5 livros para quem quer saber mais sobre o Conservadorismo

9 de janeiro de 2019
Rafael Nogueira
por

Rafael Nogueira é professor de Filosofia e História.

Uma das coisas que mais me pedem é lista de livros. Eu odeio que me peçam listas de livros. Elas não resolvem nada por si sós. Muita explicação é necessária para uma lista fazer sentido, ou, observando desde outro ângulo, a leitura de um único livro bem escolhido vale mais do que o acúmulo de listas sem sentido.

Aliás, se você não leu os grandes livros da literatura, da filosofia, da história, da política, da teologia e da ciência, por que a dúvida a respeito do que ler? Leu Machado de Assis? Shakespeare? Dostoiévski? Platão? Aristóteles? Santo Agostinho? Santo Tomás de Aquino? A Bíblia? Entre muitos outros, não só famosos e influentes, mas importantes para ampliar sua inteligência?

Não, né? Claro que não. Até eu estou atrasado com os clássicos. Por isso, não tenho acompanhado tanto as novidades, os livros da moda. Mas estes importam menos. Só vale a pena acompanhar tudo da especialidade a que nos dedicamos, para averiguar os avanços, retrocessos e repetições.

É claro que no meio desse quebra-cabeças de milhares de peças, bibliografias bem feitas da imagens norteadoras, são o ponto de partida de qualquer pesquisa que se preze. Servem para mensurar nossa ignorância, e para enxergar o caminho para vencê-la. Mas o que vejo sempre são iniciantes, pessoas interessadas em alargar seu horizonte cultural restrito, leigas em quase tudo, pedirem listas, listas e mais listas. Muitas, inclusive, contentam-se com as listas, e não leem nada depois.

Enfim, chega de reclamar. Hoje abrirei uma exceção. Os pedidos são muitos, constantes, e alguma imagem mais clara eu posso ajudar a formar. Trabalho com isso. E, para completar, nesta semana (segunda-feira) tivemos o dia do leitor. Aproveite, amigo leitor, que estou sensibilizado, e continue lendo para aproveitar as dicas que não pretendo repetir.

Escolhi um dos tópicos sobre os quais mais me pedem livros: Conservadorismo. E estabeleci estes critérios: foquei nos iniciantes, mas mantive o objetivo de fechar lacunas na imagem bibliográfica dos já cultos. Busquei livros mais ou menos introdutórios, de importância histórica e relevância atual.

Antes de tudo, dê uma olhada no que eu considero uma boa introdução: a lista que preparei para os alunos do Instituto Conservador de São Paulo. Estudamos por dois anos autores clássicos (já expliquei por quê) e autores dedicados a ensinar, explicar, complementar ou organizar a ideia de conservadorismo.

Agora, vejamos cinco livros indispensáveis. Só cinco, entre as mais de 50 leituras sugeridas no curso acima a título introdutório.

 

  1. Reflexões sobre a Revolução na França

Escrito no século XVIII por Edmond Burke, intelectual irlandês que fez parte do Parlamento Britânico, o livro apresenta, pela primeira vez na história, as ideias fundamentais que, juntas, montam o conceito de conservadorismo.

A bem da verdade, um certo conservadorismo como uma disposição psicológica, ou como comportamento contrário a mudanças bruscas e mal pensadas, existe desde sempre. Mas como a Revolução Francesa é o evento por excelência de formação das esquerdas revolucionárias, e de eclosão da mentalidade revolucionária, a análise conservadora sobre ela — que, aliás, mostrou-se muito acertada e mais razoável do que as justificativas de qualquer revolucionário — é a pedra fundamental da própria auto-compreensão conservadora, e de seus desenvolvimentos teóricos posteriores.

Os pontos altos são o desmonte das teorias políticas que inspiraram a Revolução Francesa, e a exposição de sua visão de sociedade, como uma união entre os que já morreram e nos deixaram um legado, os vivos e atuantes no presente, e a posteridade.

Recomendo a edição da Vide Editorial, pelo prefácio do João Pereira Coutinho, especialista em Burke, e pela tradução de Marcelo Gonzaga de Oliveira, que não mede esforços para entregar trabalhos de excelência.

2.Ser Conservador

O ensaio “On Being Conservative”, de Michael Oakeshott, é igualmente indispensável. É ele que desenha a ideia da chamada “disposição conservadora”, algo como uma atitude diante da vida, não um corpo de crenças.

Suas explicações inspiram cautela com as inovações, mas não conduzem à completa negação das mudanças. Enfatizam a importância da experiência acumulada e a ingenuidade da imensa maioria das ideias novas. Fala do valor dos costumes herdados e das leis que nos foram transmitidas como uma herança milenar pela qual muitos viveram e morreram.

As analogias com o Brasil devem ser cuidados. A Inglaterra é mais antiga, mais zelosa de suas tradições e tem um sistema jurídico (e judicial) bem diferente do nosso, de modo que o “conservar” de Oakeshott fica um pouco descaracterizado quando transposto adequadamente à nossa experiência.

