rockwell --And Daniel Boone Comes to Life on the Underwood Portable - (Coleção de Steven Spielberg)

O ano mais esperado dos últimos tempos chegará em alguns dias. Tem Copa do Mundo e eleições presidenciais. Mas não é uma Copa qualquer, nem uma eleição como as outras.

A autoestima brasileira foi atingida quase mortalmente em dois pontos vitais. Primeiro, no orgulho futebolístico: aquele sete a um ainda está entalado na garganta. Depois, no orgulho político: a esquerda governante, antes tão celebrada, foi pega em flagrante cheia de pretensões totalitárias, sem contar os tantos escândalos de corrupção e o traumático processo de “impeachment”.

Para os ingênuos, trata-se do Ano da Redenção. Para mim, apenas de uma janela de oportunidade que só será bem aproveitada se não esquecermos que depois do 18 vem o 19, e assim por diante.

Deixemos o desafio do futebol para o Tite, e tentemos resolver apenas um aspecto da treta política: a composição ideológica da mal chamada “nova direita”, que muitos reduzem à palavra “conservadorismo”.

No artigo por mim publicado neste jornal no último 08 de dezembro, aconselhei conservadores e pressupus, com ingenuidade, que a maioria dos leitores entenderia perfeitamente o que eu entendo por conservadorismo e por esquerda, no contexto do Brasil de hoje. Percebi, entretanto, pelas dúvidas, comentários, imprecações e pedidos de cabeça, que eu estava errado. Como não desisto nunca, um exercício de taxonomia política poderá ajudar o bom leitor a entender o que é e o que não é conservadorismo. Se eu acertar a mão, terei dado uma contribuição mais duradoura do que se eu arriscasse dizer quem levará o próximo pleito.

Aristóteles nos convidaria a ouvir os sábios que pensaram sobre o assunto, e a classificar a massa amorfa de dados em gêneros e espécies.  Já fiz uma coisa e outra. Só não sei se o fiz bem. Comecemos por definir conservadorismo, sintetizando a opinião dos sábios.

Conservadorismo não é o que dizem dele a esquerda política, a esquerda escolar e universitária, e a esquerda jornalista. Esclareço para que os bem-intencionados não se confundam, e para que os maliciosos e os ignorantes não inventem que estou a defender as três idiotices mais comumente atribuídas à mentalidade conservadora: o “status quo” dos ricos contra os pobres oprimidos, a homofobia contra a liberdade sexual, o racismo nazifascista contra a democracia.

Eu já expliquei um pouco disso na minha entrevista ao mesmo jornal, do dia 24 de outubro deste ano (, quando expliquei o que NÃO É conservadorismo, mas vou detalhar um pouco mais, desta vez, focando no que me parece que ele é.

Em síntese, e para começo de conversa, conservadorismo é uma posição pré-política de desconfiança das soluções utópicas apresentadas para resolver os problemas da vida humana.

É pré-política porque embora se reflita na política, emerge de uma forma particular de encarar a vida, uma forma cética com fórmulas mágicas, com “fins da história”, com ideais de perfeição humana. A desconfiança se restringe às soluções utópicas, imaginativas e teóricas, jamais experimentadas em suas últimas e gloriosas etapas, mas há confiança na possibilidade de melhoramento lento e progressivo das formas de viver, com manutenção da natureza humana e sem pretensões de perfeição.

Parece algo apático, e é, em certo sentido. O conservador não age, reage. A ação conservadora é uma reação de segurança contra uma locomotiva que está levando um povo ao precipício. Ou a campos de extermínio.

Leitores não-iniciados certamente estão se sentindo desconfortáveis. Não aprenderam isso antes, em lugar algum. Mas, vá lá, o tema é novo e a palavra “conservador” raramente é usada da forma como expliquei. Ela é empregada para difamar, ou agrupar pessoas muitíssimo diferentes. Prossigamos, pois, com o exercício, para escaparmos dessas armadilhas, erros e maldades.

Analisemos, pois, a direita brasileira de hoje. Para fins didáticos, admitirei que há vários “conservadorismos” no Brasil, assim, no plural, e os reduzirei a cinco: (1) o popular, (2) o imprudente, (3) o militante, (4) o modista e (5) o intelectual.

(1.) O primeiro é o conservadorismo do povo. É o da senhora viúva que criou seus filhos e netos, mantém a família unida, e doa até o pouco que tem aos pobres. É o dos pais que não aguentam mais tantas notícias de crimes bárbaros, e temem pelas vidas de seus filhos. É o do policial vocacionado que não aguenta mais expor-se a grandes riscos para ser tão maltratado pela imprensa. É o daquele personagem das redes sociais, o Joaquin Teixeira.

Abrange os religiosos devotos que não foram transformados em ideólogos nem em fanáticos por maus sacerdotes; os patriotas que amam o seu país sem, por isso, odiar os países dos outros; os jovens que querem casar, formar suas famílias, e dar a elas a parte de felicidade que souberam herdar, preservar e, quiçá, ampliar. E também os ateus e deístas que não creem em utopias políticas; os cosmopolitas que não aderem ao globalismo; os jovens individualistas que querem prosperar sem submeter ninguém.

