Instrumentalização ideológica da educação brasileira

10 de março de 2018
Coronel Fernando Montenegro
por

Comandou a Ocupação do Complexo do Alemão / Operador de Forças Especiais do Exército / Professor/ Jornalista

Estou cursando um doutorado em Relações Internacionais em Portugal e também tenho sido convidado para ministrar conferências em outros cursos acadêmicos de outras disciplinas; minha filha também é universitária em outra instituição. É impressionante a diferença do ambiente universitário europeu se formos compará-lo com o Brasil. Professores homens vestem blaser e as mulheres quase sempre se trajam com roupas formais. São pontuais e esforçam-se por realmente passar conteúdos previstos e provocar reflexões. Esse tipo de postura tem uma mensagem subliminar interessante, a de que os mestres consideram a sua profissão uma coisa séria. Essa seriedade não significa distanciamento do aluno e cada professor, tem suas características individuais. Não vi ninguém com tênis furado, calça jeans rasgada sentado na mesa, fumando cigarro e fazendo pregação ideológica em quatro anos.

Recebemos professores de diversos países, o que confere bastante riqueza e diversidade ao ambiente. Nesse caso, normalmente realizam suas conferências em Inglês ou Francês e procuram transmitir um conhecimento que é visivelmente científico, consistente e consolidado.

O reflexo disso percebe-se nos alunos. Normalmente são bem mais pontuais do que os brasileiros, chamam os professores por “senhor/senhora” como sinal de distinção. Também não identifiquei “estudantes profissionais” como no Brasil, que se mantém matriculados nos cursos (normalmente de humanas) apenas para ficar manipulando diretório acadêmico que, em muitos casos, acaba sendo ambiente de consumo/comercialização de estupefacientes e militância política de Esquerda apoiando as ditaduras da Venezuela, Cuba ou qualquer outra aberração vermelha. Se a pessoa quiser ser de Esquerda ou Direita, o problema é de cada um, mas o ambiente acadêmico precisa ser um templo sagrado de transmissão de conhecimento e pesquisa relevante, não algumas aberrações que têm aparecido nas Universidades Públicas brasileiras como, por exemplo: “mestrado em sexualidade em banheiros públicos”, que não acrescenta nada.

Tive o desprazer de constatar que os dois únicos professores doutores convidados do Brasil, que foram fazer uma intervenção no meu curso, tinham como preocupação principal fazer doutrinação ideológica e transmitir uma realidade completamente diferente do cenário vigente. Sem que alguém viesse a perguntar, um deles já chegou dizendo que era do partido Comunista do Brasil e o outro projetou um CV que ressaltava ser especialista em Marxismo e suas derivações; nunca vi nenhum outro professor fazer esse papelão aqui, só essas duas figuras. Vale ressaltar que esses dois personagens são diretores de cursos em suas universidades. Vou expor sucintamente as ideias que eles mais reforçaram para que se tenha uma percepção da situação de calamidade em que se encontra um número significativo de Universidades:

  • Lula é um sujeito absolutamente pobre, vive num apartamento de classe média e está sendo perseguido porque enfrentou o sistema do capitalismo corrupto das oligarquias;
  • A Polícia Federal é uma instituição que persegue o Partido dos Trabalhadores a mando do Império (Estados Unidos);
  • Dilma foi deposta devido a um golpe, é completamente inocente e não fez nada de errado;
  • Todas as acusações contra Lula são falsas e fazem parte de um complô para que ele não seja eleito em 2018;
  • A Imprensa persegue o PT porque é um partido comprometido com ações sociais e distribuição de riquezas e a burguesia não tem interesse nisso.
  • O Governo de Maduro na Venezuela é uma democracia que está sofrendo com as articulações do Império.
  • Os venezuelanos que estão chegando em Roraima pela selva não são refugiados, são apenas migrantes em busca de melhores condições econômicas;

Os dois professores são de Universidades Públicas das regiões Sudeste e Sul do Brasil e me fizeram sentir muita vergonha nesse incidente. Acabei me sentindo na obrigação de me manifestar negativamente em relação às informações apresentadas, o que causou um desconforto no evento. Comecei dizendo que não tenho político de estimação e que os principais partidos do sistema político brasileiro não passam de facções de crime organizado que assaltam os cofres públicos que são abastecidos com o suado dinheiro de quem trabalha e paga impostos. Além de outras colocações, afirmei que considero o PT tão poder quanto o PMDB ou PSDB e lembrei que foi o Lula que elegeu o Temer Vice-Presidente da Dilma, dentre outras colocações.