É natural, no meio da leitura, surgir a pergunta: “Raios, o que conservar desta droga?” Mas, sem drama, amigos! Temos que conservar as nossas famílias e suas histórias, quando possível, as nossas amizades, os nossos melhores costumes, as histórias e lendas patrióticas, o legado civilizacional que recebemos, e a personalidade marcante do nosso povo. No mínimo, isso. E já é muito. Se a dúvida se mantém, assista à série “Brasil — A Última Cruzada”, feita pelo Brasil Paralelo, e o filme “Bonifácio — o Fundador do Brasil”, dirigido pelo Mauro Ventura, ambas com minhas participações, conselhos e orientações.

A obra de Oakeshott é particularmente interessante por não criar o vínculo de necessidade entre conservadorismo e religiosidade. É possível, desde essa perspectiva, ser um conservador ateu. Trata-se de uma disposição, afinal.

3.A Política da Prudência

Russell Kirk é um dos principais nomes do conservadorismo mundial, mas, desta vez, temos uma vertente americana daquilo que começamos a entender por meio de uma visão britânica.

Se Burke apresenta suas ideias pelo contraste com as que serviram de sustentáculo da Revolução Francesa — e o faz com tal maestria que é possível retirar de sua obra toda uma visão de sociedade e política –, se Oakeshott apresenta o conservadorismo como uma disposição, que pode ser adotada por qualquer pessoa com cérebro em bom funcionamento, Kirk formula uma espécie de doutrina com foco numa virtude: a prudência.

Chamo de doutrina porque ele retoma a construção conceitual, a ponto de fazer importantes distinções, como a que diferencia ideologia e conservadorismo, e ao mesmo tempo organiza e hierarquiza as ideias principais, os livros principais, os eventos históricas mais característicos etc.

É um sistematizador nato, e sua obra, se lida sem fanatismo, pode ajudar o estudioso a se orientar melhor no meio de tantas visões políticas. É coisa de gênio.

4.Rerum Novarum

Como as três obras anteriores são anglo-saxãs, e, por isso, de difícil aplicação para diagnósticos e programas políticos brasileiros, vou mudar o rumo nas duas últimas indicações, inclusive, vou viajar no tempo de forma um tanto brusca.

Lembro o leitor de que eu poderia indicar outras duzentas obras, mas escolhi estas cinco porque… Porque sim. Estava a fim de falar delas

“Rerum Novarum” é uma encíclica papal (documento explicativo que o Papa dirige aos bispos, para que cheguem, enfim, aos fieis) escrita no final do século XIX pelo Papa Leão XIII, com o fim de resolver certas dificuldades criadas pelas novas circunstâncias criadas pela Revolução Industrial, e pelas novas ideias trazidas, sobretudo, pelos socialistas. Daí o título “Das Coisa Novas”.

É interessante ler esse documento ao falar de conservadorismo no Brasil porque o país estruturou-se assentado no catolicismo, e alguns critérios políticos e econômico que circulam por toda nova direita divergem frontalmente da visão da Encíclica. Se devemos conservar também o que, como povo, aprendemos do Magistério da Igreja, devemos prestar atenção a este documento, e também aos outros que a sucederam, escritos pelos Papas Pio XI, Paulo VI e João Paulo II.

O principal chamado de atenção que fez o Papa em Rerum Novarum, que se choca com visões amplamente divulgadas em nosso meio, é o de que os capitalistas também nos conduzem ao erro. É verdade que Leão XIII deixa claro que não há ponto de contato entre socialismo e comunismo com a Igreja cristã, mas também é verdade que ele alerta para os perigos da mercantilização da vida, e sustenta ideias de proteção aos trabalhadores e de ajuda caritativa e estatal aos necessitados.

É bom que conservadores alfabetizados politicamente com o pessimismo anglo-saxão, complementem seu entendimento com um pouco de caridade e dignidade espiritual. 

5.O Mínimo Que Você Precisa Saber Para Não Ser Um Idiota

Nossa última indicação é obra de coletânea de textos jornalísticos escritos por Olavo de Carvalho e organizados por Felipe Moura Brasil. O professor Olavo não tenta definir conservadorismo, não quer saber o que é e o que não é ser conservador, nem discute se isso tudo se trata de ideologia, ideário ou disposição.

Olavo expõe os vícios, as crueldades e as chacinas causadas pelas esquerdas, ensina a enxergar seus reais propósitos, dá caminhos para o estudante sério encontrar-se no mundo, e mostra que grande parte dos males sofridos pelo Brasil e pelo mundo derivam da “mentalidade revolucionária”, o compromisso de fé com um futuro hipotético idealizado que serve até de critério moral (atos presentes são julgado pelo que representam para o futuro que está por vir pelo processo revolucionário).

O aparato analítico que Olavo desenvolve e aplica, com total originalidade, é tão importante que o conservadorismo ganha espaço naturalmente, florescendo ali onde a esquerda ocupava todo o espaço com seus delírios sanguinários.

O livro é absolutamente indispensável, acima de tudo, porque contextualiza toda discussão anterior no Brasil dos anos 90 à primeira década do século XXI.

Sem Olavo, não haveria espaço para nenhum conservadorismo.