Clínica de Finanças: a previdência privada é mesmo um bom negócio

17 de dezembro de 2018
José Mario Carvalho dos Santos
por

Graduado em Administração de Empresas. Especialização em Gestão Estratégica de Empresas. Orientador em Finanças Pessoais pelo Forex (2001). Educador Financeiro, Assessoria, Orientação, Organização e Planejamento Financeiro. Diretor da consultoria Clínica de Finanças.

Seguramente, uma das maiores preocupações dos brasileiros no curto prazo é uma possível “reforma da Previdência”. Muita gente assustada, mal informada e, pior, alguns sabendo que essa é uma mudança fundamental para o país mas que, mesmo assim, continuam defendendo a fórmula atual.

O sistema previdenciário brasileiro, calcado no formato conhecido como ‘de distribuição’, é altamente sujeito aos humores da economia. Isso porque sua mecânica é a seguinte: o recolhimento do INSS por quem está ocupado, trabalhando, serve para pagamento imediato do benefício de quem já aposentou. Aumento no desemprego, fechamento de empresas, crise econômica, redução no número de filhos por família, inflação em alta ou quaisquer outras oscilações nessa área podem criar um problema imenso para o governo.  Adicionalmente tivemos nas últimas décadas decisões polêmicas que vieram prejudicar os trabalhadores: a redução do teto máximo de contribuição – e, por consequência, de direito a aposentadoria maior – foi apenas uma das barbaridades cometidas. Assim, passou-se a oferecer ao contribuinte brasileiro a oportunidade de ‘complementar’ a sua aposentadoria. Claro, com recursos próprios.

Foi então criado o Regime de Previdência Complementar (RPC), que veio somar ao já existente Regime Geral de Previdência Social (RGPS) que, gerenciado pelo INSS, é a opção de filiação OBRIGATÓRIA para todos os trabalhadores que estão contratados através da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Não confundir com o Regime Próprio de Previdência Social (RPPS), voltado ao servidor público.

A Previdência Privada, ou RPC, nada mais é que uma ‘poupança’ em que a pessoa decide com quanto vai contribuir (seja mensalmente, semestralmente ou até via aporte único) para que esses recursos constituam um fundo que lhe será devolvido, corrigido, no prazo acertado em contrato. Detalhe: diferentemente da crença popular, a Previdência Privada NÃO É GERIDA POR UM BANCO. Ela é um produto exclusivo de seguradoras, é fiscalizado pela Susep (a Superintendência de Seguros Privados), e isso faz uma enorme diferença. A maior delas é não conter a proteção do Fundo Garantidor de Crédito. Trata-se de um risco e tanto.

Mas por que a contratação de uma Previdência Privada pode vir a ser um péssimo negócio?

Primeiro, porque ela embute a cobrança de taxa de administração (um custo anual para administrar seus recursos). Dependendo do índice fixado, sua rentabilidade pode ficar muito comprometida.

Segundo, porque também cobram taxa de carregamento. É uma espécie de ‘pedágio’ descontado de cada contribuição que você faz para seu fundo. Imaginemos que você se disponha a contribuir com R$ 1 mil mensais, por 30 anos, para ter uma aposentadoria tranquila. E que a administradora lhe cobre uma taxa de carregamento de 5% sobre cada contribuição: a cada depósito feito, haverá o desconto de R$ 50. Portanto, o seu fundo – aquele dinheiro que renderá e lhe será devolvido lá na frente – será constituído por apenas R$ 950 mensais, e não o montante que você depositou. Nesses 30 anos, a diferença é brutal. Considerando uma rentabilidade de 0,3715% ao mês (a mesma da caderneta de poupança), fizemos uma simulação e o seu fundo teria o seguinte resultado:

Sem a cobrança de taxa de carregamento: R$ 753.620,00

Com a cobrança de taxa de carregamento: R$ 715.939,00

(não levamos em conta taxa de administração nem outros eventuais custos envolvidos)

Portanto, uma diferença importante de R$ 37.681,00 no período de capitalização.

Por fim, há ainda um terceiro ponto que, dependendo da situação, eu considero como o mais importante: numa Previdência Privada você se submete ao tipo de investimento que o administrador escolhe para o seu perfil. E, pior: você dificilmente terá acesso aos recursos numa eventual emergência/urgência. E se assim lhe for permitido, você saca MENOS do que o saldo disponível, visto que nesses casos invariavelmente será cobrado um deságio, espécie de “multa” por você não ter cumprido o prazo inicial contratado. E você também não poderá migrar seus recursos para outro produto financeiro que, no momento, esteja oferecendo uma rentabilidade melhor.

Resumindo: muito cuidado com a conversa do seu gerente. Você precisa estar munido de informações para tomar a melhor decisão. Que tal considerar uma forma em que você mesmo gerencie esses seus recursos?

Lembre que é o seu dinheiro que está em jogo: se você não o valorizar, ninguém mais o fará. Dinheiro não aceita desaforo.