A Maternidade e Seus Ciclos

13 de Maio de 2018
Gerlaine Moura
por

Gerlaine Moura é psicóloga, psicoterapeuta cognitivo-comportamental, coach e idealizadora dos projetos: FloreSer Feminino e CorAção de Mãe. Trabalhar com grupos femininos, viajar, estudar psicologia positiva, mitologia e simbologia estão entre suas paixões.

Ser mãe é um constante recompor. “Se recompor” diante dos inúmeros desafios que a maternidade coloca todos os dias. Re-compor diz respeito a compor uma nova canção dentro da maternidade. Sim. Compor uma nova letra, nova melodia, com ritmo e acordes diferentes e mais afinados com a nova realidade que se apresenta na vida da mulher ao se tornar mãe.

A relação entre mãe e filho convida de tempos em tempos uma re-visão emocional, uma adequação e ajustes na forma de se relacionar. A cada ano, novas experiências e aprendizados dão à luz uma nova relação, construção de um novo vínculo, do qual será a força motriz para que tanto mãe e filho, se reconheçam em seus novos papéis e os administrem com sabedoria, consciência e afeto. Perceber o filho sob nova perspectiva requer da mãe um olhar  ampliado e consciência para desapegar-se de  expectativas e projeções inconscientes, que muitas vezes criam mais murros que pontes dentro da relação. Como é difícil abandonar todas as idealizações e julgamentos criados para os filhos! Durante 9 meses cria-se a fantasia de como o filho será, e assim a história dele começa, muito antes dele nascer já existe um conto sendo escrito sobre ele.   E às vezes, tarefa árdua é compreender que o filho fará sua própria história, que ele não é uma extensão dos pais, e que o cordão umbilical muitas vezes não é cortado na sala de parto. Esse fio de amor e união, essa simbiose da qual mãe e filho são nutridos, pode se tornar patológica quando a mãe resiste em cortar o cordão da posse e do controle. Pensar que a vida vai cuidar do seu rebento é se arrebentar de insegurança, mas é também confiar  que o filho tem recursos suficientes para lidar com a vida, e que tudo está certo, tudo está no seu devido lugar, tudo foi ou é como deve ser. É aprender que a aceitação traz  paz e leveza para continuar sendo mãe, ocupando o lugar de mãe, e permitir ao filho ser filho, e que ocupe o lugar de filho.

Ser mãe é revisar seus valores e necessidades de tempos em tempos, verificar se há algo que não faz mais sentido na forma de criar o filho, é  uma eterna construção de identidade, pois ser mãe de um bebê é diferente de ser mãe de uma criança, de um adolescente, de um jovem adulto ou de um adulto.  A cada fase da vida do seu filho uma nova mãe vai se formando, se criando e se recriando; e nessa longa jornada de adaptação, ser mãe é como ser um camaleão. É dançar conforme a música. É considerar que as necessidades do seu filho são tão importantes quanto as suas próprias, e que são mutáveis ao longo do tempo. É compreender que seu filho é único e que em todas as fases do desenvolvimento ele se nutre e se fortalece quando é  validado na sua subjetividade, e que validar é permitir a ele ser quem é ou se tornar o que é. É ouvir a alegria,  o medo, a tristeza e a raiva do filho, sem julgamento e com acolhimento, ensinando-o  que as emoções foram feitas para serem sentidas, e dessa forma orientá-lo como lidar com os sentimentos.  Ser mãe é reconhecer a essência do filho e apresentá-la a ele, fazendo com que o filho se reconheça, se enxergue através dos olhos da mãe; pois é o olhar da mãe que reflete a força pessoal e os dons e talentos de todos os seres deste planeta.

A  maternidade poderia ser comparada a um pássaro, a fênix, da qual exige sempre o renascimento. Assim como na mitologia,  em que a fênix renasce das cinzas, é a mãe em sua maternagem: um constante ciclo de vida-morte-vida, um eterno morrer-se desapegar-se de sentimentos, pensamentos e comportamentos que outrora fizeram sentido, porém já não mais. O sabor doce e também amargo da maternidade é real, inclui muitos ganhos e também muitas perdas, assim como tudo na vida, ônus e bônus, luz e sombra, alegria e tristeza, serenidade e inquietude, prazer e dor. Ser mãe é conhecer bem de perto, olhos nos olhos do paradoxal sentimento da dualidade.