Clínica de Finanças: a quem realmente interessa?

3 de dezembro de 2018
José Mario Carvalho dos Santos
por

Graduado em Administração de Empresas. Especialização em Gestão Estratégica de Empresas. Orientador em Finanças Pessoais pelo Forex (2001). Educador Financeiro, Assessoria, Orientação, Organização e Planejamento Financeiro. Diretor da consultoria Clínica de Finanças.

Se você acredita que a situação não é preocupante, acompanhe o raciocínio:

O Brasil possui atualmente mais de 62 milhões de inadimplentes, um número que não cede. As explicações para isso são várias e relacionadas a uma série de fatores: a maioria dessa gente não compreende o sistema financeiro, não sabe usar cartão de crédito, não consegue entender o estrago que os juros compostos provocam, toma crédito de forma errada, não controla suas contas, não mantém orçamento pessoal e doméstico. Pior: na maioria dos casos, não sabe quanto deve. Todo esse contingente está impossibilitado de acessar crédito pelas vias ‘normais’. Mas além dessa tragédia humana, há ainda outra, talvez tão séria quanto: a transferência pura e simples de recursos, do sistema produtivo para a banca.

Imaginemos que sobre o montante de dívidas atrasadas desses inadimplentes – R$ 96,6 bilhões – aplicássemos juros à razão de 4% ao mês (fiz uma média rápida tomando o custo financeiro de alguns produtos oferecidos pelos bancos). Lembre que o rotativo do cartão de crédito cobra por volta de 12% mensais e que o cheque especial atua na mesma faixa de juros. Pois bem: a remuneração obtida seria de R$ 3,865 bilhões MENSAIS. Dinheiro que sai direto do bolso do brasileiro comum e das empresas. Dinheiro que cai livre, leve e solto para o sistema financeiro.

Agora vem a parte com a qual poucos se preocupam: esses quase quatro bilhões de reais MENSAIS são transferidos diretamente da renda das pessoas, e poderiam ser destinados ao consumo e à poupança. Perdem as famílias, porque não conseguem regularizar a situação (sua renda nunca consegue acompanhar esse patamar dos juros cobrados, fazendo com que sua condição financeira se deteriore rapidamente), já que estão reféns e não conseguem melhorar sua condição de vida; perdem as empresas porque esse montante não vai para o consumo; perdem os governos (federal, estaduais e municipais) visto que essa fábula de recursos girando na economia geraria, em cadeia, impostos que seriam necessários para a normalização da situação econômica do país. ICMS, IPVA e ISSQN são alguns dos tributos prejudicados em termos de arrecadação. Contribuições como INSS, PIS/PASEP e até FGTS sofrem redução, uma vez que com menor atividade econômica, menos vagas de empregos são oferecidas. O Imposto de Renda também experimenta declínio, em função da baixa ocupação de mão-de-obra.

Por fim, a pergunta: a quem interessa esse estado de coisas? Por que o governo federal ainda não atuou sobre essa absurda distorção? Até quando governadores e prefeitos irão choramingar em Brasília, de pires na mão, ao invés de exigir maior severidade sobre a atuação dos bancos?