(2.) O segundo tipo, o imprudente, é o militarista exagerado, o intervencionista desesperado, o integralista fascista, o nostálgico de um regime militar glorioso que nunca existiu, o saudosista de uma Idade Média idealizada, o monarquista que, não contente em sonhar com o que teria sido o reinado de Isabel I, crê que todos os problemas do universo, com ela, estariam resolvidos.

Este grupo flerta tanto com o reacionarismo que, por mim, pode ser excluído do rol dos conservadores e pode ser chamado de reacionário mesmo, quanto com o fascismo. Afinal, a virtude da prudência é a mais característica dos conservadores. Conservador imprudente é contrassenso.

(Vejam os leitores que eu não estou falando em taxar os conhecidos disto ou daquilo para excluí-los de grupos de WhatsApp. Estou dando nomes mais preciso aos fenômenos para melhor os compreender.)

Não confundamos reação conservadora com reacionarismo. O conservador reage mais do que age, é verdade, mas o reacionário é ativo em sua luta para resgatar uma situação passada que considera perfeita, ou próxima disso. É o revolucionário de direita. O conservador genuíno é reativo, enquanto o reacionário é ativo.

(3.) O terceiro time reúne os militantes prudentes. São os que lutam corajosamente nas ruas e nas assembleias, na internet e nas academias, para que leis utópicas não sejam aprovadas, ou sejam alteradas ou extintas. Não deixam de estudar com o quinto tipo (do qual falarei adiante), respeitam e convivem com o primeiro, e transitam bem entre os do segundo e do quarto, embora não se deixem levar pelos excessos de que padecem.

(4.) O indivíduo do quarto grupo encarna o espírito coletivista de adesão apressada e superficial a uma espécie de doutrina incompreendida, mas admirada. O comportamento é típico daquele ardor juvenil que, ao reter algumas palavras de ordem e alguns chavões, se empenha em repeti-los para aparentar sabedoria, e nos casos mais graves, para se rebelar contra sua perigosíssima mãe.

Muitas pessoas mais velhas encontram-se neste último grupo, mas como agem igual adolescentes, manterei esta explicação sem mais pormenores. Também não os considero conservadores.

(5) Por fim, temos o grupo dos conservadores estudiosos, filiados a uma tradição de pensamento, seja o conservadorismo britânico, seja o olavismo – em sua aversão à “mentalidade revolucionária” –, seja o ainda pouco autoconsciente conservadorismo ibérico.

O indivíduo deste grupo, geralmente, ingressa nele ao procurar descobrir como não ser o abominável do esquerdista que ele viu falar ou agir de forma totalitária ou, simplesmente, escrota, certa vez.

Depois de um tempo calado, tentando entender o que se passa, o conservador estudioso entende que pode se aprimorar em não ser esquerdista, e se transforma num estudioso capacitado a iluminar assuntos políticos, sociais e morais antes obscuros. Ao final de um ou dois lustros de estudo bem dirigido, de luminária o estudante passa a farol.

Os conservadores são, portanto, pacíficos por natureza. Só não faz bem à saúde provocá-los.

Chamar todo e qualquer direitista de conservador, sem que haja nenhum critério para isso, é confundir conservadorismo com reacionarismo e fascismo. E não me refiro ao fascismo que vai na boca dos esquerdistas mais assanhados. Falo do fascismo como proposta estatista, totalitária, militarizada e violenta a fim de moldar a sociedade para que ela fique toda linda, linda como antes (se for reacionário), ou como nunca antes na história desse país (se for revolucionário).

Confundir isso tudo é dar à esquerda a maior das armas culturais. Todo inimigo da mentalidade revolucionária acaba sendo enquadrado nos mais abjetos estereótipos, e isto enfraquece, ao mesmo tempo, o clamor genuíno do povo, a legitimidade dos movimentos conservadores organizados, e o espírito de cultivo da inteligência e de preservação da cultura ocidental, tão característicos do quinto tipo.

Agora, meus votos para 2018: Se você é de direita, e acha que economia não explica nem resolve tudo, espero que se inspire nos tipos 1, 3 e 5 que mostrei aqui. Se você é de esquerda, e é bem-intencionado, não chame conservador de fascista. Quem avisa, amigo é.

E se você não tem nada a ver com essa bagunça política, toma cá um abraço, e torça comigo para que o Brasil ganhe a Copa da Rússia, vingue-nos contra a Alemanha, e enterre os assassinos e estupradores todos de pé, para que não ocupem espaço!

Brincadeiras à parte, que estas reflexões ultrapassem o ano de 2018 colaborando para defender os conservadores contra as baixarias da imprensa e da cátedra, e que elas abram as portas para que estes guardiões da civilização reingressem na política oficial, de onde nunca deveriam ter saído. Feliz Ano Novo!