Ilana Casoy fala sobre o livro Quebra de Contrato de Kito Mello

9 de março de 2018
Kito Mello
por

Presidente da ASBI - ASSOCIAÇÃO SIONISTA BRASIL- ISRAEL. Professor, autor-roteirista, escritor, pesquisador e ghost writer.

A história que Kito Mello nos conta em Quebra de Contrato é a história de todos nós, judeus descendentes daqueles que, perseguidos, fugiram do maior assassinato em massa já realizado no mundo, o Holocausto efetuado nos guetos e campos de concentração da Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial, massacrando seis milhões de judeus e outras minorias.

O genocídio do meu povo foi fator determinante para que eu me interessasse pelo assunto “crime”. Nas listas de leituras obrigatórias, guiadas pelas mãos de meu pai, foram incluídas dezenas de livros sobre o assunto, em uma busca impossível por respostas que nunca viriam. E para cada vez que questionava meu pai sobre o sentido de ler tudo aquilo quando não encontrava respostas, ele me respondia: “mas o livro fez você pensar? Sentir? Chorar? Sorrir? Refletir? Não precisa achar respostas, precisa viajar dentro da história, se sentir em cada personagem”.

Atualmente, apesar da ampla documentação sobre esse genocídio, alguns ainda negam os fatos históricos do nazismo, outros os minimizam. São tempos em que você pode ainda ser estereotipado e perseguido segundo sua fé.

Cada campo de trabalho forçado ou de extermínio nazista tem uma história para ser contada. Os guetos, o medo, o cheiro de morte entranhando-se por todos os poros, o desespero, o coração dilacerado pelas perdas, o inacreditável. Cada homem ou mulher que por eles passaram, sucumbindo ou sobrevivendo, deixou para seus lhos e netos uma história marcante. Todas deveriam ser contadas para que isso nunca mais se repetisse. A memória vai se apagando, ficando amarelada e esmaecida; os sobreviventes do holocausto são raros de ser encontrados. Quando o são, é preciso alguém com coragem, habilidade e sensibilidade para ouvir suas histórias, abarrotadas de dores, sofrimentos e perdas incompreensíveis. Alguém que consiga navegar em águas tão turbulentas e nos contar, de forma criativa e envolvente, o maior crime de todos os tempos. Segundo o pesquisador Michel Pollack1, “poucos períodos históricos foram tão estudados como o nazismo […], entretanto […], frequentemente ele permanece um tabu nas histórias individuais […], nas conversas familiares”.

É o que nos traz Kito Mello de especial: escolher a história de Jacob Zollinger e sua família, em uma ficção inspirada em fatos reais, mas que poderia ser de qualquer outro judeu. E foi como quem recebe um presente que li esse livro. De capítulo em capítulo, fui o pai, o avô e o neto, nesta saga familiar que não nos deixa esquecer quem somos e de onde viemos, assim como prometemos. Sim, nós judeus prometemos não deixar o mundo esquecer o que aconteceu, para que essa história jamais se repita, e Quebra de Contrato faz cada um de nós lembrar a Shoá – a Catástrofe –, como deve ser feito de geração em geração. Jacob, o personagem central do livro, somos nós. Ele não é ideal, é humano. Traz à tona dúvidas que merecem ser pensadas e discutidas, revê cada passo do seu próprio caminho, como todos nós deveríamos fazer. Sua opção como prisioneiro é tabu: tornou-se um sonderkommando, homens recrutados entre os prisioneiros recém-chegados que, para sobreviver, aceitavam funções no mínimo discutíveis. Interpretada por muitos como um ato contra o que é pregado na Torá, o livro das leis judaicas, essa escolha será de nitiva em sua vida.

Ao longo da trama, estão em xeque as escolhas de Jacob, mas quem atirará a primeira pedra? Quem poderá levantar a mão para julgá-lo? De rabino a juiz de acusação, Jacob é o responsável, no campo de concentração de Belzec, pela organização de um dos momentos mais tocantes e decisivos do livro, quando coloca no banco dos réus ninguém menos que Deus.

Kito Mello nos leva de maneira vertiginosa, por meio de fatos históricos reais, para dentro dessa ficção surpreendente, porque nos localiza em cenários não tão comum nas narrativas sobre o holocausto nazista: a América do Sul, suas ditaduras e seus conflitos, o antissemitismo camuflado e envergonhado, mas permanente. Os atentados terroristas antissemitas na Argentina, tão pouco abordados e conhecidos pelos brasileiros, como aquele contra a AMIA – Associação Mutual Israelita Argentina –, em 18 de julho de 1994, serão decisivos na vida de três gerações.

Quebra de contrato foi uma grata surpresa. O autor nos brindou com uma ficção “de verdade”. Um mapa histórico e de reflexão. Um diálogo principalmente com a fé, com os crentes e com os ateus entre o pensar e o sentir.

Ilana Casoy – escritora, pesquisadora e criminóloga