As vítimas de Suzano é que precisam ser lembradas

19 de março de 2019
Pedro Jácome
por

É advogado, pitaqueiro sem diploma e fã incondicional de Marília Mendonça.

Uma pergunta filosófica interessante é a de se o Bem e o Mal são forças equiparáveis. Isto é. Se há alguma superioridade de uma sobre outra ou se elas são, por assim dizer, “do mesmo tamanho”.

Uma resposta é a de que o Bem supera o Mal, pois o mal não existe em si, mas apenas como meio perverso de conseguir algo que é bom.

Se eu roubo um relógio, o problema não é o relógio, mas a maneira pervertida de obtê-lo.

O estupro é mau, não pelo prazer sexual (pretensamente) obtido, mas pelo meio completamente iníquo de obtê-lo.

Em todas as ações humanas, creio que sempre pretendemos um bem ou algo que cremos ser bom.

Mesmo os maiores criminosos da história (como o próprio Goebbels classificou, em 1943) queriam algo que consideravam bom.

Tornar a Alemanha “Judenrein” era, na percepção tarada e psicopata dos nazistas, uma coisa boa.

O que nos choca, na história, tanto dos nazistas, quanto dos socialistas, não é, sobremaneira, a idéia estapafúrdia de um país (ou um mundo) mais feliz e próspero – por mais idiota que seja a idéia.

Sobretudo, o que nos causa pavor e indignação são os meios empregados para obter tal fim (sejam eles os gulags ou os campos de extermínio).

Todo assassino pensa em obter para si alguma vantagem.
Brutus pensava na vantagem política, Suzane Von Richtofen pensava em vantagem econômica (penso), as queimas de arquivo visam a impunidade (e, portanto, a liberdade), até o vizinho que mata um sujeito por causa de um som alto, o faz porque não se acha merecedor de suportar MC Kevinho a 130 decibeis todo final de semana.

Todo criminoso ou sujeito imoral pensa, enfim, em reestabelecer ou estabelecer uma situação de maior conforto. Seja ela visível ou a mera remoção de um obstáculo à sua tranquilidade psíquica.

Sim, mas por que digo isso tudo?
Reflito sobre o massacre de Suzano.

Sempre após os mass shootings, a estupidez pública se dobra ao debate sobre gun control.

Se os meninos não tivessem armas – se os professores tivessem armas.

Um debate idiota e posteriormente talvez escreva porque penso dessa maneira.

O que há de se pensar é o porquê de jovens cometerem esse tipo de ato, que aparentemente não tem nenhum objetivo, a não ser a satisfação da psicopatia e da perversidade humana.

Eles não buscam dinheiro, nem liberdade. Eles não conheciam aquelas crianças e não teriam motivação para cometer o ato contra aquelas vítimas.
O assassinato é meramente aleatório.

Por que alguém faz algo assim?

Imagino que a única coisa que eles se preocupavam e o único “bem” que os assassinos recebem é a fama.
Seu rosto, seu nome e sua história espalhada pelo país e pelo mundo.

O reconhecimento e reverência por outros jovens tarados nos seus malditos chans.
Em nome disso, acredito que deveríamos ter em relação aos carrascos, o mesmo silêncio que temos em relação aos suicidas.

É claro que os suicidas merecem infinitamente mais nossa compaixão e sensibilidade.

Mas o suicídio é tabu, entre outras, para evitar o Efeito Werther. Isto é: a multiplicação de casos de auto-extermpinio pela mimetização.

Acho que deveríamos fazer o mesmo em relação esses jovens assassinos.

Negar-nos a dizer seus nomes e a ver seus rostos.
Que morram no anonimato. Como se nunca tivessem existido.
E não proponho isso como vingança sádica contra os executores, mas como maneira de tentar prevenir que mais casos aconteçam.

Pode parecer bobagem e talvez seja, mas talvez seja o máximo que esteja ao nosso alcance.

“Escreva uma carta à minha velha mãe
E diga-lhe que o cowboy que ela amava partiu
Mas não diga uma só palavra sobre o meu assassino
Não mencione o seu nome, e seu nome será esquecido”

Foi isso que descobri quando andava pelas Ruas de Laredo.

A nossa vingança e talvez o remédio mais eficaz, seja o de lembrar sempre mais o nome das vítimas do que a dos covardes.

Daremos a elas, então, a história que construiriam e não faremos de seu sangue tinta para escrever na história o nome de demônios.