Arte de caçamba de lixo

6 de dezembro de 2017
Dennys Garcia Xavier
por

É Professor Associado de Filosofia Antiga e Ética da Universidade Federal de Uberlândia. Tem Pós-doutorado pela Universidade de Brasília (UnB) e pela Universidade de Coimbra.

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Talvez seduzidos pelas conquistas e pelos avanços das técnicas que criamos, reduzimos o universo dos nossos mais altos valores a dois aspectos cotidianos da existência humana: ao fazer e ao produzir…e isso, a qualquer custo. Certo, o fazer/produzir trouxe avanços importantíssimos para todos nós, seria ingênuo negá-lo. A atividade humana merece espaço destacado exatamente porque se fez portadora da promessa de um “paraíso na terra”, de uma realidade na qual os homens dispõem de ferramentas para transformar o ambiente em que vivem numa espécie de posto imaculado, tanto quanto possível isento de arestas, projetado e planejado à luz de saberes que só eles poderiam/podem conceber: um prêmio, em suma, pelo seu esforço realizador e pela sua superior condição intelectual. Ao que parece, no entanto, chegamos a um ponto marcado pela bizarrice crônica: abandonados em meio ao nosso radical produtivismo esvaziado de sentido, criamos aquelas que têm progressivamente se mostrado as raízes não mais da promessa de vida venturosa, mas nas que podem vir-a-ser as raízes de nossa queda no tempo.

Ora, o que acontece em ambiente “artístico” contemporâneo é uma barbaridade e ilustra bem o que digo! A ideia – tipicamente contemporânea – de que tudo vale joga grossa camada de cimento sobre elementos estéticos cultivados no decorrer de séculos e depurados pelo que o espírito humano produziu de mais sublime. Se, a seu tempo, o Impressionismo nos expôs a algum grau de relativismo na concepção do belo – sem, no entanto, jamais levá-lo a extremos grotescos – hoje temos que aceitar como razoável qualquer lixo despejado nas caçambas de espaços “alternativos”, “underground”, “cavernosos” sob pena de sermos acusados de termos nos transformado em alguns dos “-istas” que giram pelo léxico político-ideológico da moda: “golpista”, “elitista” e così via.

Não se trata de raciocínio simplório que pretende anular o outro, censurar, vetar…nada disso. Poderia aqui dizer do incômodo de ver um país miserável bancando com verba pública crianças que esfregam adultos como instrumento de formação artística, ou jovens universitários – cada um custa em média R$ 41.000,00 por ano aos cofres públicos – com velas acesas introduzidas em seus doutos orifícios anais com o mesmo argumento. Se há mãe e pai responsável — no primeiro caso — e se há possibilidade de responsabilização jurídica, no segundo caso, assunto encerrado. Mas a coisa vai além! A arte, tosca ou excelsa, nos põe diante de um espelho histórico que nos grava para a posteridade. Ela é o que somos num dado momento, o que podemos oferecer de nós mesmos para o amanhã. É este o nosso retrato futuro? Somos os porta-vozes da mensagem segundo a qual, pelo fazer/produzir, tudo vale? Gostaria de pensar que podemos mais do que isso, que não devo me esforçar para “ressignificar” coisas sem sentido, como, sei lá, uma caixa com esterco sobre um pedestal, um sujeito a abrir latas de metal em sessão pública, urinol preso à parede ou uma senhora tomada por musa pouco gentil a gritar coisas desconexas em “instalação artística”.

Talvez sejamos vítimas do falso paradigma do homem mestre da natureza, segundo o qual a técnica se encarregará de levar a bom termo o curso do desenvolvimento humano, vai saber. Podemos ter embarcado em aventura descontrolada na qual o simples criar tornou-se um fim, e não mais – como talvez deva ser – um meio para garantir modelo de vida superior para o homem. Seria a concretização do homem moderno nietzschiano?

“O homem moderno crê experimentalmente ora neste, ora naquele valor, para depois abandoná-lo; o círculo de valores superados e abandonados está sempre se ampliando; cada vez mais é possível perceber o vazio e a pobreza de valores; o movimento é irrefreável […]. A história que estou relatando é a dos dois próximos séculos” (Fragmentos Póstumos).

Quem viver, verá…mesmo com aquele amargo na boca de quem imagina estar entre o deserto e o vazio, em estágio que se deseja desenvolvido, mas que pouco se afasta do larvário.