Derrota brasileira foi digna e não preocupa futuro da seleção

10 de julho de 2018
Rafael Nogueira
por

Rafael Nogueira é professor de Filosofia e História.

Desde a derrota para a seleção daquele país obscuro cuja única glória remonta à Idade Média, exceto pelas cervejas e chocolates, tenho recordado as nossas últimas participações em Copas do Mundo, e concluí que não houve nada de especialmente vexaminoso. Foi uma derrota normal de jogo. O nosso ponto mais baixo, tão baixo quanto o nível de desenvolvimento moral e intelectual do Lula, foi a participação de 2014.

Brasil já se deparara com a Bélgica em 2002, o ano do penta. Foi 2×0. Mas o primeiro gol foi da Bélgica, anulado de forma muitíssimo discutível pelo juiz. Depois, Rivaldo e Ronaldo encontraram o caminho do gol, mas convenhamos: poderia ter sido muito diferente se o primeiro gol tivesse acontecido, sobretudo considerando o desequilíbrio emocional brasileiro que, folgo em dizer, já existia à época. Felipão disse inclusive que este jogo foi o que deu a confiança à equipe de que era possível vencer a competição.

Em 2006, com uma seleção dos sonhos, talvez equiparada à de 1970, perdemos apáticos para a França, mandando apenas um chute a gol no jogo inteiro. Teve muitos chapéus, um deles aplicado ao Ronaldo, e muitas canetas, uma delas, no Ronaldinho Gaúcho, salvo engano. Tínhamos, além desses dois, Kaká, Cafu, Roberto Carlos, Robinho, Adriano, Lúcio, entre outros.

Na Copa de 2010, perdemos para a Holanda por besteira (atrapalhação da defesa — gol quase contra), por precisar do brilho individual de jogadores em recuperação de contusões, e por falta de controle emocional. Lembram do pisão injustificável de Felipe Mello? Do Kaká apagado, aparentando falta de ritmo? E qual foi a grande polêmica? O povo queria Neymar e Ganso na seleção, que vinham despontando no Santos F.C., e Dunga negou.

Já de 2014 as lembranças são vivas demais para eu ter que descrever. Aquilo, sim, é vexame. Além de termos vencido Chile e Colômbia com muita dificuldade, com muito choro, com muito desgaste, o 7×1 foi o único evento da seleção brasileira que considero vergonhoso em toda linha. Sempre digo e repito que todos os jogadores que estavam em campo, por melhores que sejam seus desempenhos hoje, deveriam ter sido proibidos de voltar à seleção. A culpa não foi só do técnico.

O caso Neymar já é o seguinte: sem ritmo, aparentando jogar contundido, desejoso de se tornar, pela primeira vez, o melhor do mundo, não conseguia se nivelar com suas melhores exibições, então, seus defeitos encontraram vias abertas para manifestações eloquentes. Por sorte, não foi pior. Tomasse um cartão vermelho, aí sim, veria o que é sofrer impopularidade.

Eu já o defendi antes, e mantenho tudo o que disse, mas o Neymar não estava 100%. A culpa não é só dele, é claro. Se antes abundavam talentos, a ponto de termos uma seleção de estrelas em campo em 2006, ao mesmo tempo em que chamávamos por jogadores não convocados, hoje, os talentos estão mais escassos. Parece que temos uma boa geração vindo aí — foram bons os desempenhos dos jogadores substitutos –, mas ela ainda precisa amadurecer.

Para 2022, precisamos do amadurecimento dos mais jovens, de sorte para aparecer algum novo gênio, de união do grupo para cada um fazer o seu sem querer aparecer mais do que deve (em 94, todos jogavam a bola para Bebeto e Romário; em 2002, para Rivaldo e Ronaldo, e é assim que se faz), e de muita, mas muita vontade de vencer. E só jogadores querendo conquistar o mundo são assim. Neymar era assim, e acredito que ainda carregasse essa força com ele nesta Copa, mas futebol se vence também com saúde, preparo e forma física.

Três meses em recuperação de contusão não é nada fácil — como disse um amigo meu, muitos pensam que é Playstation: basta ligar o equipamento que os jogadores funcionam como sempre. A consciência de que não estava inteiro e a lembrança da fratura de 2014 o levaram a tentar se proteger demais da conta, o que o enfraqueceu e o tornou vulnerável aos exageros que os críticos também exageram em destacar.

Conclusão: Não houve escândalo nem baixaria, perdemos porque não merecemos ganhar (mas mesmo sem merecer, poderíamos ter vencido e adquirido uma confiança fantástica ali), nosso melhor jogador fez boas jogadas mas não estava com ritmo, e já não temos mais um grupo de grandes estrelas.

Mas tem uma segunda parte de conclusão, dessa vez, menos melancólica: creio que nosso futebol continuará produzindo craques, que alguns mais experientes poderão estar mais centrados e ainda loucos para vencer, que os mais jovens, como Douglas Costa, estarão ainda mais preparados, e que se pararmos de choramingar, como reclamamos que os jogadores em campo choramingam, poderemos ter atletas e torcedores imersos numa cultura mais propícia à conquista da taça na próxima Copa.

Vencer no ano do bicentenário da Independência não seria nada mal, não é mesmo? Bonifácio exultaria. Que venha 2022!