Essa semana, eu recebi o seguinte depoimento de um amigo brasileiro que vive na Florida desde 1990, jornalista formado na UFRJ e muito bem sucedido profissionalmente nos Estados Unidos onde, nos últimos 8 anos trabalha junto às Forças Armadas daquele país: ” Estou completamente enojado com algo que aconteceu hoje comigo. Fui fazer – a convite a -uma palestra para os alunos de jornalismo da Universidade de Cruz Alta (RS), onde me encontro coletando material para uma série de matérias para o veículo de comunicação que trabalho.  Quando mencionei que tinha estudado no Colégio Naval, uns três caras se levantaram e foram embora. Pensei que fosse coincidência.  Quando falei que não sabia como me referir a 1964, pois não concordava em chamar de golpe e muito menos revolução, já que não houve derramamento de sangue, e uma parte significativa da população apoiava a tomada do poder pelos militares, outros cinco sujeitos se levantaram e se retiraram.  Ao final, só havia praticamente mulheres na sala.  Já tinha visto e ouvido falar da “esquerdização” (acho que nem existe esta palavra) das universidades no Brasil, mas agora senti na pele.  É uma sensação muito ruim. Pelo menos ninguém me confrontou, porque iria comprar uma briga feia, porém é vergonhoso o que estão fazendo com nossa juventude.  Acho que aqueles que querem derrubar o Lula, PT e todas essas merdas no Brasil precisa mudar radicalmente a estratégia.  Enquanto muitos ficam só se queixando nas redes sociais, eles correm atrás e conquistam mentes jovens.  É algo a se pensar.  Uma pena isso estar acontecendo. Os caras afundaram o país.”

O nome desse fenômeno é patrulhamento ideológico, que se manifesta de diversas formas e visa, principalmente, monopolizar o pensamento do ambiente acadêmico brasileiro “vacinando” os estudantes para que rejeitem qualquer informação contrária àquilo que “respiram” no ambiente “acadêmico” em que deveriam estar, na verdade, se capacitando para entrar no mercado de trabalho a curto ou médio prazo. Esse Jornalista poderia ter transmitido excelentes dicas de como ser bem sucedido num mercado de trabalho no exterior, mesmo tendo uma formação brasileira. Vários outros aspectos de sua trajetória interessantíssima que tenho a satisfação de ter acompanhado também poderiam ter sido compartilhados e servido de inspiração àqueles jovens, mas não quiseram nem saber o que mais ele poderia dizer.

Estou convencido de que a sociedade de mercado, apesar de todas as distorções que apresenta é a que produz mais riqueza e melhores possibilidades de ter uma condição material de vida. Normalmente isso fica mais fácil de viabilizar na medida em que o Estado interfira o mínimo na vida das pessoas. Considerando que isso só é possível num regime democrático, é necessário garantir liberdade de expressão (principalmente no ambiente acadêmico) e liberdade individual para decidir temas sobre as nossas vidas dentro da lei. Outro tema relevante é que a propriedade privada precisa ser assegurada pelo Estado.

Depois de alguns anos acompanhando essa realidade acadêmica percebi que se alguém quiser desafiar essa hegemonia dominante no sistema educacional brasileiro vai precisar: estudar profundamente o pensamento de esquerda para poder contra argumentar eficientemente; ser mais esforçado; mais disciplinado; ler mais; buscar fontes bibliográficas diferentes; apresentar novos autores; provocar pesquisas diferentes; conhecer mais autores. Diz a 5ª Lei da Guerra na Selva: “Pense e aja como caçador, não como caça”; isso significa ser mais rápido e ágil . A 6ª Lei também tem bastante aplicação “  Combata sempre com inteligência e seja o mais ardiloso”, pois armadilhas existem aos montes quando se entra em combates ideológicos.

Finalmente, tenho que concordar com meu amigo jornalista de Miami, é necessário que o segmento mais comprometido com o desenvolvimento econômico e social do país desenvolva um programa para fazer frente a essas aberrações que existem no meio acadêmico e que está se enraizando nas escolas públicas brasileiras para que possamos ter uma juventude mais capacitada profissionalmente e mais comprometida com o futuro do Brasil.