A maior estátua do mundo e Bolsonaro

5 de novembro de 2018
Rafael Nogueira
por

Rafael Nogueira é professor de Filosofia e História.

A inauguração da maior estátua do mundo na Índia diz muito sobre a mudança de mentalidade por que tem passado a nossa época, e abre mais uma reflexão sobre o Brasil.

Trata-se da imagem de Sardar Patel, o discípulo de Gandhi que se tornou o principal líder da Independência indiana, e também de sua unidade. É o José Bonifácio deles.

A iniciativa partiu da direita da Índia, que tem trabalhado pelo resgate da identidade nacional como o fazem as direitas de outros países. Poucos enfatizam esse fato, mas é a verdade.

Mesmo não sendo vinculado a nenhum partido e não ganhando absolutamente nada com o crescimento deste ou daquele político, eu mesmo tenho recuperado a memória de heróis nacionais, e colaborado com esse resgate da consciência nacional. Minha colaboração com o Brasil Paralelo, com o filme do Bonifácio, e com centenas de palestras pelo Brasil têm seguido esse caminho. Mas voltemos à Índia.

Desde 2014, a Índia é governada por um partido conservador de direita, e seu primeiro-ministro tem logrado êxito na Economia e na pacificação do país, embora tenha sofrido muito com difamações na época de sua campanha eleitoral por ser “nacionalista hindu”. Pelo menos, segundo os adversários e a extrema-imprensa local. Conhecemos bem esses movimentos. A sorte dele foi não ter tido empenho internacional contra si.

As direitas que defendem as nacionalidades não me parecem, nem remotamente, estar conduzindo seus povos a um retrocesso. São apenas facetas de uma força política que está trazendo a dignidade das nacionalidades de volta ao seu posto de honra.

A direita não é portadora da verdade da vida, mas também não é propagadora de fascismos ou nazismos. As identidades nacionais têm sido destroçadas por uma identidade global criada pelas cabeças de intelectuais megalomaníacos e de burocratas globalizantes. Isso não é vantajoso para ninguém.

Como temos a dolorosa experiência do século XX, é preciso resgatar identidades sem degenerar para o racismo, o imperialismo e o totalitarismo. E isso fica mais fácil hoje do que na época não só pela lição aprendida — também por ela — mas porque não há uma internacional racista em voga como havia com o antissemitismo, nem tendências militares expansionistas (com exceção de um ou outro povo, como o russo, talvez), nem líderes semi-divinos, movidos por propagandas multimilionárias, usando do racismo, do imperialismo e da retórica nacionalista para exercer domínio total sobre seus povos.

Eu nem precisaria dizer, mas digo porque hoje a burrice impera, que Bolsonaro não tem nada com movimentos organizados internacionalmente pelo avanço de pautas racistas (não, amigo elenão, chamá-lo de racista por um ou outro comentário idiota não o faz comparável a nenhum promotor do antissemitismo pré-nazista), nem com ímpetos expansionistas (querido mongolão, Jair não quer anexar a Venezuela).

A comparação com Mussolini e Hitler fica ainda mais ridícula quando percebemos que Bolsonaro não se considera um ser superior quase divino, nem assim é visto pelo seu eleitorado, por mais aguerrido que seja (não vem com essa de “salvador” que eu não conheço um único eleitor que não saiba que ele tem muitos defeitos, e ele mesmo não esconde que os têm).

Tampouco cresceu por propagandas profissionais, bilionárias, tendo gastado tão pouco com ela que pôde até considerar uma doação vultosa ao hospital que lhe salvou a vida.

Já o PT de Handdade, nome que desaparecerá de nossas lembranças muito em breve, gastou 10 vezes mais, inclusive o que não tinha, e está agora pedindo dinheiro para pagar o que deve — catástrofe econômica que explica o nosso estado lastimável na economia depois de quase 15 anos de PT no poder.

Recuperar as identidades não fará mal nenhum à ordem internacional. Aliás, o prefixo “inter” vem do latim e significa “entre”. Ou o panorama internacional é um arranjo entre nações, ou é uma organização supranacional. “Tertium non datur”.

Eu tenho horror à possibilidade de governarem povos desde um posto tão elevado que o chamaria apropriadamente de “mundo da lua”. O povo se autogoverna ou elege, entre os seus próximos, os representantes. Fora isso, é tirania da braba.

O Brasil caminha para se federalizar e para avançar economicamente, para se unir e para se afirmar como a potência que é por vocação. E essa não será uma tarefa só do Bolsonaro. Este homem heroico é apenas o gladiador que enfrentou o imperador para devolver o que é do povo ao povo. Cada um de nós terá que participar desse novo concerto, com o melhor que puder fazer, ou os resultados serão pequenos.

O desafio da educação é justamente esse. Cada um fazendo o seu para se autoeducar, para difundir o que sabe, e para valorizar o saber.

Consciência é algo que existe em indivíduos, não em coletividades. A sociedade puramente liberal atomiza os indivíduos fazendo-os vulneráveis. O conservadorismo os integra em unidades plenas de sentido, e os fortalece pela memória histórica e pela projeção de grandeza futura comum.

A nova esquerda terá que perceber que a história e os fins buscados no futuro não serão objeto de usurpação. Se quiser disputar, terá que apresentar melhores meios, meios que se enquadrem no sentido histórico dado em busca de fins realistas. Aqueles que os povos desenvolvem em seus caminhos de experimentação, imaginação e pensamento.

Abandonando o vício das mentiras históricas e a loucura das projeções futuras utópicas, poderá voltar a falar as línguas de seus povos, e daqueles que os defendem.

Que o espírito nacional indiano não se restrinja ao bronze, mas que vivifique as almas de seus cidadãos. Quando a nacionalidade perde força, até os cuidados contra incêndios são esquecidos. Que o Brasil aprenda também essa mesma lição.